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História2 Crônicas

A Bíblia de Bach: As anotações que revelam a sua fé

A Bíblia de Bach: O que as anotações nas margens revelam sobre a sua fé

Diego Gonçalves5 min de leitura998 palavras

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Neste texto

Na década de 1930, um pastor luterano que vivia na pequena cidade de Frankenmuth, no estado de Michigan, nos Estados Unidos, fez uma descoberta que surpreendeu o mundo da música. No sótão da casa de uma família de imigrantes alemães, repousavam três volumes pesados de uma edição rara da Bíblia comentada pelo teólogo luterano Abraham Calov, impressa entre 1681 e 1682.

Quando abriram as páginas amareladas, veio a surpresa: a caligrafia minuciosa nas margens, as correções de texto e o monograma na capa pertenciam a ninguém menos que Johann Sebastian Bach.

Retrato de Johann Sebastian Bach segurando uma partitura, vestido com peruca e casaco azul
Elias Gottlob Haussmann, Retrato de Johann Sebastian Bach, 1748. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Durante séculos, muitos biógrafos seculares tentaram pintar Bach apenas como um funcionário burocrático que compunha música sacra por simples obrigação de contrato na igreja de São Tomás, em Leipzig. Mas a descoberta daquela Bíblia pessoal desmentiu essa teoria. As anotações que o próprio punho de Bach escreveu ao lado dos versículos revelam um homem cuja mente e coração eram completamente moldados pelas Escrituras.

Onde há música devota, Deus está presente

Uma das anotações mais comoventes de Bach está no segundo livro de Crônicas, capítulo cinco. O texto bíblico relata a inauguração do templo de Salomão em Jerusalém. Os sacerdotes tinham acabado de colocar a arca da aliança no Lugar Santíssimo, e os levitas músicos começaram a tocar trombetas, címbalos e harpas, levantando as vozes em uníssono para louvar a Deus porque “sua misericórdia é para sempre” (2 Crônicas 5:13, Bíblia Livre).

O versículo diz que, naquele exato instante, uma nuvem encheu a casa do Senhor de tal maneira que os sacerdotes nem conseguiam ficar em pé para ministrar.

Ao lado desse relato bíblico, Bach pegou a pena, molhou na tinta e escreveu em alemão uma frase que resume toda a sua teologia da arte:

“Onde há música devocional, Deus está sempre presente com a sua graça.”

Para Bach, a música sacra não era um mero enfeite estético para preencher o silêncio entre as orações da congregação. A música era, em si mesma, uma proclamação da presença divina. Ele acreditava com todas as forças que, quando o ser humano dedica o melhor do seu talento para glorificar ao Criador, o próprio céu se inclina para se fazer presente naquele espaço.

Músicos como ministros da Palavra

Outra passagem densamente anotada por Bach é o capítulo vinte e cinco de Primeiro Crônicas. Ali a Bíblia descreve como o rei Davi e os chefes do exército separaram os filhos de Asafe, Hemã e Jedutum para profetizarem com harpas, alaúdes e címbalos no templo.

Na margem, Bach escreveu com firmeza: “Este capítulo é o verdadeiro fundamento de toda a música eclesiástica agradável a Deus”.

Em outra anotação no mesmo livro, ele fez questão de registrar que a música no culto não era uma invenção humana arbitrária, mas algo “ordenado por Deus através de seus profetas”.

Bach não via a si mesmo como um artista vaidoso em busca de aplausos da corte, mas como um herdeiro espiritual dos levitas de Israel. A tarefa dele ao compor uma cantata semanal para o domingo era tão sagrada quanto a do pastor que subia ao púlpito para pregar. Se o pregador proclamava a verdade de Deus com a voz falada, Bach pregava a mesma verdade traduzida em fugas, corais e contrapontos matematicamente impecáveis.

A arte sem vaidade e sem mercado

As anotações bíblicas de Bach confrontam a nossa cultura. Vivemos numa época em que a música religiosa virou uma engrenagem pesada da indústria do entretenimento, com foco em métricas de visualização, palco bem iluminado e autopromoção de artistas nas redes sociais.

Bach compunha obras de complexidade monumental sabendo que a maior parte delas seria executada apenas uma vez, num culto de domingo de manhã, diante de fiéis comuns que muitas vezes nem compreendiam a grandiosidade técnica do que estavam ouvindo. Ele não recebia cachês milionários, brigava constantemente com os burocratas da prefeitura para conseguir sustentar a família numerosa e morreu praticamente cego, esquecido pelo grande público da sua época.

Mas nada disso lhe tirava a paz. Por quê? Porque o destinatário final do trabalho dele não eram os críticos de arte nem as autoridades de Leipzig.

O trabalho de Bach era endereçado a Deus. Ele colocava as iniciais J.J. (Jesu juva, “Jesus, ajuda-me”) no início da pauta porque sabia da própria fragilidade humana para criar qualquer coisa boa; e colocava S.D.G. (Soli Deo gloria, “Somente a Deus a glória”) no fim porque tinha a convicção de que qualquer beleza que saísse dos seus dedos pertencia inteiramente ao Senhor.

O altar que cabe na nossa mesa de trabalho

A lição que fica da Bíblia de Bach vai muito além do mundo da música. Ela nos ensina que não existe divisão entre o sagrado e o comum quando a nossa vida inteira é entregue a Deus.

A mesa em que você estuda, o computador onde você redige relatórios, o balcão onde você atende pessoas ou a oficina onde você conserta coisas podem ser exatamente o que a mesa de partituras foi para Bach: um lugar de culto. Quando fazemos o nosso trabalho diário com honestidade, dedicação e excelência para a glória de Cristo, o trabalho deixa de ser um fardo pesado para virar uma oferta viva de louvor. É a doutrina da vocação, tão cara aos reformadores: o cristão serve a Deus no ofício comum, sem acrescentar nada à obra de Cristo, mas respondendo com gratidão à graça recebida (Colossenses 3:23).

Nas margens da Bíblia e nas partituras da vida, o que realmente importa é se aquilo que fazemos tem como objetivo chamar a atenção para nós mesmos ou deixar que a graça de Deus se faça visível aos olhos do mundo.

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