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SermõesSermões em Salmos5 de 8

Salmo 85 e o avivamento: como Deus restaura o seu povo

A fórmula de Deus para o avivamento

Diego Gonçalves8 min de leitura1.542 palavras

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Neste texto

Quem já cozinhou em fogão a lenha sabe que a brasa não apaga de uma vez. De noite ela vai se escondendo debaixo da cinza e, de manhã, parece morta. Só que basta afastar a cinza e soprar com jeito pra ela ficar vermelha de novo. Agora repara numa coisa: ninguém sopra uma brasa que nunca existiu. Pra avivar, o fogo tem que ter sido aceso um dia.

É isso que a Bíblia chama de avivamento. Não é Deus fazendo uma coisa do zero, mas Deus soprando a brasa de um povo que já foi dele e foi esfriando debaixo da cinza. O Salmo 85 mostra como isso acontece. E o que mais chama a atenção é que o salmo gira em torno de uma palavra só, que em hebraico é shuv, “voltar”. Ela aparece várias vezes, de jeitos diferentes, e a gente consegue seguir o avivamento só acompanhando quem volta pra onde.

Primeiro, Deus voltou pra nós

O salmo começa olhando pra trás:

Favoreceste, SENHOR, a tua terra; restauraste a sorte de Jacó. Perdoaste a iniquidade do teu povo, cobriste todos os seus pecados.

(Sl 85:1-2, ARA)

Quem escreve já viu Deus agir. O povo tinha merecido o exílio, tinha quebrado a aliança e corrido atrás de outros deuses, e mesmo assim Deus trouxe todo mundo de volta. O verso 3 diz que ele se desviou do ardor da sua ira, e o verbo ali é o mesmo shuv. Deus se virou. A ira que estava apontada pra eles deu meia-volta.

Ninguém começa uma oração por avivamento com a lista do que merece. Começa com a lista do que já recebeu sem merecer. Se a gente for honesto, tem muita coisa nela: um perdão que não compramos, uma cruz que não carregamos, uma salvação que chegou primeiro que o nosso arrependimento. O apóstolo Paulo escreve que Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores (Rm 5:8). Quem lembra disso não pede com arrogância. Pede com a cabeça baixa e com confiança, que é uma mistura rara.

Repare também no “selá” que fica depois do verso 2. É uma pausa na música, um momento pra ficar quieto. Alguns perdões a gente só consegue receber parando.

Depois, a gente pede que Deus nos faça voltar

Do verso 4 em diante a oração muda de tempo. Antes era “tu fizeste”, agora é “faz de novo”:

Restaura-nos, ó Deus da nossa salvação, e faze cessar a tua ira contra nós. Estarás irado contra nós perpetuamente? Prolongarás a tua ira de geração em geração? Porventura, não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se regozije o teu povo? Mostra-nos, SENHOR, a tua misericórdia e concede-nos a tua salvação.

(Sl 85:4-7, ARA)

“Restaura-nos” é shuvenu, “faz a gente voltar”. Esse é o pedido de quem sabe que se afastou. A gente pode se afastar de Deus sem sair da igreja, sem largar a Bíblia na gaveta e sem abandonar nenhum hábito religioso. Basta o olhar ir descendo, descendo, até parar em outra coisa. Aí o coração fica como a brasa debaixo da cinza: tem calor, mas não tem chama.

Por isso o pedido de avivamento começa com arrependimento. Não dá pra pedir fogo e continuar sentado em cima da cinza.

O verso 6 repete o verbo de novo, mas agora com Deus como sujeito: “não tornarás a vivificar-nos?”. Ou seja, a gente se volta pra ele e pede que ele se volte pra nós. As duas coisas andam juntas. E o fim da frase diz pra quê: “para que em ti se regozije o teu povo”. O avivamento que a Bíblia descreve é alegria. Um povo que voltou a gostar de Deus, não só a cumprir tarefa pra ele.

Tem ainda um detalhe bonito. Quem pede avivamento já está, de algum modo, avivado. Ninguém ora assim sem que Deus tenha colocado esse desejo no peito. A oração por avivamento é o avivamento em forma de semente. Ainda não é a plantação inteira, mas sem semente não tem colheita.

E repare no fundamento do pedido. O argumento não é “porque nós fizemos por merecer”, mas “mostra-nos a tua misericórdia” (a palavra é hesed, o amor fiel de quem prometeu e cumpre). Em oração de avivamento, o mérito nunca aparece como argumento.

Pra onde a gente não volta

Aqui o salmista dá uma virada. Depois de pedir, ele se cala pra ouvir:

Escutarei o que Deus, o SENHOR, disser, pois falará de paz ao seu povo e aos seus santos, para que não voltem à loucura.

(Sl 85:8, ARA)

Agora o shuv aparece pela quinta vez, e é o verbo que mais interessa pra nossa parte. A gente pede que Deus nos faça voltar pra ele, mas também precisa decidir pra onde não vai voltar. Existe uma volta que é conversão e existe uma volta que é recaída, e as duas usam a mesma palavra.

Tem gente que ora por avivamento como o surfista que pede uma onda grande e, quando vê a onda chegando, corre pro lado oposto. Pede fogo e guarda o hábito que apaga. Pede quebrantamento e fica com a mesma mágoa. Orar sem estar disposto a mudar é só vontade de sentir alguma coisa.

O verso 8 e o verso 9 dão o jeito de ficar de pé quando o avivamento chega. Primeiro, escutar. Deus não fala só no culto, e quem quer ser avivado precisa de uma rotina de ouvir, que é também uma rotina de obedecer. A mãe que pede pela terceira vez pro filho arrumar o quarto não está reclamando de falta de som. Está dizendo: “ouviu, mas não escutou”. Escutar, na Bíblia, é fazer.

Segundo, não voltar à loucura. A palavra “loucura” aqui é a vida sem Deus no centro, aquela que a gente já provou e sabe que termina mal. O salmo diz que a paz de Deus vem pra quem não retorna a ela.

E terceiro, o temor do Senhor:

Próxima está a sua salvação dos que o temem, para que a glória assista em nossa terra.

(Sl 85:9, ARA)

Temer a Deus não é viver com medo dele, mas viver levando a sério quem ele é. É colocá-lo primeiro, no começo e no fim do dia, e no meio também. Dá pra medir a sinceridade de uma oração por avivamento olhando o tamanho dos compromissos que ela vem acompanhada.

O que acontece quando Deus visita o seu povo

O salmo termina com a vista do destino, como uma foto de uma cidade que a gente ainda não chegou:

A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram. Da terra brota a verdade, e dos céus a justiça baixa o seu olhar. Também o SENHOR dará o que é bom, e a nossa terra produzirá o seu fruto. A justiça irá adiante dele e lhe servirá de caminho.

(Sl 85:10-13, ARA)

São quatro imagens, e vale olhar cada uma como quem olha uma foto de viagem.

A primeira é um encontro. O amor de Deus encontra a fidelidade do povo. Ele sempre derramou o seu amor sobre este mundo, mas quando esse amor encontra um povo que ora e obedece, é como a chuva que cai em terra semeada. Chuva sem semente não dá nada, e semente sem chuva também não. Por isso a gente não consegue produzir avivamento sozinho, e por isso também não pode ficar parado esperando que ele aconteça sem a nossa parte.

A segunda é um beijo entre justiça e paz. Todo mundo quer paz em casa, no trabalho, no país. Só que a paz de verdade começa com a paz com Deus, e essa vem pela justiça que ele nos dá em Cristo. Quem se acerta com ele começa a ter condição de se acertar com os outros.

A terceira é a bondade: “o SENHOR dará o que é bom”. Esse sempre foi o desejo de Deus. Como um bom pai, ele quer dar, mas filho teimoso perde muita coisa boa, seja porque se preocupa em vez de confiar, seja porque vive de olho no que é dos outros e não percebe o que já ganhou.

A quarta é a justiça caminhando adiante dele e abrindo estrada. Deus não chega de surpresa, ele manda a justiça na frente. Dá pra ler isso como a vinda de Deus em visitação ao seu povo, e também como uma sombra daquele dia em que o Senhor voltar de vez, e a noiva estiver pronta, e o céu e a terra se encontrarem. Quem ora por avivamento está, no fundo, treinando o coração pra esse dia.

A brasa e o sopro

No fim das contas, o Salmo 85 ensina um caminho simples. Lembrar o que Deus já fez. Pedir que ele nos faça voltar e nos vivifique de novo. Escolher pra onde não voltar. E esperar com os olhos naquela cidade onde a misericórdia e a verdade se encontram.

O avivamento começa dentro da casa de Deus, não na rua. Quem sopra a brasa é ele. À gente cabe afastar a cinza.

Tomara que a gente comece pedindo, e que o pedido tenha o nosso nome: “Senhor, que o avivamento comece por mim”.