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SermõesSermões em Salmos7 de 8

Salmo 133a unidade que desce do alto como o orvalho

Vivendo em unidade

Diego Gonçalves7 min de leitura1.324 palavras

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Neste texto

Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!

É como óleo precioso derramado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Arão, até a gola das suas vestes.

É como o orvalho do Hermom quando desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor concede a bênção da vida para sempre.

(Sl 133:1-3, NVI)

Todo mundo conhece a diferença entre uma mesa cheia que é festa e uma mesa cheia que é campo de batalha. Em uma, o almoço de domingo dura a tarde inteira, ninguém olha o relógio e a panela de feijão volta duas vezes. Na outra, cada um come calado, olhando o prato, esperando o primeiro comentário que vai acabar com tudo. O Salmo 133 fala da primeira mesa. E diz de onde ela vem.

É um salmo curtinho, de apenas três versículos, mas está num lugar importante. Faz parte das canções de subida (Sl 120 a 134), que os peregrinos cantavam enquanto subiam a Jerusalém para as grandes festas. Pense nessa estrada: gente de tribos diferentes, de aldeias diferentes, com sotaques e ofícios diferentes, juntando-se aos poucos e rumando para o mesmo lugar, pra adorar o mesmo Deus. O salmo é atribuído a Davi, o rei que unificou as tribos, e é o resultado de quem sabe quanto custa e quanto vale ver o povo caminhar junto.

Bom e agradável, mas entre irmãos

O verso 1 abre com um convite a parar e olhar, como quem diz “repare só nisso”. E o que o salmista aponta é que a convivência em união é duas coisas ao mesmo tempo: boa e agradável. Nem sempre as duas andam juntas. A disciplina é boa, mas na hora não é agradável (Hb 12:11). Mel demais é agradável, mas faz mal (Pv 25:16). Quando os irmãos convivem em união, a gente recebe o melhor dos dois mundos. É bom, porque Deus aprova. E é doce, porque faz bem pra gente.

A palavra importante aí é “irmãos”. O salmo não fala de colegas que se dão bem, nem de gente que escolheu estar junto por gosto. Irmão a gente não escolhe. Na igreja também é assim: Deus nos adotou na mesma família, e agora tem que sentar à mesma mesa o que gosta de louvor animado e o que prefere hino, o jovem e a viúva, o patrão e o empregado.

E convenhamos, família dá trabalho. Caim matou Abel. Os irmãos de José o venderam. Os próprios discípulos de Jesus chegaram a discutir quem era o maior (Lc 22:24). A gente também, na igreja, tem desavença, tem mágoa, tem aquele irmão que sabe exatamente como irritar. Por isso o salmo não descreve a união como algo que acontece sozinho. Descreve como algo que vale a pena, e que a igreja primitiva chegou a provar: dedicavam-se juntos ao ensino, à oração, ao partir do pão, e tinham a simpatia de todo o povo (At 2:42-47).

O óleo que escorre

Agora vem a primeira figura, e ela é estranha pra nossa cabeça: óleo na cabeça, escorrendo pela barba, descendo até a gola da roupa. Hoje isso seria um desastre. No mundo antigo, era sinal de honra e de festa. Em clima quente e poeirento, o anfitrião generoso derramava óleo na cabeça do convidado, e o convidado saía refrescado (Sl 23:5).

Repare que o salmo não fala de um fiozinho de óleo. O óleo é “precioso” (a mesma palavra do “bom” do verso 1) e é tanto que transborda: da cabeça pra barba, da barba pra veste. Quando Deus dá unidade, ele não dá com mão de vaca.

E é óleo de Arão. Não é um óleo qualquer, mas a mistura sagrada de Êx 30:22-33, feita só para ungir o sacerdote e os objetos do culto. Isso diz muito sobre a comunhão cristã. Ela não é um clube nem um grupo de afinidades, mas uma comunhão consagrada, reunida em torno de Cristo, o nosso Sumo Sacerdote.

Tem mais. O óleo desce pela cabeça até a veste, e nas vestes do sumo sacerdote estavam gravados os nomes das doze tribos (Êx 28:9-12). Ou seja, o que desce da cabeça alcança todo o povo, cada um no seu lugar. É a imagem de Cristo como Cabeça da igreja e de nós como o corpo dele (Ef 5:23; Cl 1:18). A gente não está unido porque pensa igual, mas porque está ligado à mesma Cabeça. E na Bíblia o óleo é também símbolo do Espírito Santo, que Deus derramou em Jesus e Jesus derrama sobre o seu corpo.

O orvalho que cai onde está seco

A segunda figura muda de cenário. Agora estamos no norte, no monte Hermom, com mais de 2.800 metros de altura, de noites frias, neve no inverno e orvalho pesado durante o ano todo. Mas o salmo manda esse orvalho cair sobre os montes de Sião, bem ao sul, uma colina de pouco mais de 700 metros, quente e seca no verão. Como se o frescor do alto da montanha viesse até a colina que mais precisava dele.

Duas montanhas bem diferentes: a alta e a baixa, a fria e a quente, a do norte e a do sul. E o orvalho junta as duas. É assim a igreja. Há gente de cima e gente de baixo, rico e pobre, de um lado e do outro do país, e Deus faz de todos um só corpo (Gl 3:28). Uma unidade que atravessa as fronteiras que a gente mesmo desenha.

Orvalho tem outra característica: não sobe, só desce. Ninguém consegue fabricar orvalho. Ele aparece de manhã, de graça, sobre a terra seca. Nas duas figuras o movimento é o mesmo: a bênção vem de cima, desce, e se derrama sobre nós. O verbo “descer” aparece três vezes em dois versículos. A unidade entre irmãos não é invenção nossa, mas dom.

Isso não significa que a gente fique parado esperando cair do céu. Paulo manda fazer todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4:2-3), com humildade, mansidão e paciência, suportando uns aos outros em amor. Quem recebe a unidade como dom cuida dela como quem cuida de um presente: pede perdão, perdoa, reconcilia, deixa o orgulho em casa.

Ali o Senhor ordena a bênção

O verso 3 termina com uma promessa: “Ali o Senhor concede a bênção da vida para sempre.” Ali, onde os irmãos convivem em união. A palavra que a NVI traduz como “concede” é a mesma que se usa para dar uma ordem. Onde há unidade, Deus manda que a bênção esteja presente, e quando Deus manda, acontece.

Não é magia, nem prêmio por bom comportamento. Quando os irmãos se reúnem unidos para adorar, Deus se agrada de se fazer presente, e sua presença é a bênção que não acaba. Adoração, unidade e bênção andam juntas. Paulo pede que o Deus que dá perseverança e ânimo conceda à igreja um mesmo modo de pensar, para que todos, com um só coração e uma só voz, glorifiquem o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 15:5-6). E o próprio Jesus orou ao Pai para que seus discípulos fossem um, para que o mundo creia (Jo 17:21).

Por fim, o salmo termina com “vida para sempre”. A comunhão que a gente prova hoje, por melhor que seja, é só um antegosto da comunhão perfeita que vai ter no céu. O orvalho da manhã evapora com o sol. A bênção que Deus manda onde há unidade não evapora.

Fechando a mesa

Quando a gente se senta à mesa de uma família que se ama, aprende uma coisa sem precisar que ninguém explique: que isso é um presente. Foi o que o salmista viu, e disse “repare só”. Unidade entre irmãos é bom, é doce, é caro, e desce de cima.

Tomara que a gente cuide da nossa mesa assim. Que a igreja seja o lugar onde o óleo escorre e o orvalho cai, onde o seco encontra frescor, e onde cada um, do alto e do baixo, ache lugar para sentar e ficar um bom tempo.