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João Batista, apenas a voz: humildade e arrependimento

Apenas a Voz: A Humildade Desconcertante de João Batista

Diego Gonçalves4 min de leitura855 palavras

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Neste texto

“Houve um homem enviado por Deus cujo nome era João. Este veio como testemunha para que testificasse a respeito da luz, a fim de todos virem a crer por intermédio dele. Ele não era a luz, mas veio para que testificasse da luz.”(João 1.6-8)

O fim de ano costuma amolecer até os corações mais empedernidos. As luzes piscam nas calçadas, o comércio se enche de ofertas tentadoras e as pessoas parecem dispostas a um pouco mais de gentileza, nem que seja por uma semana. Mas, por trás de toda essa estética acolhedora de panetone e abraços apressados, o relato bíblico do Natal traz uma seriedade que desmonta o nosso sentimentalismo: a vinda de Jesus Cristo a este mundo não foi uma campanha publicitária bem-sucedida, mas uma intervenção soberana da graça de Deus numa humanidade arruinada pelo pecado.

E, quando o Evangelho começa a contar essa história, coloca diante dos nossos olhos uma das figuras mais intrigantes de toda a Bíblia: João Batista.

A Tentação dos Holofotes

Se houvesse alguém no primeiro século com currículo pronto para fazer sucesso religioso, esse homem era João. Ele era filho de Zacarias, um sacerdote respeitado no templo de Jerusalém, e de Isabel, mulher descendente da linhagem de Arão. Pela tradição e pelas regras da época, João tinha tudo para vestir as roupas nobres do sacerdócio, ocupar um gabinete confortável no templo e viver da admiração do povo.

Em vez disso, ele abriu mão das facilidades da capital e foi viver no deserto. Vinte anos depois, quando reapareceu às margens do rio Jordão, o impacto da sua pregação foi tão forte que multidões inteiras abandonavam suas casas para ouvi-lo. Ele chamava governantes corruptos pelo nome, denunciava a hipocrisia das elites e batizava pecadores quebrantados.

Diante desse fenômeno, as autoridades religiosas de Jerusalém enviaram uma comissão oficial de sacerdotes e levitas para investigar aquele homem do deserto. A pergunta deles era simples e direta: “Quem é você? É o Messias? É Elias ressuscitado? É o grande Profeta anunciado por Moisés?”.

Qualquer líder vaidoso dos nossos dias aproveitaria uma deixa dessas para inflar a própria importância, criar uma marca pessoal e posar de autoridade máxima. A resposta de João, no entanto, é de uma clareza desconcertante: “Eu não sou”. Ele não era o Cristo. Não era Elias. Não era o Profeta.

Quando os emissários insistiram, perguntando o que afinal ele dizia de si mesmo, João resumiu toda a sua biografia numa frase tirada de Isaías: “Eu sou apenas a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor”.

A Diferença entre a Luz e o Espelho

João entendia com perfeição a linha que separava o Criador da criatura. Ele sabia que não era a Luz, mas apenas a testemunha enviada para apontar para a Luz. Ele não era a Palavra eterna feita carne; era apenas o som passageiro, o instrumento efêmero que prepara o terreno para a passagem do Rei.

O mundo religioso moderno vive infestado de pessoas que sofrem da síndrome de salvador da pátria. Líderes que agem como se fossem donos da igreja, administradores exclusivos do Espírito Santo e guardiões de pedágio da salvação alheia. Gente que exige honrarias, títulos extravagantes e submissão cega, esquecendo que o verdadeiro ministro de Cristo não chama atenção para si mesmo, mas trabalha dia e noite para que o povo fixe os olhos exclusivamente em Jesus.

Quem se coloca no centro do palco acaba atrapalhando o caminho da graça. O servo fiel tem a coragem de dizer, como João: “No meio de vós está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual eu não sou digno nem de desatar a correia das sandálias”. Reconhecer a própria pequenez diante da majestade de Cristo não é fingir coitadismo; é sobriedade espiritual.

Preparar a Estrada pelo Arrependimento

A missão que João recebeu continua sendo a nossa grande vocação: preparar o caminho do Senhor. E preparar o caminho nunca significou varrer a sujeira para debaixo do tapete. A mensagem do deserto era dura e urgente: arrependimento.

Endireitar as veredas significa quebrar o orgulho, derrubar os ídolos que construímos no coração e confessar com vergonha a nossa hipocrisia diária. Não adianta celebrar o nascimento de Cristo com canções bonitas se a nossa vida prática continuar atolada na desonestidade, no rancor contra a família e no apego doentio às coisas deste mundo passageiro.

Mesmo um gigante como João Batista enfrentou a dor da solidão e o peso da dúvida. Mais tarde, jogado na masmorra escura do rei Herodes, ele mandou seus discípulos perguntarem a Jesus: “És tu aquele que havia de vir ou devemos esperar outro?”. Jesus não tratou o profeta com desdém nem lançou palavras de repreensão. Ele simplesmente apontou para as obras: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho.

O Senhor não nos chamou para sermos estrelas que brilham para consumo da plateia; chamou-nos para sermos vozes fiéis e perseverantes. O maior privilégio de um discípulo é diminuir a cada dia, sem ressentimentos e sem vaidade, para que a glória de Jesus Cristo apareça em sua plenitude.