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João Batista: A difícil arte de sair de cena

A Difícil Arte de Sair de Cena

Diego Gonçalves3 min de leitura689 palavras

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A nossa cultura é viciada em protagonismo. Desde cedo aprendemos que o sucesso consiste em ocupar o centro do palco, acumular seguidores, ter a última palavra nas discussões e garantir que o nosso nome apareça nos créditos em letras garrafais. Trabalhar duro nos bastidores para que outra pessoa receba os aplausos soa quase como um atestado de fracasso pessoal.

É exatamente por isso que a figura de João Batista continua sendo uma pedrada no vidro da nossa vaidade.

Quando João surgiu às margens do rio Jordão, depois de quase quatro séculos em que nenhuma voz profética havia ecoado em Israel, o país inteiro estremeceu. Ele não se vestia como os sacerdotes bem-nascidos do templo de Jerusalém e não frequentava os banquetes da elite palaciana. Vivia no deserto, usava roupas rústicas de pelo de camelo e pregava um arrependimento cortante que não poupava governantes corruptos nem religiosos hipócritas.

Pintura de Rembrandt em que João Batista prega a uma multidão reunida ao ar livre, apontando com a mão
Rembrandt, A pregação de São João Batista, c. 1634-1635. Gemäldegalerie, Berlim. Domínio público, via Wikimedia Commons.

As pessoas saíam das cidades em massa para ouvi-lo. A fama dele foi tamanha que até o historiador judeu Flávio Josefo, que não tinha qualquer interesse em defender o cristianismo, dedicou algumas linhas ao impacto público e à coragem moral daquele pregador solitário (Antiguidades Judaicas, 18.5.2).

João tinha tudo para fundar uma seita respeitável em torno do próprio nome e se consolidar como o grande líder espiritual da sua geração. No entanto, no auge da popularidade, quando Jesus apareceu, João fez algo que vai contra o instinto natural de autopreservação: apontou para Ele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Dois dos seus próprios discípulos ouviram e seguiram Jesus.

Mais tarde, alguns companheiros chegaram aflitos avisando que todos estavam indo atrás de Jesus. Esperavam que João mostrasse ciúme ou reivindicasse a primazia de quem veio primeiro. Ele respondeu com uma frase que resume a maturidade espiritual de quem sabe quem é e quem não é:

“João respondeu, e disse: O ser humano não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu. Aquele que tem a esposa, é o esposo; mas o amigo do esposo, que o apoia, e lhe ouve, alegra-se muito pela voz do esposo. Assim pois já este meu gozo é cumprido. A ele convém crescer, porém a mim diminuir.”

(João 3:27, 29-30, Bíblia Livre)

Repare na raiz dessa humildade: “o ser humano não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu”. Tudo o que João tinha era graça, dom recebido, e quem recebe não tem do que se gabar.

Saber a hora de sair de cena talvez seja a disciplina mais rara e dolorosa da vida. Temos uma facilidade assustadora de transformar a fé, a família, o trabalho e os projetos comunitários em extensões do nosso próprio ego. Dizemos que queremos servir a Deus, mas no fundo queremos que Deus sirva de trampolim para a nossa notoriedade; dizemos que queremos ajudar o próximo, mas ficamos secretamente ofendidos quando o outro aprende a caminhar sem precisar da nossa tutela constante.

João Batista compreendeu com perfeição o papel de amigo do noivo: ele não é a atração principal da festa, e a alegria dele é ouvir a voz do noivo. Terminou os seus dias numa masmorra na fortaleza de Maquero, degolado pelo capricho de um tirano mesquinho, sem pompa, sem cortejo fúnebre e sem honrarias terrenas. Mesmo assim, Jesus declarou que, entre os nascidos de mulher, não havia surgido ninguém maior do que ele (Mateus 11:11).

A verdadeira grandeza da alma não está na insistência teimosa de permanecer no centro das atenções, mas na sabedoria tranquila de quem sabe quando a sua voz precisa silenciar para que a verdade de Deus continue falando sozinha.

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