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História

Imprensa e Reforma: como Gutenberg impulsionou Lutero

Como a fé se espalhou: Lutero, Gutenberg e a revolução da imprensa

Diego Gonçalves3 min de leitura647 palavras

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Cerca de um século antes de Martinho Lutero afixar suas 95 Teses na porta da igreja de Wittenberg, outros homens de coragem tentaram reformar a igreja da época. John Wycliffe, na Inglaterra, e Jan Hus, na Boêmia, denunciaram a corrupção moral do clero, criticaram a venda de indulgências e defenderam que a Bíblia é a autoridade suprema para a fé cristã. Só que Hus acabou condenado e queimado vivo em 1415, e os escritos de Wycliffe foram caçados e destruídos.

Por que, então, a mensagem de Lutero incendiou o continente europeu em 1517 e não pôde mais ser contida pelas autoridades de Roma?

A resposta passa pela fidelidade de Lutero ao evangelho da graça, mas passa também por uma revolução tecnológica silenciosa que tinha acontecido poucas décadas antes: os tipos móveis de Johann Gutenberg.

Três xilogravuras do século XVI mostrando a oficina do fabricante de papel, a do impressor com sua prensa e a do encadernador
Jost Amman, O fabricante de papel, o impressor e o encadernador, xilogravuras do Ständebuch, 1568. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Antes da prensa de Gutenberg, cada exemplar de um livro precisava ser copiado à mão por monges copistas em folhas de pergaminho. Um trabalho desses levava meses, às vezes anos. Um livro era artigo de luxo, de reis, catedrais e nobres ricos. Quando a autoridade eclesiástica queria silenciar uma ideia considerada perigosa, bastava confiscar um punhado de manuscritos e calar os discípulos daquele pensador.

Quando Lutero escreveu as 95 Teses, em outubro de 1517, o cenário já era outro. Pretendia apenas abrir uma disputa acadêmica entre professores universitários e por isso redigiu o texto em latim. Mas alguém pegou aquele papel, traduziu os pontos para o alemão comum, levou a uma tipografia e imprimiu milhares de cópias. Segundo os relatos da época, em poucas semanas as teses eram lidas por toda a Alemanha e, em pouco tempo, a Europa inteira discutia o assunto. Lutero foi um dos primeiros autores a ver um escrito seu se espalhar dessa maneira.

O monge percebeu de imediato que a gráfica era uma ferramenta providencial. Ele chegou a declarar que a imprensa era “o ato de graça mais elevado e extremo pelo qual o negócio do evangelho é impulsionado”. E não perdeu tempo: escreveu mais de quatrocentos trabalhos, entre panfletos curtos, tratados teológicos e sermões.

Mais importante que a quantidade foi o formato: ele deixou o latim dos claustros e escreveu em alemão corrente, a língua que o povo falava na feira, na cozinha e na rua. Criou panfletos pequenos, baratos e fáceis de passar de mão em mão. Para alcançar quem não sabia ler, encheu os livretos de xilogravuras que comunicavam a mensagem logo no primeiro olhar.

Havia nisso uma convicção teológica: se a Escritura é a autoridade suprema da fé (sola Scriptura), ela precisa estar ao alcance de quem crê, na língua que ele entende. O ápice dessa aliança entre fé e tecnologia foi a tradução do Novo Testamento para o alemão, concluída em 1522 (a Bíblia inteira saiu em 1534). Pela primeira vez, famílias de artesãos e camponeses podiam ter as Escrituras em casa. Essa Bíblia impressa fortaleceu a fé protestante, uniu dialetos regionais e moldou o alemão moderno. Serviu também de modelo para que William Tyndale fizesse o mesmo com a Bíblia em inglês, pouco depois.

Quando o imperador Carlos V e o papa tentaram proibir e queimar os livros de Lutero, já era tarde. Não dava mais para recolher as ideias. Havia oficinas tipográficas em dezenas de cidades, prontas para imprimir novas tiragens escondidas na calada da noite. A imprensa tirou da Igreja o monopólio da informação, e a Palavra de Deus correu solta pelo continente.

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