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Is 43:2Reflexão: A doença de Tiaguinho e a teologia da cruz

Diego Gonçalvesatualizado 9 min de leitura1.737 palavras

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Neste texto

Na terceira temporada de The Chosen, o personagem de Tiaguinho, interpretado por Jordan Ross, tem um encontro a sós com Jesus. Nesse encontro, Tiaguinho questiona Jesus sobre a sua deficiência física.

Antes de continuar, um aviso: em nenhum lugar do Novo Testamento se diz que algum discípulo de Jesus tinha deficiência. Esta história é licença poética do autor Dallas Jenkins e não tem base bíblica. Mesmo assim, a pergunta que ela levanta é antiga, e a lição merece ser analisada à luz da Escritura.

Gravura de Rembrandt em que Cristo recebe doentes e necessitados que se aproximam dele
Rembrandt, Cristo curando os enfermos (a “Gravura dos Cem Florins”), c. 1648. Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Assista ao vídeo abaixo para ver a conversa de Jesus e Tiaguinho de The Chosen.

Miniatura do vídeo: "POR QUE VOCÊ NÃO ME CUROU?" (Cena de The Chosen)Assistir no YouTube

Por trás da história

Por que Tiaguinho tem uma deficiência em The Chosen?

Tiaguinho é retratado com uma deficiência física em The Chosen, que o próprio ator tem: escoliose grave e paralisia cerebral leve.

Em uma entrevista recente para o portal Deadline, Jordan Ross, ator que interpreta Tiaguinho, fala sobre sua deficiência e como isso afetou sua carreira como ator.

Tenho escoliose grave e paralisia cerebral leve. Devido às minhas condições, manco bastante perceptívelmente, tenho uma flexibilidade muito limitada no tronco e nas pernas e sou muito mais baixo do que a média das pessoas [1,64 m].

Desnecessário dizer que minhas diferenças físicas impactaram negativamente minhas oportunidades como ator. Diretores de elenco já me disseram para ‘parar de mancar’ e até fui cortado dos projetos porque meu manco era muito perceptível.

Quando Jordan Ross participou da audição para The Chosen, que inicialmente era para os papéis de Mateus e André, Dallas Jenkins não percebeu que Jordan mancava. Ele só foi perceber que o ator andava diferente no primeiro dia de gravação da 1ª Temporada.

Ao invés de trocar o ator ou esconder o jeito de andar de Jordan com ângulos de câmera criativos, Dallas o manteve. E alguns meses após a finalização da 1ª Temporada, enquanto escrevia os roteiros da próxima temporada, Dallas perguntou para Ross se poderia tornar sua deficiência parte do personagem de Tiaguinho na 2ª Temporada.

Isso chocou Jordan inicialmente, porque o colocaria em uma situação vulnerável. Mas Jordan começou a carreira de ator justamente por amar se permitir ser vulnerável. Qual a melhor forma de ser vulnerável do que revelar a maior insegurança ao mundo? Ele concordou com a ideia.

Tiaguinho em uma cena da 2ª Temporada | Imagem: The Chosen

Na entrevista ao Deadline.com, Dallas disse:

Quando Jordan fez o teste de audição, ele fez um trabalho muito bom e era a pessoa certa para o papel. Sua deficiência é um fator — não pode ser escondida, então apenas nos apoiamos nisso. Não apenas pensei que sua deficiência não prejudicaria o papel, mas abriria algumas possibilidades interessantes para nós. Aceitamos desafios e os transformamos em algo emocionante.

*O trecho acima foi extraído do blog: [The Chosen Brasil](Sabia que Tiaguinho tem uma Deficiência em The Chosen? | Medium)

Tiaguinho e Jesus na 3ª temporada de The Chosen

Na série, Tiaguinho é retratado como um homem de fé e de grande coração, fiel seguidor de Jesus e do Seu ministério. Mesmo assim, a deficiência física é fonte de sofrimento e de dúvida para ele.

No encontro com Jesus, Tiaguinho expressa o desejo de ser curado. Ele acredita que, se Jesus o curasse, a vida seria mais fácil e ele seria mais útil ao ministério.

Jesus responde de uma forma inesperada: diz que não vai curá-lo, mas que Tiaguinho tem um papel importante no Reino de Deus, mesmo com a deficiência.

O que me chamou a atenção é que a resposta do Jesus de The Chosen levanta questões teológicas importantes. Por que Deus permite que os seus filhos sofram? Qual é o propósito da dor? E como os cristãos podem lidar com o sofrimento?

Em primeiro lugar, a resposta de Jesus a Tiaguinho sugere que a dor pode ter um propósito redentor. Ela pode nos aproximar de Deus, nos ensinar sobre o Seu amor e nos preparar para a vida eterna.

Muitos teólogos cristãos compartilham essa perspectiva. Eles lembram que a dor faz parte da experiência humana, num mundo marcado pela queda, e que não é necessariamente um castigo de Deus (veja a pergunta dos discípulos em João 9:1-3). A dor pode ser ocasião de crescimento espiritual.

O apóstolo Paulo viveu isso. Depois de pedir três vezes que o Senhor lhe tirasse o “espinho na carne”, ouviu uma resposta parecida com a que Tiaguinho recebe:

Mas ele me disse: “Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Por isso, com muito prazer, eu me orgulharei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim.

(2 Coríntios 12:9, Bíblia Livre)

A graça não explica o sofrimento, mas sustenta quem sofre.

Nesse sentido, Elisabeth Elliot, autora de “O sofrimento nunca é em vão”, nos ensina uma lição valiosa: segundo ela, ninguém participa das alegrias de Deus sem antes participar dos sofrimentos do Seu Filho.

Ao nos colocarmos no lugar de Tiaguinho, começamos a entender o que significa sofrer por causa da nossa fé. Começamos também a ver como a dor pode nos moldar em pessoas mais compassivas e piedosas.

O sofrimento como um caminho para a santidade

Apoiado no pensamento de Elisabeth Elliot, para quem a cruz é a porta de entrada da alegria, chego à teologia da cruz, perspectiva que enfatiza o lugar do sofrimento na vida cristã. A expressão vem de Lutero (Disputa de Heidelberg, 1518). Ela se baseia na fé de que Jesus sofreu e morreu na cruz, no nosso lugar, para nos salvar do pecado e da morte.

A teologia da cruz sugere que o sofrimento é parte inevitável da vida cristã. Ela também afirma que o sofrimento pode nos levar à santidade.

Para Elisabeth Elliot, há dois grandes tipos de sofrimento: ter o que não desejamos e desejar o que não temos.

Quando sofremos, somos confrontados com a nossa fragilidade e com a nossa dependência de Deus. Isso nos leva a um arrependimento maior e a uma confiança maior Nele.

O sofrimento também pode nos tornar mais compassivos e sensíveis às necessidades dos outros. Quando vemos o sofrimento dos outros, lembramos do nosso e nos sentimos mais motivados a ajudar.

O exemplo de C. S. Lewis

Há uma história interessante envolvendo C. S. Lewis, conhecido por sua reflexão teológica. Sua obra “O Problema da Dor” é uma exploração profunda do tema. Conta-se que, quando lhe pediram que escrevesse esse livro, ele quis permanecer anônimo, e que o pedido foi negado por causa das políticas editoriais da época. É um relato que circula entre os leitores de Lewis, e não encontrei fonte da época que o confirme.

Segundo esse mesmo relato, a razão do pedido de anonimato teria sido a compreensão de Lewis de que suas opiniões sobre a dor eram tão ousadas e desafiadoras que poderiam ser mal interpretadas ou ridicularizadas se o público soubesse quem era o autor. Ele se preparava para tratar de questões complexas sobre a dor e a fé, difíceis de abordar.

Meu próprio testemunho

Posso ilustrar o pensamento de C. S. Lewis com a minha própria experiência. Em 2019, sofri um infarto que necessitou de uma angioplastia em duas artérias. Em 2022, enfrentei dores intensas no peito, o que levou à minha internação na UTI por 13 longos dias e mais duas artérias entupidas, sendo uma em estado de necrose. Foi nesse momento que descobri que lidava com uma condição crônica, a arteriosclerose, doença genética preocupante que não apenas causa dor considerável, mas também obstrui as principais artérias do meu organismo.

Eu poderia escrever um livro sobre o meu próprio sofrimento, mas esbarraria numa pergunta mais funda: como oferecer conforto a cristãos que enfrentam enfermidades muito mais graves do que a minha, como o câncer em estágio terminal?

Essa atitude de Lewis reflete o desejo de tratar a questão da dor com honestidade, e não de buscar reconhecimento pessoal. Ele queria abordar as questões teológicas de maneira franca, e não ganhar destaque como autor. O episódio ilustra o compromisso de Lewis com a verdade, mesmo diante de desafios e controvérsias.

Voltando ao exemplo de Tiaguinho

O exemplo de Tiaguinho nos mostra como a dor pode ser um caminho para a santidade. Apesar da deficiência física, o Tiaguinho de The Chosen é um homem de grande fé e de coração compassivo.

Ele segue Jesus fielmente e mostra como a dor pode nos moldar em pessoas melhores.

Conclusão

A doença de Tiaguinho é um lembrete de que a dor faz parte da experiência humana. Ela também é oportunidade de crescimento espiritual. Deus diz:

Quando passares pelas águas, estarei contigo; e ao passares pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem as chamas arderão em ti.

(Isaías 43:2, Bíblia Livre)

Lembre-se disso: Deus está contigo! Quando sofremos, podemos nos aproximar Dele, aprender sobre o Seu amor e nos preparar para a vida eterna. E ao nos colocarmos no lugar de Tiaguinho, começamos a entender o que significa sofrer por causa da nossa fé e como a dor pode nos moldar em pessoas mais compassivas e piedosas.

Publicado em 6 de dezembro de 2023 · Atualizado em 28 de outubro de 2026

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