
Lutero x papa Leão X: das 95 teses à excomunhão
O conflito entre Martinho Lutero e Leão X, das indulgências e da imprensa à bula de excomunhão e à Dieta de Worms
No início do século XVI, quase todos os cristãos da Europa ocidental pertenciam à mesma Igreja. Eles podiam falar línguas diferentes. Podiam obedecer a reis rivais. Podiam viver em cidades ricas ou em aldeias esquecidas. Mas, quando olhavam para Roma, reconheciam nela o centro visível da cristandade.
O papa e o frade
No ano de 1513, esse centro passou a ser governado por Giovanni de Médici, o papa Leão X. Ele era filho de Lourenço de Médici, um dos homens mais poderosos de Florença. Cresceu cercado por diplomacia, literatura, arte e disputas políticas. Ainda adolescente, recebeu o título de cardeal. Quando foi eleito papa, não herdou apenas uma função religiosa. Herdou a corte, a burocracia, os territórios, as alianças políticas, os conflitos militares, os projetos artísticos, as dívidas e a responsabilidade de governar uma instituição que se entendia como guardiã da fé cristã. Leão X apreciava o esplendor da Renascença.
Durante seu pontificado, Roma atraiu artistas, arquitetos, escritores e estudiosos. Mas a beleza custava caro. A reconstrução da Basílica de São Pedro exigia quantias enormes. A corte papal também consumia recursos. E, como muitos governantes de seu tempo, Leão misturava decisões religiosas, interesses políticos e necessidades financeiras. A mais de mil quilômetros de Roma, em uma pequena cidade chamada Wittenberg, vivia um homem formado por outro mundo. Martinho Lutero era frade da Ordem dos Agostinianos, sacerdote, doutor em teologia e professor da Bíblia. Ele havia nascido em 1483, na cidade de Eisleben. Seu pai desejava que ele estudasse direito e construísse uma carreira respeitável.
Lutero, porém, entrou para o mosteiro. A tradição relaciona essa decisão a uma tempestade durante a qual, tomado pelo medo da morte, ele prometeu tornar-se monge. Mas a tempestade exterior não explica tudo. Dentro de Lutero também existia uma tempestade. Ele levava o pecado, o julgamento divino e a salvação com uma seriedade que frequentemente se transformava em angústia. Confessava-se, jejuava, orava e examinava a própria consciência. Quanto mais procurava encontrar segurança em seu desempenho religioso, mais percebia a profundidade de suas falhas. Em Wittenberg, estudando e ensinando as Escrituras, Lutero começou a olhar de maneira diferente para a justiça de Deus, para o arrependimento e para a graça.
Naquele momento, ele ainda não era o fundador de uma nova igreja. Era um professor católico. Um frade que celebrava a missa. Um sacerdote que ouvia confissões. E um homem que começava a desconfiar de que certas práticas religiosas estavam oferecendo às pessoas uma segurança que o Evangelho não prometia daquela forma. Roma e Wittenberg pertenciam à mesma Igreja. Mas observavam a vida cristã de pontos muito diferentes. Leão X via uma instituição universal cuja autoridade precisava ser preservada. Lutero via pessoas concretas lutando com culpa, medo e esperança. A distância entre os dois mundos parecia enorme.
Logo, uma campanha religiosa e financeira faria essa distância desaparecer.
O que era uma indulgência
Para compreender o conflito, é preciso compreender o que era uma indulgência. Segundo a doutrina católica, o perdão do pecado não eliminava necessariamente todas as suas consequências. A culpa podia ser perdoada por Deus, mas ainda existiria uma pena temporal ligada ao pecado. Essa pena poderia ser enfrentada nesta vida, por meio da penitência, ou depois da morte, no purgatório. A indulgência era entendida como a remissão dessa pena temporal, concedida pela Igreja sob determinadas condições. A doutrina era mais complexa do que a frase “comprar o perdão”. Oficialmente, ninguém deveria imaginar que uma moeda pudesse comprar o amor de Deus, apagar a culpa sem arrependimento ou garantir a salvação de uma pessoa que não desejasse abandonar o pecado.
Mas existe uma diferença entre aquilo que uma doutrina afirma cuidadosamente e aquilo que o povo entende quando a doutrina chega às ruas. Para muitas pessoas do início do século XVI, o purgatório não era uma abstração. Era uma possibilidade assustadora. Pais pensavam nos filhos que haviam morrido. Filhos se preocupavam com os pais. Viúvas temiam o sofrimento de seus maridos falecidos. Nesse mundo, uma indulgência podia parecer uma resposta concreta para uma angústia invisível. Uma grande campanha de indulgências foi autorizada nos territórios alemães. Parte do dinheiro arrecadado seria destinada à construção da nova Basílica de São Pedro.
Outra parte estava ligada às dívidas de Alberto de Brandemburgo, um jovem príncipe que havia acumulado importantes cargos eclesiásticos e precisara pagar grandes taxas por eles. Para administrar esses compromissos, foi estabelecido um acordo financeiro que envolvia Roma, o arcebispo e banqueiros. A salvação, a política, a arquitetura e as dívidas passaram a circular dentro do mesmo sistema. Um dos pregadores mais conhecidos dessa campanha foi o dominicano Johann Tetzel. Tetzel sabia falar ao medo e à imaginação. Sua pregação ficou associada à ideia de que, assim que a moeda caísse no cofre, uma alma sairia do purgatório.
Os detalhes exatos de cada frase são debatidos. O efeito pastoral, porém, foi real. Algumas pessoas começaram a tratar o documento de indulgência como uma garantia espiritual. Para Lutero, isso era perigoso. Se alguém acreditasse que havia resolvido seu problema diante de Deus por meio de um pagamento, onde ficavam o arrependimento, a transformação da vida e a confiança na graça divina? O conflito ainda não era entre protestantes e católicos. Não existia, naquele momento, uma Igreja Luterana separada. O conflito acontecia dentro da própria Igreja. Um professor católico perguntava se uma prática oficialmente autorizada estava sendo anunciada de uma forma capaz de ferir as pessoas que deveria ajudar.
As 95 teses e a imprensa
No dia 31 de outubro de 1517, Lutero enviou um documento ao arcebispo Alberto de Brandemburgo. O texto continha 95 proposições sobre o poder e a eficácia das indulgências. A imagem mais famosa mostra Lutero diante da igreja do castelo de Wittenberg, martelo na mão, pregando as teses na porta. É possível que alguma forma de publicação tenha ocorrido. Portas de igrejas universitárias podiam funcionar como espaços de divulgação. Mas os historiadores discutem se a cena aconteceu exatamente como foi repetida durante séculos. O martelo tornou-se símbolo. A carta enviada ao arcebispo e a rápida circulação do texto são fatos mais seguros.
As teses foram escritas em latim. Seu formato era próprio de uma disputa acadêmica. Lutero não começava anunciando uma nova religião. Ele começava falando de arrependimento. Afirmava que, ao chamar seus discípulos ao arrependimento, Cristo desejava que toda a vida cristã fosse uma vida de arrependimento. Também questionava pregadores que ofereciam segurança por meio de cartas de indulgência. Em uma das proposições mais duras, advertia que aqueles que imaginavam ter a salvação garantida por esses documentos estavam colocando a própria alma em perigo. Em outra, dizia que o cristão deveria ser ensinado a ajudar o pobre e o necessitado, em vez de gastar dinheiro comprando indulgências.
Lutero ainda falava do papa com uma deferência que desapareceria nos anos seguintes. Ele sugeria que, se o papa conhecesse os abusos cometidos pelos pregadores, preferiria ver a Basílica de São Pedro reduzida a cinzas a construí-la com a pele e os ossos de suas ovelhas. Essa frase atacava o sistema, mas ainda preservava a possibilidade de que o papa estivesse mal informado. O próprio Lutero talvez imaginasse que uma discussão teológica pudesse corrigir os abusos. Mas o documento tocava em interesses maiores do que ele. Tocava em dinheiro. Tocava na autoridade dos bispos. Tocava no poder do papa sobre o purgatório.
Tocava na forma como a Igreja administrava o medo, a culpa e a esperança. E, acima de tudo, tocava em uma nova tecnologia de comunicação. As teses foram copiadas. Foram impressas. Foram traduzidas. Viajaram por cidades que Lutero nunca havia visitado. Uma questão acadêmica saiu das paredes da universidade. A controvérsia já não pertencia apenas ao homem que a havia iniciado. Quando as teses começaram a circular, a impressão com tipos móveis já existia na Europa havia várias décadas. Mas Lutero apareceu no momento em que essa tecnologia estava madura o suficiente para transformar uma controvérsia local em acontecimento público.
Um escriba precisava copiar cada texto à mão. Uma oficina de impressão podia produzir centenas de exemplares. O texto podia atravessar fronteiras antes que uma autoridade decidisse como responder. Muitos dos escritos posteriores de Lutero também não ficaram presos ao latim dos especialistas. Ele passou a escrever em alemão, utilizando frases diretas, imagens fortes e argumentos que podiam ser discutidos por leitores fora das universidades. Seu rosto começou a circular. Retratos feitos por Lucas Cranach ajudaram a tornar aquele frade reconhecível. Lutero estava se transformando em personagem público. Alguns leitores viam nele um professor preocupado com o Evangelho.
Outros enxergavam um alemão enfrentando a interferência de Roma. Outros viam a oportunidade de desafiar impostos, autoridades religiosas e poderes políticos. Nem todos os que apoiavam Lutero concordavam com sua teologia. A mensagem começava a servir a interesses diferentes. Esse é um dos perigos de toda revolução comunicacional. Uma pessoa publica um argumento. O público transforma esse argumento em símbolo. Depois, o símbolo passa a significar muito mais do que o autor pretendia. Roma também enfrentava um problema novo. Durante séculos, conflitos teológicos podiam ser investigados, julgados e contidos por canais relativamente lentos. Agora, cada demora permitia que novos textos circulassem.
Cada condenação podia ser impressa ao lado da resposta de Lutero. Cada tentativa de silenciá-lo podia aumentar sua fama. A imprensa não decidiu quem estava certo. Mas alterou a velocidade do conflito. E, quando a velocidade muda, a autoridade também precisa mudar sua maneira de agir. Roma demorou a perceber isso. Lutero, conscientemente ou não, aprendeu a utilizar o novo ambiente.
Da indulgência à autoridade
No início, as indulgências ocupavam o centro da discussão. Pouco a pouco, esse centro mudou. Os adversários de Lutero perceberam que suas críticas levantavam uma pergunta perigosa. Se o papa possuía autoridade para conceder indulgências, com que direito um professor de Wittenberg colocava essa autoridade em dúvida? Lutero, por sua vez, passou a fazer outra pergunta. Como uma autoridade deveria ser julgada quando não encontrava apoio suficiente nas Escrituras? As discussões, os interrogatórios e os debates obrigaram Lutero a seguir suas próprias conclusões. Em 1518, ele foi interrogado em Augsburgo pelo cardeal Caetano. Caetano esperava retratação.
Lutero esperava discussão. Eles não compartilhavam o mesmo ponto de partida. Para o representante papal, determinadas questões já haviam sido decididas pela autoridade da Igreja. Para Lutero, uma decisão não encerrava o assunto se não pudesse ser demonstrada biblicamente. No ano seguinte, durante o debate de Leipzig, a tensão aumentou. Pressionado por João Eck, Lutero admitiu que concílios da Igreja podiam errar. Essa afirmação alterava o tamanho do conflito. Se um concílio podia errar e um papa podia errar, onde estava a autoridade final? A resposta de Lutero avançava em direção às Escrituras. Mas até essa resposta precisa ser compreendida com cuidado.
Lutero não defendia que qualquer indivíduo pudesse fazer a Bíblia dizer qualquer coisa. Ele acreditava que as Escrituras possuíam uma autoridade superior à dos papas e dos concílios. O problema era inevitável. Quem determinaria a interpretação correta? A Igreja, com sua tradição e seus mestres? O leitor, diante do texto? Uma comunidade de intérpretes? Uma universidade? Um príncipe? O próprio Lutero ainda estava desenvolvendo suas respostas. A Reforma não saiu pronta das 95 Teses. As ideias associadas mais tarde a expressões como “somente a fé” e “somente a Escritura” adquiriram forma mais clara durante os anos de confronto.
Lutero não havia começado querendo destruir o papado. Mas agora questionava as bases de seu poder. Roma não enfrentava mais um debate sobre arrecadação. Enfrentava uma contestação de sua autoridade para definir e julgar a doutrina cristã. Visto de Wittenberg, o conflito parecia uma luta pela liberdade do Evangelho. Visto de Roma, parecia uma ameaça à unidade da Igreja. Leão X não governava apenas pessoas que concordavam espontaneamente umas com as outras. A Igreja latina reunia povos, dioceses, ordens religiosas, universidades e tradições locais. Sua unidade dependia de estruturas de autoridade. Permitir que um professor rejeitasse decisões eclesiásticas em nome de sua própria leitura das Escrituras parecia abrir uma porta impossível de fechar.
Se Lutero podia fazer isso, por que outros não poderiam? E, quando as interpretações entrassem em conflito, quem teria a palavra final?
A bula e a fogueira
Roma começou a tratar o caso como heresia. Em 15 de junho de 1520, foi publicada a bula Exsurge Domine. O documento condenava 41 proposições retiradas ou associadas aos escritos de Lutero. A bula não o excomungava imediatamente. Ela lhe concedia um prazo para abandonar os erros condenados e se retratar. Seu início utilizava uma imagem bíblica. A Igreja era comparada a uma vinha atacada por um javali. Para Lutero e seus seguidores, a linguagem confirmava que Roma não desejava ouvi-lo. Para Roma, a condenação era o exercício necessário de uma responsabilidade pastoral e doutrinal.
O problema estava no tipo de resposta que cada lado considerava legítima. Roma dizia que certas proposições haviam sido julgadas e precisavam ser abandonadas. Lutero perguntava onde estava a demonstração baseada nas Escrituras. A autoridade exigia obediência. A consciência exigia convencimento. Enquanto isso, Lutero publicava alguns de seus textos mais decisivos. Ele se dirigiu à nobreza alemã. Escreveu sobre o que chamava de cativeiro babilônico da Igreja. Questionou o sistema sacramental e a separação rígida entre o clero e os demais cristãos. A controvérsia havia atravessado outra fronteira. Já não seria possível resolvê-la apenas corrigindo a pregação das indulgências.
No dia 10 de dezembro de 1520, nos arredores de Wittenberg, uma fogueira foi preparada. Livros do direito canônico foram lançados às chamas. Depois, Lutero queimou publicamente a bula papal. O gesto era teatral, mas não vazio. Na Europa daquele período, livros considerados heréticos podiam ser queimados pelas autoridades. Lutero inverteu o símbolo. Tratou o documento que o condenava como algo que também merecia ser julgado. O fogo tornou visível aquilo que os textos já haviam revelado. Lutero não reconhecia mais a condenação de Roma como palavra final sobre sua consciência. Poucos anos antes, ele ainda podia imaginar que Leão X corrigiria os abusos se fosse devidamente informado.
Agora, via o sistema papal como parte central do problema. Para Roma, aquele ato eliminava qualquer dúvida. Lutero não era apenas um professor que havia utilizado palavras imprudentes. Ele rejeitava abertamente a autoridade que exigia sua retratação. Os dois lados haviam chegado a um limite. Para Lutero, recuar significaria negar uma verdade que acreditava encontrar nas Escrituras. Para Roma, recuar significaria aceitar que um indivíduo pudesse colocar sua interpretação acima do julgamento da Igreja. A bula ardeu. Mas a condenação não desapareceu com o papel. Ela estava prestes a se tornar definitiva.
A excomunhão e a Dieta de Worms
Em 3 de janeiro de 1521, Leão X publicou a bula Decet Romanum Pontificem. Martinho Lutero foi formalmente excomungado. Isso significava sua exclusão da comunhão da Igreja. Mas a Alemanha do século XVI não era governada diretamente pelo papa. Ela fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico, uma estrutura política formada por inúmeros territórios, cidades e principados. Para que a condenação religiosa produzisse consequências políticas amplas, o caso precisava chegar ao imperador. Carlos V era jovem. Havia sido eleito imperador em 1519 e governava territórios espalhados pela Europa e além dela. Ele se entendia como defensor da fé católica e da unidade da cristandade.
Mas também precisava negociar com os príncipes alemães. Entre esses príncipes estava Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia e protetor de Lutero. Frederico não adotara imediatamente todas as posições de Lutero. Ainda assim, insistia que seu professor não deveria ser condenado sem uma audiência adequada. Foi Carlos V, e não Leão X, quem convocou Lutero para comparecer à Dieta de Worms. Essa distinção é importante. O papa havia realizado a condenação eclesiástica. O imperador conduziria a resposta política. Com uma promessa de salvo-conduto, Lutero iniciou sua viagem. Ao longo do caminho, foi recebido por multidões.
Para algumas pessoas, ele já era um herói. Para outras, um herege perigoso. Para o Império, era um problema que precisava de solução. Em abril de 1521, Lutero compareceu diante da Dieta de Worms. Na sala estavam o imperador, príncipes, representantes políticos e autoridades eclesiásticas. Sobre uma mesa, encontravam-se livros atribuídos a Lutero. A primeira pergunta era simples. Ele reconhecia aqueles escritos? Lutero respondeu que sim. A segunda pergunta continha todo o peso do conflito. Ele estava disposto a se retratar? Lutero pediu tempo para responder. No dia seguinte, voltou à assembleia. Sua resposta distinguiu diferentes tipos de escritos.
Alguns tratavam da fé e da vida cristã de uma maneira que até seus adversários poderiam considerar útil. Outros atacavam abusos e o poder de autoridades. Outros ainda eram dirigidos contra indivíduos, e Lutero reconheceu que havia utilizado palavras mais violentas do que seria apropriado. Mas não aceitou uma retratação geral. Declarou que precisava ser convencido pelo testemunho das Escrituras ou por argumentos claros. Não confiava apenas na autoridade de papas e concílios, porque, segundo ele, ambos haviam errado e contradito uns aos outros. Sua consciência, afirmou, estava presa à Palavra de Deus. Essa cena costuma ser apresentada como o nascimento moderno da liberdade individual.
A realidade é mais complexa. Lutero não dizia que toda pessoa possuía o direito de inventar sua própria verdade. Ele dizia que não podia agir contra uma consciência submetida àquilo que entendia ser a Palavra de Deus. Sua posição possuía grande força. Também carregava um problema que marcaria os séculos seguintes. Se diferentes pessoas afirmassem estar presas às Escrituras e chegassem a conclusões incompatíveis, como resolver a disputa? Carlos V olhava para o mesmo problema de outra forma. O imperador considerava impossível que um único frade estivesse correto contra séculos de cristianismo, papas, concílios, bispos e estudiosos.
Para ele, proteger a unidade herdada era proteger a própria fé. Naquela sala, duas concepções de fidelidade se enfrentaram. Lutero acreditava que obedecer à Igreja contra as Escrituras seria trair o Evangelho. Carlos e os representantes de Roma acreditavam que permitir a rebelião de um indivíduo contra a Igreja destruiria a ordem cristã. A frase “Aqui estou, não posso agir de outra maneira” tornou-se inseparável da memória do acontecimento. Sua forma exata, porém, não aparece em todos os registros mais próximos do episódio. O núcleo da resposta é seguro. Lutero não se retratou. A consciência, as Escrituras, a tradição, o papado e o Império já não podiam permanecer em harmonia dentro daquela sala.
O confronto havia chegado ao ponto sem retorno. Depois da Dieta, Carlos V promulgou o Édito de Worms. Lutero foi declarado fora da lei. Seus livros foram proibidos. Dar-lhe abrigo ou auxílio passou a ser tratado como crime. Mas, durante a viagem de retorno, ele desapareceu. Homens enviados por Frederico, o Sábio, interceptaram Lutero e o levaram secretamente para o castelo de Wartburg. Ali, protegido e disfarçado, ele iniciou um de seus trabalhos mais influentes: a tradução do Novo Testamento para o alemão. Lutero não foi o primeiro a traduzir a Bíblia para essa língua.
Sua tradução, porém, alcançou enorme circulação, utilizou os textos grego e hebraico como referências centrais e ajudou a moldar a linguagem religiosa e literária alemã.
O que veio depois
Enquanto isso, as ideias da Reforma continuaram avançando. Pregadores alteraram a liturgia. Comunidades questionaram imagens, votos monásticos, o celibato clerical e a celebração da missa. Príncipes perceberam oportunidades religiosas e políticas. Camponeses ouviram a linguagem da liberdade cristã e a relacionaram às próprias condições sociais. Nem todas essas mudanças agradaram a Lutero. Nem todas obedeciam à sua interpretação. Uma vez iniciada, a Reforma não permaneceu sob o controle de seu nome mais famoso. Leão X também não controlou o que veio depois. Ele morreu em dezembro de 1521, poucos meses depois da Dieta de Worms.
Não viu o estabelecimento completo das igrejas luteranas. Não viu a expansão de outras correntes reformadas. Não viu o Concílio de Trento, iniciado apenas em 1545. A resposta católica à Reforma seria longa e complexa. Ela incluiria condenações doutrinais, reformas disciplinares, renovação espiritual, novas ordens religiosas, missões e uma definição mais precisa de doutrinas contestadas pelos protestantes. O confronto entre Lutero e Leão X não produziu sozinho todas essas mudanças. A Reforma teve causas espirituais, intelectuais, econômicas, políticas e tecnológicas. Também se alimentou de críticas à Igreja que eram anteriores a Lutero. Mas o conflito entre os dois revelou a profundidade da crise.
Roma acreditava que uma condenação preservaria a unidade. A condenação não foi suficiente. Lutero acreditava que a Palavra de Deus poderia corrigir a Igreja. Mas as pessoas que apelaram às Escrituras não permaneceram unidas em uma única interpretação. A velha unidade se rompeu. No lugar dela surgiram novas confissões, novas instituições e novos conflitos.
Sem heróis nem vilões
É tentador terminar essa história escolhendo um herói e um vilão. Leão X pode ser reduzido ao papa rico que financiava festas enquanto Roma explorava os pobres. Lutero pode ser apresentado como o homem solitário que enfrentou um império armado apenas com uma Bíblia. As duas imagens contêm fragmentos da realidade. Nenhuma delas é suficiente. Leão X governou uma Igreja que realmente precisava de reformas. A mistura entre cargos religiosos, ambições familiares, arrecadação financeira e poder político havia produzido abusos graves. A campanha de indulgências ofereceu um exemplo especialmente perigoso de como uma doutrina complexa podia ser transformada em instrumento de pressão espiritual.
O papa e seus conselheiros também subestimaram a força da imprensa e a profundidade das perguntas de Lutero. Trataram por muito tempo a crise principalmente como um problema de obediência. Mas Leão X não defendia apenas seu conforto pessoal. Ele representava uma concepção sacramental e institucional da Igreja. Para essa concepção, a unidade visível, a tradição e a autoridade episcopal não eram obstáculos externos ao cristianismo. Faziam parte da maneira pela qual Cristo preservava sua Igreja ao longo da história. Lutero, por sua vez, expôs abusos reais. Sua insistência na graça, na fé e na centralidade das Escrituras obrigou toda a cristandade ocidental a revisitar perguntas fundamentais.
Como o pecador é justificado diante de Deus? Qual é a relação entre fé e obras? O que torna uma tradição legítima? Até onde chega a autoridade da Igreja? Mas Lutero também não pode ser transformado em símbolo de pureza sem contradições. Durante a Guerra dos Camponeses, apoiou uma repressão violenta contra os revoltosos. Em seus últimos anos, escreveu ataques cruéis contra os judeus, defendendo medidas que precisam ser rejeitadas sem hesitação. Reconhecer essas sombras não apaga sua importância. Impede que a história seja transformada em devoção a um personagem. No fim, Leão X excomungou Lutero.
Lutero rejeitou a autoridade de Leão X. Nenhum dos dois venceu de maneira completa. O papado sobreviveu. A Igreja Católica permaneceu uma força mundial e passou por processos profundos de reforma. As ideias de Lutero também sobreviveram. Transformaram o cristianismo, a educação, a política, a linguagem e a relação de milhões de pessoas com a Bíblia. Mas a unidade religiosa do Ocidente latino não sobreviveu ao conflito. O verdadeiro confronto não aconteceu apenas entre dois homens. Aconteceu entre duas respostas para uma pergunta que continua viva. Como uma comunidade de fé pode preservar a unidade sem impedir a correção?
E como pode permitir que a consciência questione a autoridade sem transformar toda convicção individual em verdade absoluta? Leão X temia uma cristandade sem uma autoridade visível capaz de guardar sua unidade. Lutero temia uma cristandade na qual a autoridade visível pudesse exigir obediência contra a Palavra de Deus. Os dois temores eram reais. E os séculos seguintes mostrariam o preço de ambos. De um lado, um conjunto de 95 proposições destinadas a um debate. Do outro, uma bula destinada a encerrar esse debate. Entre os dois documentos, uma Europa inteira descobriu que certas palavras, depois de impressas e lançadas ao mundo, já não podem ser recolhidas.
A disputa começou com indulgências. Terminou mudando a pergunta sobre quem poderia falar em nome da verdade cristã. Essa pergunta ainda não desapareceu.
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