
Como o caçador Ninrode virou acusação contra o catolicismo
Gênesis 10:8-12 lido com Agostinho, Matthew Henry e John Gill, e a história da tese de Hislop sobre Babel e Roma
Quem foi Ninrode na Bíblia, e como um caçador que ocupa só cinco versículos de Gênesis acabou acusado de ser a raiz pagã de todo o culto católico? Agostinho leu no versículo um caçador contra o Senhor, o pastor inglês Matthew Henry viu nele a ambição que nunca se contenta, e o batista John Gill registrou uma leitura a favor dele. No século dezenove, o ministro escocês Alexander Hislop deu a Ninrode uma esposa, um culto e herdeiros em Roma, e mais de cem anos depois o ministro evangélico que mais espalhou essa tese voltou às fontes para conferir cada elo. Só que o próprio Gênesis não diz uma palavra sobre esposa, culto ou deus algum ligado a Ninrode, e a pergunta fica de pé: a torre de barro da Babilônia e o altar católico são a mesma religião?
O que Gênesis 10 diz de Ninrode
Gênesis 10 é, quase todo, uma lista de povos que se espalham pela terra depois do dilúvio, com nomes, filhos e territórios em sequência. No meio dessa lista, a linha de Cam passa por Cuxe e chega a Ninrode, e o texto, que até ali só enumerava, para por um momento para contar alguma coisa sobre um homem. O que, afinal, esses cinco versículos dizem sobre ele, se tantos evangélicos aprenderam a ligá-lo à origem do culto católico?
“E Cuxe gerou a Ninrode, este começou a ser poderoso na terra. Este foi vigoroso caçador diante do SENHOR; pelo qual se diz: Assim como Ninrode, vigoroso caçador diante do SENHOR. E foi a cabeceira de seu reino Babel, e Ereque, e Acade, e Calné, na terra de Sinear.”
(Gênesis 10:8-10, Bíblia Livre)
O deslocamento do poder segue nos versículos 11 e 12, que o levam para o norte, até a Assíria, onde surgem outras cidades, entre elas Nínive e Calá. A região do versículo 10 é o sul da Mesopotâmia.
Você conhece o telefone sem fio, aquela brincadeira de criança em que uma frase sussurrada passa de ouvido em ouvido e chega ao fim da roda dizendo outra coisa. Com esses cinco versículos aconteceu algo parecido, porque eles passaram por muitas vozes ao longo dos séculos, e nem todas devolveram a frase como a tinham recebido.
Repare na expressão “vigoroso caçador”, que traduz um termo hebraico usado para o homem forte, o guerreiro, alguém que se impõe pela força. No hebraico, Ninrode é literalmente “valente caçador diante do Senhor”, e é essa expressão, “diante do Senhor”, que vai dividir os leitores. No versículo 10 aparece, pela primeira vez na Bíblia, a palavra reino, e para quem ouviu esse texto ao longo da história de Israel, Babel e Nínive eram nomes de impérios que levariam o povo de Deus ao cativeiro.
A arqueologia conhece Nínive e Calá, cujas ruínas ganharam por tradição local o nome de Nimrud, mas nenhuma inscrição identifica Ninrode com um rei conhecido, e todo nome que se proponha para ele continua sendo hipótese. E o silêncio do texto também conta, porque nos únicos lugares onde o nome aparece, aqui, em 1 Crônicas 1:10 e em Miqueias 5:6, Ninrode surge sem esposa, sem culto e sem divindade.
Agostinho e Henry: o poder que se ergue contra Deus
Por que, então, tantos leitores antigos ouviram nesse caçador valente uma ameaça contra Deus? A primeira leitura, que podemos chamar de agostiniana, vê em Ninrode o poder humano que se ergue contra o Criador, e o seu pano de fundo está fora da Igreja, no historiador judeu Flávio Josefo, do primeiro século. No primeiro livro das Antiguidades judaicas, Josefo conta que Ninrode convenceu os homens a atribuir a prosperidade à própria coragem, e não a Deus, e que aos poucos transformou o governo em tirania. Josefo também o liga ao projeto de Babel, mas a torre tem a sua própria história, e ela fica para outro episódio.
Entre os pais da Igreja, a voz mais direta é a de Agostinho, no livro 16 de A Cidade de Deus, escrito no século cinco. Ele lia o versículo numa tradução que dizia “caçador contra o Senhor”, sabia que a palavra grega por trás dela podia significar “diante” e também “contra”, e mesmo assim escolheu “contra”. Para ele, caçador ali quer dizer enganador, opressor e destruidor dos seres da terra, e Ninrode é o retrato do caminho oposto à humildade, que ergue o coração para o Senhor e não contra ele.
Agostinho conhecia também o nome de Nino, a quem atribui o nome de Nínive, e nunca o confunde com Ninrode. Por ele, essa leitura se tornou herança comum de católicos, luteranos e reformados, que aqui estão do mesmo lado, lendo a mesma Escritura e confessando a mesma fé em Cristo. E nem Josefo nem Agostinho dão a Ninrode uma esposa ou um culto.
Treze séculos depois, a mesma leitura reaparece com outra ênfase no pastor presbiteriano inglês Matthew Henry, herdeiro dos puritanos, no seu Comentário da Bíblia inteira, escrito no começo do século dezoito. Henry vê na caça a escola do comando: perseguindo feras, Ninrode juntou homens em volta de si, e daí passou a forçar os vizinhos a se submeterem e a tomar pela violência o que era deles. Para Henry, Ninrode é o retrato da ambição inquieta, que tinha quatro cidades sob o seu comando e não sossegou até ter outras quatro, e por isso ele resume que quem tiraniza os homens se rebela contra Deus. Esse comentário formou gerações de evangélicos de várias igrejas, e por ele a leitura da tirania chegou aos púlpitos protestantes com o acento na ambição.
John Gill: uma leitura a favor de Ninrode
Mas e se “diante do Senhor” não for acusação nenhuma, e sim uma forma de reconhecer a grandeza de Ninrode? A segunda leitura nasce nesse ponto, e quem a registra é John Gill, pastor batista inglês do século dezoito, na sua Exposição da Bíblia inteira. Gill admite que o versículo pode ser lido ao pé da letra, porque depois do dilúvio as feras se multiplicavam e um grande caçador prestava um serviço a famílias que viviam em tendas espalhadas. Ele registra ainda que um comentarista judeu da Idade Média, do século doze, lia o versículo a favor de Ninrode, como alguém que erguia altares e oferecia a Deus os animais que caçava.
Aqui a segunda leitura vai na direção contrária de Agostinho e de Henry: onde eles ouvem afronta, ela ouve “na presença do Senhor”, em sentido bom. Essa leitura tem menos herdeiros.
Gill, porém, também chama Ninrode de governante tirânico dos homens e ainda afirma que ele e Baco, o deus grego do vinho, seriam a mesma figura. Quando um comentarista protestante já misturava o caçador de Gênesis com deuses pagãos, a estrada para uma acusação muito maior estava aberta.
Hislop: de Babel a Roma
Como, então, esse caçador de cinco versículos foi parar numa acusação contra o culto católico? A terceira leitura é a de Alexander Hislop, ministro presbiteriano da Igreja Livre da Escócia, que publicou suas ideias como folheto em 1853. Cinco anos depois, ele as ampliou num livro, As duas Babilônias, cujo subtítulo resume a tese: o culto papal estaria provado como o culto de Ninrode e da sua esposa.
Para chegar lá, Hislop identifica Ninrode com Nino, o fundador de Nínive nas lendas gregas, e assim lhe dá uma esposa, Semíramis. Depois, faz dela e do filho o centro de um culto de mãe e criança que teria atravessado os mistérios pagãos até reaparecer em Roma com nomes cristãos, e lê na Babilônia de Apocalipse 17 a Igreja de Roma. Aqui Hislop vai na direção contrária dos antigos, que viam em Ninrode o orgulho humano contra Deus e não lhe davam esposa nem culto, e se afasta também de Henry, presbiteriano como ele, que lia a ambição de um governante. É daí que vem a pergunta da torre de barro e do altar: se o que acontece numa missa seria a mesma religião praticada em Babel, com outro nome, e se Babel chegou a Roma.
Mais de cem anos depois, em 1966, o ministro evangélico americano Ralph Woodrow publicou um livro (Babylon Mystery Religion) baseado nessa tese, que muitos preferiram ao de Hislop por ser mais fácil de ler. A acusação, portanto, saiu de livros e púlpitos protestantes, e foi entre evangélicos que ela mais circulou.
A objeção e o que a história diz
Você pode estar pensando: “Mas as semelhanças estão aí, nas imagens da mãe com o filho, nas cores, nos títulos”. Essa objeção merece a sua forma mais forte, porque tem um núcleo verdadeiro: desde a Reforma, muitos protestantes leram a Babilônia de Apocalipse 17 como Roma. Historiadores também reconhecem que a piedade popular cristã, em vários lugares, absorveu costumes do mundo em volta.
O problema está no passo seguinte, porque semelhança não prova descendência, e foi o próprio Woodrow quem mostrou isso com exemplos tirados da Bíblia. A mulher chamada Babilônia, em Apocalipse, tem um cálice na mão, e um salmo também põe um cálice na mão do Senhor; Babilônia teve a sua torre alta, e a Escritura chama o nome do Senhor de torre forte. Pelo método de Hislop, até a Bíblia pareceria pagã, porque sem uma ligação demonstrada a parecença não prova nada.
Depois vem a história, e ela pesa contra a tese. A Semíramis das inscrições é Sammu-ramat, uma rainha assíria do fim do século nove antes de Cristo, muito distante de qualquer época em que se possa situar Ninrode, enquanto a Semíramis casada com Nino vem de lendas gregas contadas séculos depois. Hislop apoia a tese inteira na identificação entre Ninrode e Nino, e esse é justamente o elo que nenhum documento da Mesopotâmia confirma.
Para que Babel chegasse a Roma, seria preciso mostrar quem levou esse culto, por onde, em que séculos e com que documentos, e a tese oferece parecenças no lugar dos elos. A história não consegue provar que nunca houve influência alguma entre dois mundos, mas quem afirma uma linha de descendência é quem precisa apresentar cada passo dela.
Foi isso que Woodrow encontrou quando voltou às fontes: em 1997, o seu ministério deixou de publicar aquele livro. Numa nova obra, ele concluiu que muitas daquelas ligações eram criação do próprio Hislop e que, ao tentar condenar o paganismo de Roma, Hislop acabou produzindo os seus próprios mitos. É raro ver um autor recolher o próprio livro depois de três décadas de sucesso, e esse gesto tem uma honestidade que merece respeito. A Igreja Católica sempre rejeitou a tese, e historiadores de várias confissões, inclusive protestantes, a tratam como uma construção sem base documental.
O que o texto sustenta
Então, o catolicismo veio da Babilônia de Ninrode? Pesadas pelo próprio texto, as três leituras não ficam no mesmo nível. O hebraico diz “diante do Senhor”, e por isso o “contra” de Agostinho depende da tradução que ele tinha, ponto em que a segunda leitura respeita mais a letra do versículo. Mas o conjunto da Escritura dá razão à primeira, porque o próprio texto mostra um reino que começa em Babel e avança para a Assíria, como Henry percebeu, e Miqueias chama de “terra de Ninrode” a terra do invasor.
A terceira leitura não se apoia nem nas palavras nem no contexto, porque depende de uma esposa, de um culto e de uma viagem até Roma que a Bíblia não menciona e a história não documenta. Cinco versículos que silenciam sobre esposa e culto não podem sustentar uma tese inteira construída sobre os dois. Por isso a resposta é não: o culto católico não veio da religião babilônica de Ninrode, e não existe linha documentada que leve de Babel ao altar de Roma. Se há algum “em parte”, ele pertence a outra afirmação, a de que cristãos de todas as igrejas conviveram com costumes do mundo em volta, o que vale também para protestantes e não envolve nem Ninrode nem Semíramis.
E aqui o texto confronta também quem fala, porque essa acusação nasceu em casa protestante e foi repetida em muitos púlpitos evangélicos, muitas vezes sem que ninguém conferisse as fontes. Abandonar um argumento falso não significa ceder a Roma, porque as divergências reais continuam, como a mediação única de Cristo, e elas se decidem pela Escritura, não pela Babilônia. Na nuance de “diante do Senhor”, cristãos fiéis à Escritura podem ler com Agostinho e Henry ou com a leitura que Gill registrou, e seguem conversando como irmãos.
Belém e a terra de Ninrode
Resta a primeira pergunta, a do poder humano diante de Deus, e Miqueias responde a ela a partir de uma cidade pequena. Em Miqueias 5:2, o profeta se dirige a Belém Efrata, pequena entre as famílias de Judá, e anuncia que dali sairá “o que será governador em Israel”. Nos versículos 4 e 5, esse governante governa “com a força do SENHOR, com a grandeza do nome do SENHOR seu Deus”, e o texto acrescenta: “E este será nossa paz” (Bíblia Livre).
No versículo 6, a terra que ameaçava o povo recebe o nome do caçador, porque os líderes levantados contra o invasor dominarão a terra da Assíria pela espada “e a terra de Ninrode em suas entradas”. Séculos depois, em Mateus 2:5-6, quando os magos procuram o rei que tinha nascido, os mestres da lei respondem a Herodes com essa profecia, e a resposta é Belém.
Ali nasce Jesus, o governante que não oprime os homens, mas dá a vida por eles na cruz, ressuscita ao terceiro dia e reina como o pastor prometido. O primeiro reino da Bíblia começou com um homem poderoso em Babel, e todos os reinos que vieram dele terminam diante desse pastor, que governa na força do Senhor e é a paz do seu povo.
Gênesis dá a Ninrode cinco versículos, um ditado e um reino que começa em Babel. Agostinho e Matthew Henry leram nele o orgulho e a ambição que se erguem contra Deus, numa leitura que une católicos e protestantes. O comentarista citado por Gill ouviu no mesmo “diante do Senhor” uma fama sem condenação. Hislop deu a Ninrode uma esposa, um culto e herdeiros em Roma, e Woodrow espalhou essa tese até voltar às fontes e abandoná-la. Pesadas pela Escritura e pela história, as semelhanças não formam uma linha, e a terra de Ninrode acaba submetida ao pastor que sai de Belém.
E você, já ouviu essa tese na sua igreja, e o que faz com ela agora que conhece de onde ela veio? No telefone sem fio, a brincadeira só se corrige quando alguém volta ao começo da roda e pergunta qual era a frase original, e foi exatamente isso que Woodrow fez com o próprio livro.
Buscar a verdade, mesmo quando ela desmonta um argumento útil contra outra tradição, é parte da honestidade que a fé exige, sobretudo quando falamos de irmãos de outra igreja. O reino daquele que nasceu em Belém não precisa de acusação inventada para vencer, porque Miqueias já disse dele: “E este será nossa paz”.
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