
A mitologia cananeia deu origem ao Deus de Israel?
Ugarit, Deuteronômio 7 e as leituras de Rashi, Calvino, John Gill e Wesley sobre a ordem de derrubar os altares
A mitologia cananeia deu origem ao Deus de Israel, ou foi o Deus de Israel quem mandou derrubar os altares dessa mitologia? Em 1929, nas ruínas de Ugarit, na costa da Síria, começaram a sair da terra tábuas de barro com mitos muito antigos. Ali estavam El, que presidia os deuses, Baal, senhor da tempestade, e Aserá, a mãe dos deuses. Do outro lado está Deuteronômio 7, que manda derrubar os altares, quebrar as colunas sagradas e cortar os postes sagrados dos povos de Canaã. Rashi, no século onze, lê ali uma fronteira concreta dentro da terra, enquanto Calvino, em Genebra, vê a honra de um Deus que escolheu Israel sem mérito nenhum. John Gill e John Wesley, no século dezoito, levam a mesma ordem para a santidade do povo e do coração. Só que o próprio nome Israel termina em El, e a Bíblia confessa sem rodeios que o povo serviu a Baal e a Astarote. Se a vizinhança era real, por que este Deus não aceita dividir o coração do seu povo com nenhum outro?
O que Deuteronômio 7 manda
Deuteronômio 7:1-6 é a fala de Moisés a um povo acampado a leste do Jordão, na terra de Moabe. O texto nomeia sete povos que já viviam ali, dos hititas aos jebuseus, e admite que eram mais numerosos e mais fortes que Israel.
Logo no versículo 2 vem a palavra mais dura do trecho: a ordem de destruir totalmente aqueles povos, sem tratado e sem piedade. O hebraico chama isso de herem, ou seja, entregar algo inteiramente a Deus e tirá-lo de qualquer uso humano. A pergunta moral da conquista merece outro episódio, porque o próprio trecho aponta logo para outro alvo.
Os versículos 3 e 4 proíbem os casamentos com esses povos, porque essas uniões desviariam os filhos de Israel para outros deuses. O versículo 5 manda derrubar os altares, quebrar as colunas sagradas, que eram pedras erguidas para o culto, cortar os postes sagrados, troncos ligados à deusa Aserá, e queimar os ídolos. E o versículo 6 dá o fundamento de tudo:
“Porque tu és povo santo ao SENHOR teu Deus: o SENHOR teu Deus te escolheu para ser-lhe um povo especial, mais que todos os povos que estão sobre a face da terra.”
(Deuteronômio 7:6, Bíblia Livre)
Pense numa aliança de casamento: quem a coloca no dedo não declara desprezo pelas outras pessoas do mundo, mas diz a quem pertence o seu coração e aceita guardar distância do que poderia roubá-lo. Santo, aqui, quer dizer separado para Deus, e a separação do versículo 5 existe por causa do versículo 6. Mas e se esse Deus que exige exclusividade tivesse saído dos mesmos deuses cujos altares ele manda derrubar?
O que saiu da terra em Ugarit
O que, afinal, saiu da terra naquela costa da Síria, e por que essas tábuas mexeram com quem estuda a Bíblia? Em 1929, uma equipe francesa começou a escavar a colina de Ras Shamra e encontrou, naquele mesmo ano, as primeiras tábuas. Ali estavam as ruínas de Ugarit, um porto rico destruído por volta de 1200 a.C.
A maior parte dos textos vem dos séculos 14 e 13 antes de Cristo e foi escrita em cuneiforme, isto é, com marcas em forma de cunha apertadas no barro mole. A língua desses textos, o ugarítico, é irmã próxima do hebraico, e muitas palavras soam quase iguais nas duas.
Nas tábuas aparece o panteão da cidade, isto é, a família de deuses que os seus moradores adoravam. No alto está El, rei idoso e sábio de quem os outros deuses são chamados filhos, ao lado de Aserá, sua esposa, a mãe dos deuses. Baal, o deus da tempestade, enfrenta o Mar e a Morte, desce ao mundo dos mortos e volta, e com ele voltam as chuvas que fazem a terra viver. Para quem plantava grãos numa costa que dependia da chuva, esses mitos eram oração por pão, por filhos e por vida.
Ugarit ficava ao norte da terra que a Bíblia chama de Canaã, e por isso os seus textos mostram uma cultura aparentada, sem retratar todos os povos cananeus. Mesmo assim, os paralelos com a Bíblia são reais, e o primeiro está no nome El, que também é uma palavra hebraica para Deus e está no próprio nome de Israel. Aserá, por sua vez, é o nome ligado aos postes sagrados de Deuteronômio 7.
O biblista americano Mark Smith, num livro de 1990 (The Early History of God), descreveu duas fases: primeiro Javé teria absorvido traços de El e de Baal, depois Israel teria se separado desses deuses. Hoje é amplamente aceito, entre os historiadores do antigo Israel, que Israel partilhava com os vizinhos a língua, a poesia e muitas formas de culto. O quanto isso explica a origem do Deus de Israel continua em disputa, até porque o nome Javé não aparece com segurança entre os deuses de Ugarit e muitos estudiosos procuram a origem dele mais ao sul.
A Bíblia não esconde a vizinhança
A Bíblia tenta esconder essa vizinhança incômoda, como se Israel nunca tivesse olhado para os altares de Canaã? Ela faz o contrário: Juízes 2:11-13 conta que os israelitas abandonaram o Deus que os tinha tirado do Egito e prestaram culto a Baal e a Astarote.
Séculos depois, no tempo do profeta Elias, 450 profetas de Baal e 400 profetas de Aserá comiam à mesa da rainha Jezabel. No monte Carmelo, em 1 Reis 18:20-21, Elias pergunta ao povo até quando ele vai oscilar para um lado e para o outro. O povo não responde nada, e esse silêncio é a confissão de um povo dividido.
É exatamente esse perigo que Deuteronômio 7 tenta prevenir, quando põe a razão da ordem nos filhos, no versículo 4: uma geração crescendo entre dois altares, sem saber a qual deles pertence.
Como leram a ordem: Rashi, Calvino, Gill e Wesley
Como leram esta ordem os que abriram o mesmo capítulo séculos antes de nós? Todos partem do mesmo chão, porque recebem o texto como palavra do Deus de Israel e veem o centro do perigo no coração dos filhos, desviado para outros deuses.
A primeira leitura vem de Rashi, que escreveu em Troyes, no norte da França, no século onze, o comentário à Torá mais estudado do judaísmo, e entra aqui como leitura judaica, fora da Igreja. No comentário ao versículo 2, ele lê de dois modos a expressão traduzida por “não tenham piedade”: não atribuir graça a esses povos, isto é, não exaltar a beleza deles, e não lhes dar lugar para se fixarem na terra. No versículo 5, explica que os postes sagrados eram árvores que aqueles povos cultuavam. É uma fronteira concreta, desenhada dentro da terra para que a geração seguinte não fosse atraída, e foi assim que o judaísmo rabínico herdou o trecho.
A segunda leitura nasce em Genebra, nos sermões que João Calvino pregou sobre Deuteronômio em meados do século dezesseis. Para ele, a severidade se explica pelo culto, porque Deus não divide com ídolo nenhum a honra que só a ele pertence, e a idolatria começa no coração antes de chegar ao altar. Nos versículos 6 a 8, ele insiste que Israel foi separado sem mérito próprio, pela escolha graciosa de Deus.
Aqui Calvino puxa o texto noutra direção: onde Rashi desenha uma fronteira para proteger Israel dos outros, Calvino lembra que a fronteira começa pela humildade de quem recebeu o que não merecia. Essa leitura foi herdada por reformados e presbiterianos, e ela também cobra uma conta da casa protestante. No século dezesseis, multidões em regiões reformadas usaram ordens como esta para quebrar imagens e altares de outros cristãos, como se o texto desse a elas a autoridade que deu a Israel na terra.
A terceira leitura vem da Inglaterra do século dezoito e reúne dois homens que discordaram duramente sobre a predestinação, o batista John Gill e John Wesley, o pai do metodismo. Diante deste capítulo, os dois caminham juntos e tiram o peso do culto público para pô-lo na vida diária de quem crê.
Gill, pastor batista em Londres, escreveu uma exposição da Bíblia inteira e citava muitas vezes Jarchi, nome pelo qual Rashi era conhecido entre os cristãos. É bonito ver um pastor de Londres levando a sério um rabino da França medieval. No versículo 6, ele lê o povo santo como um povo separado do mundo para Deus e vê nele uma figura da igreja.
Wesley, nas Notas explicativas sobre o Antigo Testamento, publicadas a partir de 1765, põe o perigo antes do altar, nas amizades e nos casamentos que inclinam o coração. Essa leitura vive hoje entre batistas reformados, metodistas, wesleyanos, igrejas de santidade e muitos pentecostais.
A objeção mais forte
Nenhuma dessas três leituras conheceu as tábuas de Ugarit, e é daí que vem a objeção mais forte.
Você pode estar pensando: “se Israel precisava ser proibido de adorar os deuses de Canaã, é porque já era cananeu”. Na sua forma mais forte, a objeção diz que Deuteronômio foi escrito séculos depois de Moisés, no tempo dos reis, como bandeira de uma reforma contra a religião que o próprio povo praticava. Inscrições de cerca de 800 a.C., achadas em Kuntillet Ajrud, no Sinai, pedem bênçãos em nome de Javé ao lado de Aserá.
Aqui a honestidade vale para os dois lados: a arqueologia mostra com clareza o que muitos israelitas praticavam, mas não tem como mostrar se o Deus que falou a Moisés nasceu daquelas práticas ou foi traído por elas. E há uma segunda objeção, mais moral: “isso é intolerância com outros povos, e um Deus assim parece pequeno demais para ser o Deus de todos”.
O que o texto sustenta
A ordem de derrubar altares não enfraquece a tese da proximidade, e até a confirma, porque ninguém manda derrubar um altar que fica longe. O que o texto recusa é que essa vizinhança vire parentesco, como se o Deus de Israel fosse só mais um morador daquela prateleira de deuses.
A palavra que você usa quando ora, Deus, veio do latim, a mesma língua em que os romanos chamavam Júpiter de deus, e nem por isso a sua oração vai para Júpiter. Israel também usou a palavra comum da sua região, El, para falar de um Deus que não se parecia com nenhum deus de Ugarit.
É o Deus que tirou um povo de escravos do Egito, como lembra o versículo 8. É o Deus que falou do meio do fogo no Horebe sem mostrar forma alguma, segundo Deuteronômio 4, e por isso não aceitou imagem no seu culto. É o Deus que não tem esposa, não morre com a seca nem volta com a chuva, e que escolheu o menor dos povos só porque o amou.
Segundo a Escritura, então, Israel falava a língua de Canaã, mas o seu Deus não nasceu ali, e foi ele quem chamou o seu povo para fora daqueles altares. Entre as leituras, o texto também decide: a razão que ele dá está no coração dos filhos e no amor que escolhe, e por isso Calvino, Gill e Wesley ficam mais perto dele. Rashi acerta ao ler uma fronteira real para Israel na terra, mas, quando proíbe até o elogio a esses povos, vai além da razão que o versículo 4 oferece.
Cristãos fiéis à Escritura ainda divergem sobre como entender a destruição total do versículo 2, e conversam sobre isso como irmãos, mas nenhum deles precisa tirar daqui desprezo pelos povos. A exclusividade é zelo, a palavra que Deuteronômio 5 usa quando chama o Senhor de Deus zeloso, o zelo de quem ama e não aceita dividir quem ama.
Em Cristo, o zelo abre a porta
Jesus leva essa exigência até o fundo em Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores”. Em Cristo, porém, a separação muda de lugar, porque sai da espada e da fronteira de terra e vai para o coração de um povo reunido ao redor de uma pessoa. Mateus 15 chama de cananeia, a mesma palavra do nosso texto, uma mulher da região de Tiro e Sidom, e Jesus termina elogiando a grandeza da fé dela.
O Deus que no Horebe não mostrou forma alguma mostrou o rosto em Jesus, a quem Colossenses 1:15 chama de imagem do Deus invisível. E Apocalipse 5 canta o Cordeiro que foi morto e está de pé, que com o seu sangue comprou para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação, e fez deles um reino.
As tábuas de Ugarit mostraram uma mitologia cananeia viva, escrita numa língua irmã do hebraico. A própria Bíblia confessou que Israel se ajoelhou muitas vezes diante de Baal e de Astarote. Rashi, Calvino, Gill e Wesley leram a ordem de Deuteronômio 7 como fronteira na terra, como honra de Deus e como santidade de todo dia. E o texto, posto diante da objeção mais forte, mostrou que a exclusividade nasce do amor que escolhe.
Qual dessas leituras mais surpreendeu você, e que altar ainda disputa o seu coração, como disputa também o meu? Talvez não seja uma estátua de Baal, mas o dinheiro que Jesus mesmo nomeou, o aplauso ou o medo.
Pense de novo na aliança de casamento, que não insulta ninguém e apenas mostra a quem pertence quem a usa. A mitologia cananeia não deu origem ao Deus de Israel, e foi ele quem mandou derrubar os altares dela, com o zelo de quem ama. Ele nunca pediu separação por desprezo aos povos, mas por zelo pelo coração do seu povo, e em Cristo esse mesmo zelo abriu a porta para gente de todas as nações.
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