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1 Coríntios 3o ego inflamado e os partidos espirituais

O Ego Inflamado e a Ilusão dos Partidos Espirituais

Diego Gonçalves5 min de leitura1.055 palavras

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Neste texto

“Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.”
— 1 Coríntios 3.21-23

A igreja de Corinto tinha tudo o que uma congregação moderna sonharia em ter: números expressivos, crescimento acelerado, uma diversidade impressionante de dons espirituais e pregadores de primeira linha revezando o púlpito. O próprio apóstolo Paulo havia passado um ano e meio ali colocando os alicerces da comunidade. Depois dele vieram Apolo, um orador brilhante vindo da célebre academia de Alexandria, Pedro, que havia andado lado a lado com Jesus pelas estradas da Galileia, e o jovem Timóteo.

Aos olhos de quem olhava de fora, Corinto era um modelo de vitalidade. O problema é que, por dentro, a igreja estava em frangalhos, rachada em pequenos feudos religiosos movidos por vaidade pessoal e partidarismo infantil.

O Pedigree dos Outros como Troféu Próprio

O sintoma mais visível do adoecimento em Corinto era a disputa de torcidas. Havia o grupo dos intelectuais que preferia a oratória polida e a erudição de Apolo; havia o grupo dos tradicionais que se apegava à autoridade fundadora de Paulo; havia a ala mais ligada às raízes hebraicas que preferia Pedro; e havia até os “superespirituais” que diziam não precisar de líder nenhum porque pertenciam diretamente a Cristo.

A dinâmica humana aqui é velha conhecida de qualquer um de nós. A gente costuma escolher heróis, autores e mestres de renome não apenas para aprender com eles, mas para usar o prestígio deles como um espelho da nossa própria importância. Quando alguém diz com o peito estufado “eu sou da linha teológica de fulano” ou “eu pertenço à denominação histórica tal”, no fundo está tentando pegar carona na reputação alheia para disfarçar o próprio vazio.

Paulo corta essa ilusão pela raiz ao lembrar que os líderes não são donos do rebanho nem troféus para o nosso ego. Eles são apenas cooperadores e servos através dos quais a igreja creu. Colocar pregadores em pedestais para medir quem tem a melhor linhagem espiritual é uma prova gritante de imaturidade. Corinto era uma igreja abarrotada de manifestações carismáticas, mas carente de caráter moldado pela cruz. Dons extraordinários nunca foram atestado de maturidade cristã; o Espírito concede ferramentas para o serviço da comunidade, mas o orgulho humano tem a capacidade doentia de transformar até os dons de Deus em combustível para a autoexaltação.

A Anatomia de um Ego Doente

Como o pastor e escritor Timothy Keller analisou com tanta precisão em seu pequeno e brilhante livro Ego Transformado, a raiz das divisões de Corinto estava naquilo que Paulo chama nos primeiros versículos do capítulo 4 de inflamação do ego.

A palavra que o apóstolo usa no grego para descrever esse orgulho remonta à ideia de algo soprado e estufado além da medida, como um fole ou uma bexiga de couro cheia de ar. E Keller aponta que essa condição natural do homem longe da graça produz quatro traços inconfundíveis:

Primeiro, o ego é vazio. Ele sofre de uma ausência profunda no centro da alma, um vácuo de identidade que o pecado abriu ao nos desconectar de Deus. Por ser oco por dentro, ele vive desesperado tentando se encher de qualquer coisa: aprovação social, títulos acadêmicos, curtidas virtuais ou pedigree eclesiástico. Só que essa fome é insaciável, porque nenhuma conquista finita consegue preencher um espaço que foi criado para ser habitado pela glória do Criador.

Segundo, o ego é dolorido. Keller usa uma metáfora anatômica certeira: quando um órgão do nosso corpo está saudável, a gente nem nota que ele existe; você passa o dia sem pensar no seu estômago ou no seu pulmão. Agora, se o órgão estiver inflamado ou com uma ferida aberta, o menor toque vira um tormento. O ego humano caído é exatamente assim: vive em estado de alerta, hiper-reativo e dolorido. Qualquer crítica, qualquer desconsideração numa conversa de corredor ou a mínima falta de reconhecimento por um serviço prestado são suficientes para deixar o indivíduo ofendido por semanas. Quem vive centrado em si mesmo passa a vida inteira reclamando que pisaram nos seus sentimentos.

Terceiro, o ego é agitado e comparativo. Ele não consegue simplesmente desfrutar de um bom livro, de uma boa pregação ou de um ministério produtivo; ele precisa saber se o que ele fez foi melhor ou pior do que o do irmão ao lado. O orgulho nunca tem prazer na posse de algo, mas apenas na certeza de ter mais ou ser superior aos outros.

Quarto, o ego é exigente. Ele sequestra todas as conversas e todos os relacionamentos para colocá-los a serviço da própria imagem, cobrando elogios e exigindo atenção constante do ambiente.

A Liberdade de Esquecer de Si Mesmo

A resposta apostólica para curar essa inflamação destrutiva não é o discurso moderno de tentar inflar ainda mais a autoestima, nem o falso asceticismo de fingir uma modéstia fingida. Paulo aponta para um caminho infinitamente mais libertador em 1 Coríntios 4.3-4, quando diz: “A mim muito pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por algum juízo humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo. De nada me argui a consciência; contudo, nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor”.

Paulo havia encontrado o segredo do desprendimento de si mesmo. Ele não vivia refém do tribunal da igreja de Corinto, nem do aplauso dos seus discípulos, e nem mesmo do tribunal da sua própria autocrítica. O veredito sobre o seu valor e a sua dignidade não dependia de seu desempenho diário nem do partido ao qual pertencia; o veredito final já havia sido pronunciado na cruz de Cristo, onde ele foi profundamente amado e aceito pela graça de Deus.

Quando o evangelho desce da cabeça para o coração, a gente não precisa mais viver preocupado em proteger reputação, vencer discussões teológicas de mesa ou medir quem tem mais dons na congregação. A gente descobre o alívio bendito de descansar na justiça que Cristo conquistou por nós, abandonando a tolice de usar a igreja de Deus como palco para as nossas inseguranças. Que a cruz esvazie a nossa empáfia e nos devolva a simplicidade de sermos apenas servos do único Senhor que é digno de toda a glória.