
Amor ao próximo: quando o mandamento sai do discurso
O amor que sangra e serve como marca dos discípulos
“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? E Jesus lhe respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.”
(Mateus 22:36-40, Bíblia Livre)
Falar sobre amor é uma das coisas mais fáceis do mundo. A palavra está estampada em camisetas, embalagens de café, músicas populares e discursos políticos. No ambiente cristão, repetimos com frequência que Deus é amor e que a igreja precisa amar. O problema começa quando esse amor precisa descer da teoria e encontrar uma pessoa de carne, osso, manias irritantes e opiniões contrárias às nossas.
Quando os religiosos da época de Jesus tentaram colocá-lo contra a parede, perguntando qual era a ordem mais importante de toda a Escritura, esperavam uma resposta teológica refinada sobre sacrifícios ou dias de guarda. Jesus foi direto à raiz. Ele pegou o mandamento supremo de amar a Deus de todo o coração e uniu a ele, de forma inseparável, a ordem de amar o próximo como a si mesmo. Na mente de Cristo, não existe amor genuíno a Deus que não se traduza em cuidado visível com quem está ao nosso lado.
O falso amor pela humanidade em geral
É muito cômodo amar a humanidade como uma ideia abstrata. Amar o povo distante que nunca vimos, sofrer por causas genéricas na internet e postar frases bonitas nas redes sociais não custa paciência, não exige dinheiro do bolso e não gasta o nosso tempo.
O choque do Evangelho é que Jesus nunca nos mandou amar um conceito abstrato; Ele nos mandou amar o “próximo”. E o próximo é o vizinho barulhento do apartamento de cima, o colega de trabalho que tenta nos passar a perna, o parente difícil no almoço de domingo e o desconhecido que parou na sarjeta.
Quando um doutor da lei tentou restringir o alcance do mandamento perguntando “quem é o meu próximo?” (Lucas 10:29), Jesus respondeu contando a parábola do bom samaritano. Ele colocou um estrangeiro desprezado como o único que teve coragem de interromper a própria viagem, gastar o próprio azeite e pagar a hospedagem de um homem espancado (Lucas 10:30-37). O próximo não é quem pertence ao nosso clube ou quem vota igual a nós; o próximo é qualquer pessoa cujas feridas cruzam o nosso caminho.
Amor que sangra e amor que serve
O apóstolo João foi categórico ao escrever que quem diz que ama a Deus, a quem nunca viu, mas odeia o próprio irmão, a quem vê todo dia, é mentiroso (1 João 4:20). A prova real da nossa espiritualidade não se mede pelo arrebatamento no momento do louvor nem pelo número de versículos decorados, mas pela disposição prática de estender a mão quando o outro precisa de socorro.
Esse amor não nasce de força de vontade: “Nós amamos, porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19, Bíblia Livre). O Espírito o faz crescer em quem crê, rumo ao que Wesley chamou de perfeição no amor.
Amar como Cristo amou envolve ações concretas:
- Interromper a própria pressa: O sacerdote e o levita da parábola tinham compromissos religiosos urgentes e passaram de largo. Amar exige abrir espaço na agenda para enxergar quem está caído.
- Assumir o custo da generosidade: O samaritano tirou dinheiro do próprio bolso e cuidou do ferido. O amor bíblico sempre custa alguma coisa, seja tempo, paciência, reputação ou recursos materiais.
- Suportar as imperfeições alheias: Na comunidade da fé, amar significa ser tardio para se ofender, pronto para perdoar e capaz de conviver em paz com pessoas que têm temperamentos difíceis.
A marca registrada dos discípulos
Jesus disse aos Seus amigos: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vós tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35, Bíblia Livre). Ele não disse que o mundo nos reconheceria pelos nossos prédios confortáveis, pelos nossos debates teológicos impecáveis ou pelo nosso volume de barulho nos cultos. O único crachá que o mundo tem o direito de exigir dos cristãos é a qualidade do amor que praticamos.
Quando a igreja decide amar sem fingimento, acolhendo o necessitado, perdoando ofensas e servindo a cidade sem segundas intenções, o Evangelho ganha uma autoridade que nenhum argumento puramente intelectual consegue derrubar. Que a nossa vida nesta semana seja um reflexo fiel desse amor que nos resgatou primeiro na cruz.
- Estudos Diversos
- Amor ao Próximo
- Ética Cristã
- Doutrina