
Atanásio, o defensor de Niceia: O homem pode virar deus?
A theosis em Atanásio e Gregório de Nazianzo, lida por ortodoxos e protestantes à luz de 2 Pedro 1:4
Num poema escrito no século 4, um bispo diz a você, com todas as letras, que pelos sofrimentos de Cristo você poderá um dia se tornar deus. Isso é heresia, ou é a fé da Igreja antiga?
O bispo é Gregório de Nazianzo, um dos grandes pais da Igreja do Oriente, lembrado por ter defendido que o Espírito Santo é Deus tanto quanto o Pai e o Filho. No poema que ele chamou de Sobre o Filho, o verso diz assim: “pelos sofrimentos de Cristo, você poderá depois tornar-se deus”.
Gregório não estava sozinho. Atanásio de Alexandria, o homem que gastou a vida defendendo a fé de Niceia, isto é, que Jesus é Deus de verdade e não uma criatura superior, escreveu no livro Sobre a encarnação uma frase que os cristãos do Oriente repetem até hoje: “Ele se fez homem para que nós fôssemos divinizados”.
Para entender o que é theosis, basta olhar a própria palavra. Ela vem do grego e quer dizer divinização, ou seja, o caminho pelo qual o ser humano, unido a Cristo, vai sendo feito participante da vida de Deus. Para os pais do século 4, esse era o alvo de toda a salvação, e não um detalhe para especialistas.
A objeção do Éden
Se você sentiu um arrepio, está em boa companhia, porque a primeira objeção que vem à cabeça de quem conhece a Bíblia é forte: “Mas foi exatamente isso que a serpente prometeu no Éden, quando disse que Adão e Eva seriam como Deus”. E a objeção tem do seu lado um texto pesado, em Êxodo 33:20, quando Deus diz a Moisés: “Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo”.
Participação, não troca de natureza
A resposta começa pelo próprio Atanásio. O homem que escreveu aquela frase foi mandado para o exílio várias vezes justamente por insistir que só o Filho é Deus por natureza, e que todo o resto foi criado do nada pela vontade de Deus. Se ele achasse que você pode virar Deus do jeito que o Filho é Deus, teria dado razão aos adversários que combateu a vida inteira.
Quem já fez churrasco conhece o espeto de ferro esquecido na brasa: ele fica vermelho, esquenta, queima a mão de quem encosta, e continua sendo ferro. Os pais pensavam a salvação de um jeito parecido, porque o ferro recebe o calor do fogo sem virar fogo, e o cristão recebe a vida de Deus sem deixar de ser criatura.
Séculos depois, a Igreja Ortodoxa deu nome a essa fronteira: o que Deus é em si mesmo, a sua essência, fica para sempre fora do nosso alcance, e o que nós recebemos é a vida e a ação de Deus que chegam até nós. Gregório já apontava nessa direção no poema Sobre o mundo, quando fala do homem de Deus que um dia chega ao céu “aperfeiçoado como deus, purificado na mente e na carne”. A palavra é ousada, mas o sentido é de participação, e não de troca de natureza.
A diferença entre o Éden e o poema de Gregório está no caminho. Adão quis ser como Deus esticando a mão para pegar o que não era dele, enquanto em Cristo é Deus quem desce, assume a nossa carne e nos dá uma vida que nós nunca alcançaríamos sozinhos. Os pais não ensinaram que a criatura fica igual ao Criador. Eles ensinaram que o Criador se fez criatura para levar a criatura até Ele.
Ortodoxos e protestantes diante da theosis
Se é isso que os pais queriam dizer, por que essa palavra ainda soa como heresia na igreja de tantos protestantes, e quem lê esse poema mais perto da Bíblia, o ortodoxo ou o protestante?
Para o cristão ortodoxo, a theosis está no centro da fé. A salvação é entendida como cura: o pecado adoeceu a natureza humana, e Cristo, ao assumir essa natureza, começou a curá-la por dentro, e essa cura chega a você pelo batismo, pela ceia, pela oração e por uma vida inteira de arrependimento. Ser salvo, nessa leitura, é ir sendo transformado até refletir a glória de Deus.
O Ocidente, que lia a Bíblia em latim, pensou a salvação em boa parte com a linguagem do tribunal, e a pergunta principal passou a ser como um pecador culpado pode ser declarado justo diante de Deus. A Reforma respondeu com Paulo: pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo. Por isso “tornar-se deus” soa estranho ao ouvido protestante, que se acostumou a ouvir falar de perdão muito mais do que de transformação.
Mais do que uma ficha limpa
E aqui o espelho vira para nós. Muitos de nós aprendemos uma salvação que parece só uma ficha limpa, um perdão que tira a culpa e deixa a pessoa do mesmo jeito que estava. Só que a Escritura promete mais do que isso, e quem diz isso é um apóstolo, e não um bispo do século 4.
Em 2 Pedro 1:4, o apóstolo escreve:
“Pelas quais nos são dadas grandíssimas e preciosas promessas, para que por meio delas sejais participantes da natureza divina, tendo escapado da corrupção que há no mundo pelo mau desejo.”
(2 Pedro 1:4, Bíblia Livre)
E João, na sua primeira carta, garante que, quando Cristo aparecer, nós vamos ser parecidos com Ele, porque vamos vê-lo como Ele é (1 João 3:2).
No ponto principal, então, o protestante que lê a Bíblia concorda com Atanásio e Gregório. Deus não salva você só para tirar você da condenação, mas para fazer você parecido com o Filho, e essa transformação começa agora e se completa quando você vir Cristo face a face.
Onde as leituras se separam
A separação está em dois lugares, e ela é real. O primeiro é a ordem: para a Reforma, você é aceito por Deus pela graça, mediante a fé em Cristo, e é por já estar aceito que começa a ser transformado, enquanto a leitura ortodoxa não separa as duas coisas desse jeito. O segundo é a explicação: a distinção entre essência e ação de Deus é uma tentativa séria de proteger a fronteira entre o Criador e a criatura, mas a Bíblia não a ensina com essas palavras, e por isso o protestante não pode dar a ela o peso que dá ao texto.
A leitura mais perto da Escritura guarda a esperança dos pais e as palavras dos apóstolos: participantes, parecidos, transformados. A promessa é bíblica, e o protestante que a esqueceu perdeu um pedaço do evangelho. A palavra “deus”, solta no Brasil de hoje, se confunde fácil com a ideia de que você seria um pequeno deus por conta própria, e por isso o vocabulário mais seguro continua sendo o da própria Bíblia.
Uma frase para guardar
A resposta à pergunta do começo cabe numa frase: você nunca vai ser Deus por natureza, mas em Cristo pode ser feito participante da vida de Deus por graça, sem deixar de ser criatura.
É o espeto na brasa, vermelho de fogo e ainda ferro. Por isso fica um pedido: não se contente com um evangelho que só limpa a sua ficha. Leia o primeiro capítulo de 2 Pedro esta semana e peça ao Espírito Santo que faça em você o que Ele prometeu, deixando você a cada dia mais parecido com Jesus.
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