
Por que a Bíblia King James foi criada? Fé e política
Por que a Bíblia King James foi criada? Fé, política e o nascimento de um clássico
Quem abre hoje uma Bíblia King James e admira o estilo solene e poético costuma imaginar um processo pacífico, com sábios piedosos reunidos num mosteiro silencioso, longe das brigas do mundo. A história real é bem menos romântica. A tradução mais influente do mundo de língua inglesa nasceu de uma crise política, do medo de um surto de peste bubônica e da irritação de um rei com anotações de rodapé que desafiavam o poder dos monarcas.
Em 1603, a rainha Elizabeth I morreu sem deixar herdeiros diretos, e a coroa inglesa passou ao rei Jaime VI da Escócia, que assumiu o trono como Jaime I da Inglaterra. O país que ele encontrou era um barril de pólvora religioso.
De um lado estavam os bispos anglicanos, que queriam preservar a hierarquia, a liturgia solene e o controle do Estado sobre a igreja. Do outro estavam os puritanos, um grupo numeroso e articulado de calvinistas ingleses, convencidos de que a Reforma na Inglaterra tinha parado no meio do caminho. Eles queriam cultos mais simples, menos poder para os bispos e uma igreja mais próxima do modelo presbiteriano que Jaime conhecia bem da Escócia.
Para tentar pressionar o novo monarca logo no início do reinado, os puritanos entregaram a ele a chamada Petição Milenar, um documento com cerca de mil assinaturas de clérigos que listava as mudanças urgentes de que a igreja precisava.
Para resolver o impasse e pacificar o reino, Jaime convocou uma conferência no Palácio de Hampton Court, em janeiro de 1604. As reuniões foram duras. O rei, teologicamente letrado, mas muito vaidoso e ciumento da própria autoridade, perdeu a paciência com várias exigências puritanas. Deixou claro que jamais abriria mão da hierarquia episcopal que sustentava o trono, e a frase que ficou ligada a ele foi “sem bispo, não há rei”.
Quando o debate parecia emperrado, o puritano John Reynolds, presidente do Corpus Christi College, em Oxford, fez uma proposta que ninguém esperava: que se encomendasse uma nova tradução da Bíblia para todo o reino, porque as versões oficiais da época eram fracas e imprecisas.
A maioria dos bispos torceu o nariz, mas Jaime gostou da ideia por um motivo bem particular.
Naquele tempo, a Bíblia mais popular da Inglaterra não era a versão oficial lida nos púlpitos anglicanos, e sim a Bíblia de Genebra. Ela havia sido produzida por reformadores ingleses refugiados na Suíça durante as perseguições do século anterior. O povo e os puritanos gostavam dela porque era compacta, fácil de carregar e vinha cheia de notas explicativas nas margens.
O problema para Jaime estava justamente nessas notas. Em várias passagens, os comentários de Genebra sustentavam que desobedecer a ordens injustas de governantes podia ser legítimo diante de Deus, e davam como exemplo as parteiras hebreias que enganaram o Faraó no Egito. Para um rei absolutista, defensor ferrenho do direito divino dos monarcas, aquelas notas cheiravam a rebelião.
Na proposta de Reynolds, Jaime viu a ocasião ideal: uma tradução magnífica, uniforme e de alto nível acadêmico, com uma regra expressa e inegociável. Nenhuma nota marginal de comentário doutrinário ou político seria permitida. O texto bíblico falaria por si, sem margem para contestar o trono.
Cerca de cinquenta dos maiores eruditos em hebraico e grego de Oxford, Cambridge e Westminster foram convocados e divididos em seis comitês de trabalho. Durante sete anos, revisaram com cuidado o texto, a partir das línguas originais, e aproveitaram a riqueza de linguagem que William Tyndale havia deixado décadas antes, quando levou a Escritura ao inglês do povo comum.
Quando a obra foi publicada, em 1611, o resultado passou de longe qualquer cálculo político imediato. A nova versão não evitou as tensões que levariam à Guerra Civil Inglesa poucas décadas depois, mas firmou um padrão literário, teológico e cultural sem precedentes. A King James moldou o vocabulário de poetas, pregadores e pensadores por mais de quatro séculos e se tornou o texto mais lido e citado do mundo de língua inglesa.
A história do nascimento da King James lembra a soberania providencial de Deus. O Todo-Poderoso não precisa de um ambiente politicamente puro nem de motivos humanos perfeitos para fazer a sua Palavra florescer. Ele governa o tabuleiro da história e usa conferências tensas, vaidades de rei e clamores de reforma para que a mensagem da redenção continue ecoando de geração em geração.
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