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EstudosMateus

Igreja no saleiro: a missão de Deus em Atos 2 e Marcos 16

A igreja ainda cumpre a sua missão ou virou ilusão humana?

Diego Gonçalves4 min de leitura834 palavras

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Neste estudo

Feijão sem sal não tem jeito. Pode estar no ponto, cheiroso, com a carne certa, e mesmo assim a gente fica empurrando o prato. O sal estava ali o tempo todo, limpinho, guardado no saleiro em cima da mesa. Só não estava onde precisava estar.

Jesus disse aos discípulos: “Vocês são o sal da terra” (Mt 5:13). Sal serve pra temperar, e pra isso precisa sair do saleiro. Daí vem uma pergunta que não quer calar no coração de muita gente: a igreja de hoje ainda cumpre a missão que recebeu de Deus ou virou uma ilusão humana, bonita por fora e inútil por dentro?

O saleiro e a igreja

Muita igreja se parece demais com esse saleiro. É confortável, organizada nas suas rotinas, mas meio desligada do mundo que deveria temperar. Pra muita gente, a experiência com a igreja é um evento por semana, um compromisso na agenda. Acabou o culto, cada um volta pra vida real como se fossem dois mundos que não se tocam. E a gente também, vamos ser honestos, já agiu assim.

Aí a gente olha para trás e o contraste incomoda. A igreja primitiva tinha tanta vida que foi acusada de ter “transtornado o mundo” (At 17:6). Entre o que a gente lê na Bíblia e o que vive hoje parece existir um abismo. Só que lá no fundo existe uma fome, um desejo de uma fé que seja mais que ritual de domingo, algo de verdade, que faça diferença.

O que Atos 2 mostra

Depois do Pentecostes, Lucas descreve os cristãos de Jerusalém. Eles perseveravam no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2:42). Tinham tudo em comum, vendiam bens e repartiam com quem precisava (At 2:44-45). Comiam juntos nas casas, com alegria e sinceridade de coração (At 2:46).

Repare no que a gente deseja ao ler isso. A gente não sente falta de um prédio maior nem de uma programação mais animada, mas de realidade, de ver o poder de Deus agindo hoje do jeito que lemos no Novo Testamento. Uma fé que funciona na segunda-feira.

Dois motivos pra achar que não dá

Quando a gente para pra pensar, a coisa trava em dois pontos.

O primeiro é a missão. Jesus mandou ir por todo o mundo e pregar o evangelho (Mc 16:15). Numa sociedade que põe a tolerância acima de tudo, isso soa arrogante.

O segundo é a comunhão. A palavra grega traduzida por “comunhão” nesse versículo é koinonia, e ela quer dizer parceria, participação, partilha de vida. Quem pensa em cafezinho depois do culto se engana, porque a coisa exige deixar alguém nos conhecer de verdade, e isso bate de frente com o nosso individualismo e com a vulnerabilidade que a gente passa a vida evitando.

Quem recebeu essa missão

Agora repare em quem a recebeu: gente comum, longe de ser super-herói da fé. Marcos conta que Jesus apareceu aos onze enquanto estavam à mesa e censurou a incredulidade e a dureza de coração deles (Mc 16:14). Eram homens escondidos, com medo, cheios de dúvida, igualzinho a muita gente hoje. E foi a esse grupo que Jesus entregou a tarefa.

Se a missão dependesse só deles, e só de nós, seria impossível mesmo. Mas o fim do capítulo mostra outra coisa. Os discípulos saíram para pregar em toda parte, e o Senhor cooperava com eles, confirmando a palavra (Mc 16:20). Eles foram, e Deus foi junto. Eles agiram, e Deus confirmou o que faziam. O sucesso daqueles homens não veio da coragem nem da habilidade deles, veio da cooperação do Senhor.

Por isso os teólogos falam em missão de Deus. A missão não é um peso que a gente carrega sozinho, mas a missão de Deus, e nós somos convidados a ser parceiros dele.

O que muda quando a chave vira

Essa mudança de ponto de vista muda a prática. Pregar deixa de ser ganhar um debate e passa a ser anunciar uma pessoa, Jesus. Adoração deixa de ser uma hora no domingo e vira uma vida inteira de serviço, sete dias por semana. Discipulado deixa de ser um cursinho e vira caminhada lado a lado, aprendendo juntos.

O resultado não é uma igreja perfeita, cheia de gente perfeita, mas uma igreja imperfeita e real, e por isso mesmo atraente. A vida cristã vira fonte de alegria, e não um fardo. A comunidade atrai quem está de fora, não por marketing, mas pela beleza das relações. Foi assim em Jerusalém: o crescimento não saiu de um plano de cinco passos. Era o Senhor quem acrescentava, dia após dia, os que iam sendo salvos (At 2:47). O crescimento foi consequência, e nunca a meta.

Do saleiro para a panela

Se a missão é de Deus e nós somos convidados a cooperar, a pergunta muda. Deixa de ser “será que a gente consegue?” e passa a ser “será que a gente quer?”.

O sal foi feito pra comida. Tomara que a gente tenha coragem de sair do saleiro e se deixar espalhar pelo mundo que Deus quer temperar.