
SermõesSermões em Êxodo5 de 6
Êxodo 20os Dez Mandamentos são regras ou amor de Deus?
Todo adolescente já ouviu um “nem pensar”. Põe o cinto. Volta pra casa até as dez. Desliga esse celular e vai dormir. Na hora, a regra parece implicância, e muita gente passa anos achando que os pais só queriam atrapalhar. Depois que cresce, entende que o horário de voltar era para proteger e que a hora de dormir existia porque o corpo de uma criança precisa descansar. A regra, ali, era um jeito de os pais dizerem que se importavam.
Com os Dez Mandamentos a gente costuma reagir como o adolescente. Ouve a lista de “não farás” e sente um aperto. Ninguém lê Êxodo 20 e sai aquecido pelo amor de Deus. Mas vale olhar de novo, começando pela primeira frase, que quase todo mundo pula.
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.
Antes de qualquer proibição, Deus diz o que já fez: tirou o povo da escravidão. A lei vem depois do resgate. É a palavra de um Pai que libertou os filhos e agora mostra como viver livres.
Por que a gente não gosta de regra
Uma razão é que reagimos mal a qualquer ordem. Hoje se pensa assim: moral é o que cada um decide, não preciso de tradição religiosa pra saber o que é certo, ninguém manda em mim. Soa independente e adulto. Só que o raciocínio não para em coisas pequenas. Se cada um decide o que é certo, quem sustenta um vício acha que roubar pra comprar a próxima dose é só um meio. Quem se sente injustiçado acha que gritar, ofender e bater está justificado. Quem decide sozinho o que é bom acaba tendo razão sempre.
A história de dois rapazes ricos de Chicago mostra onde isso pode chegar. Em 1924, Nathan Leopold e Richard Loeb, dois jovens universitários que se achavam superiores aos outros, planejaram com frieza e mataram um menino de 14 anos, Bobby Franks, só para provar que estavam acima da lei. Na defesa deles, o advogado Clarence Darrow argumentou que as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche, que os rapazes tinham absorvido, pesavam no crime, e chegou a perguntar se era justo enforcar um jovem de dezenove anos pela filosofia que lhe ensinaram na universidade.
Repare no que aconteceu. Em vez de ouvir o que Deus diz sobre a santidade da vida humana, “não matarás”, eles trocaram o mandamento por uma ideia humana, e uma vida inocente foi tirada. Nós não chegamos a esse extremo, mas a troca de fundo é a mesma sempre que a gente prefere o valor do mundo ao valor de Deus. Dá pra se perder com as melhores intenções.
A lei que não nos deixa confortáveis
Existe uma segunda razão para o desconforto: a culpa. Basta ler os mandamentos como Jesus os leu. Onde a lei proíbe o adultério, Jesus alcança o olhar e o desejo (Mt 5:27-28). Onde proíbe o assassinato, ele alcança o ódio guardado no coração (Mt 5:21-22). Lutero, no seu Catecismo Menor, faz o mesmo movimento com cada mandamento, e depois de ouvir os dois ninguém sai se achando em dia com a lei.
Só que a lei de Deus nunca foi só uma lista de proibições. A palavra hebraica para lei, torá, quer dizer instrução, e a instrução aponta um caminho: o caminho de Deus. Em vez de segui-lo, a gente preferiu o nosso, e Deus enxerga muito mais do que as ações. Vê atitudes, palavras, pensamentos, desejos, imaginação e motivações. Ele sabe que ninguém neste planeta segue o caminho perfeitamente. Desobediência, pecado e morte são realidades bem presentes. Quem quer ser amigo de Deus e viver com ele para sempre precisa de uma ajuda que não vem deste mundo.
O quadro-negro de Lutero
Existe uma história, talvez mais lenda que fato, sobre uma noite em que Lutero foi dormir aflito com os pecados. No sonho, viu um anjo diante de um quadro-negro, com o nome dele no alto. O anjo, de giz na mão, ia listando os pecados de Lutero, e a lista tomava o quadro inteiro. Lutero tremia de desespero. Era pecado demais para ser perdoado.
De repente, uma mão perfurada começou a escrever sobre a lista: “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1:7). Enquanto Lutero olhava, o sangue escorria daquela mão ferida e limpava o quadro inteiro.
A lição da ilustração é que Deus fez por nós o que a gente não conseguia fazer. Entregou o Filho obediente na cruz. Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5:21). Todas as nossas tentativas de empurrar Deus para fora da vida, as desculpas pra não passar tempo com ele na oração e na Palavra, a desobediência, as mágoas guardadas, a fofoca, as prioridades espirituais jogadas fora, o esforço de colocar o próprio eu como o grande amor da vida: tudo isso foi pregado na cruz. Cristo carregou desde o menor até o maior pecado e morreu para nos fazer santos.
Agora dá pra sentir o amor de Deus? Ele não diminuiu os mandamentos. Também não fez como um pai que diz “faça o que quiser, não me importo com o que acontece com você”, o que seria cruel. O nosso Deus mostrou o caminho da segurança e da felicidade e, quando o nosso orgulho e a nossa teimosia nos impediram de andar nele, mandou Jesus, que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14:6). Ele nos liberta da desobediência e nos liberta para ser como Cristo.
A lei como retrato do amor
Visto da cruz, o mandamento muda de cara. Para quem foi redimido pelo sangue de Cristo, ele deixa de ser só regra e vira orientação de como honrar a Deus e de como ser, para os outros, o que Jesus é. Paulo diz que o amor é o cumprimento da lei (Rm 13:10).
Pegue o “não matarás”. Lutero explica no Catecismo Menor, com outras palavras, que devemos temer e amar a Deus de modo a não machucar nem prejudicar o próximo no corpo, mas ajudá-lo e apoiá-lo em todas as suas necessidades. O mandamento vai muito além de evitar tirar a vida de alguém, coisa que a maioria de nós consegue sem esforço. Tem um lado ativo: amar, cuidar, ajudar, fazer amizade, ser generoso. Em resumo, ser um Cristo para essa pessoa e tratá-la como Jesus a trataria. Cada mandamento tem essa dimensão e mostra como o povo santo, amado e escolhido de Deus deve agir com quem está ao seu redor.
Se você tem um catecismo em casa, vale reler os Dez Mandamentos com as explicações de Lutero. Quem não tem pode procurar o Catecismo Menor de Lutero na internet. Você vai ver que não são apenas regras, mas um guia pra caminhar com amor a Deus e aos outros.
Como aplicar
Primeiro, reconhecer que os Dez Mandamentos expressam o amor de Deus por nós e mostram o que importa para ele. Segundo, procurar entender a intenção por trás de cada um. O “não matarás”, por exemplo, também fala de agir com cuidado e respeito pela dignidade de cada pessoa. Por fim, orar pedindo a Deus sabedoria e força para viver de acordo com os seus mandamentos e amor para tratar os outros com bondade.
Tomara que Deus nos dê sabedoria para honrá-lo como ele merece, e graça para ser tão generosos com os outros quanto ele é conosco.
Perguntas para reflexão
- Como você tem lido os Dez Mandamentos até hoje: como lista de proibições ou como expressão do amor de Deus? ¶
- Qual mandamento mais incomoda você quando lido como Jesus o leu, alcançando o coração e não só os atos? ¶
- Que lado ativo de um mandamento, amar, ajudar, cuidar, você pode praticar esta semana? ¶
Oração
Senhor Deus, agradecemos pelos teus mandamentos, que são expressão do teu amor por nós. Ajuda-nos a entender a verdadeira intenção por trás de cada um deles e dá-nos sabedoria e força para viver de acordo com eles. Ajuda-nos a amar e a respeitar os outros como tu nos amas. Em nome de Jesus, oramos. Amém.
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