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Sermões1 Reis

Reis de Judá: Roboão, Ezequias, Manassés e Josias

Quatro reis e o que os separava de Deus

Diego Gonçalves9 min de leitura1.780 palavras

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Neste texto

Imagina um ventilador bonito. Hélice grande, grade brilhando, base firme, tudo no lugar. Você aperta o botão e nada acontece. Aperta de novo, nada. Até que alguém olha atrás do móvel e vê o fio solto, fora da tomada. O ventilador continua com cara de ventilador. Só que, desligado, não faz o que ventilador faz.

A Bíblia tem reis assim. Sentados no trono, com coroa, exército e palácio, mas desligados da única fonte que sustenta um reino. E tem reis que, mesmo cheios de falhas, estavam ligados. A diferença entre eles não estava no tamanho do trono, mas em quem escutavam, no que faziam quando as coisas davam certo e em como voltavam quando se perdiam.

Depois de Salomão, o reino se partiu em dois. Judá, o reino do sul, ficou com Jerusalém, o templo e a linhagem de Davi. Entre os reis que vieram dali, quatro mostram bem os caminhos que a gente também pode tomar: Roboão, Ezequias, Manassés e Josias.

Roboão: o rei que ouviu quem queria ouvir

Roboão subiu ao trono com um pedido na mão. O povo foi a Siquém e disse que o jugo de Salomão tinha sido pesado e que, se ele aliviasse a carga, todo mundo o serviria (1Rs 12:4). O rei pediu três dias pra pensar, e até aí fez bem. O problema veio na hora de escolher quem aconselharia.

Primeiro ele ouviu os anciãos que tinham servido Salomão. O conselho foi simples:

“Se hoje você se tornar servo deste povo e servi-lo, dando-lhe uma resposta favorável, eles sempre serão seus servos.”

(1Rs 12:7, NVI)

Roboão não gostou. Foi então aos jovens com quem tinha crescido, que disseram o que um rei novo gosta de ouvir: que respondesse ao povo que o dedo mínimo dele era mais grosso que a cintura do pai e que, se o pai castigava com chicotes, ele castigaria com chicotes de escorpiões (1Rs 12:10-11). Dez tribos se foram atrás de Jeroboão, e o reino nunca mais voltou a ser um só.

Tem gente que decide assim. Antes de resolver, procura quem vai concordar. Pergunta a quem já sabe que vai dizer sim. Manda mensagem no grupo da família só pra receber o “faz isso mesmo” que já estava esperando. O conselho que a gente escolhe ouvir mostra o que a gente já tinha decidido.

Repare que, em toda a cena de Siquém, quem Roboão consultou foram pessoas. A Deus, nenhuma pergunta. Crônicas dá o diagnóstico do reinado inteiro: ele fez o mal porque não dispôs o coração para buscar o Senhor (2Cr 12:14). O livro de Provérbios diz que “os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros” (Pv 15:22). Conselheiros sábios, claro, e dispostos a dizer o que a gente não quer ouvir.

Ezequias: o rei que orou na crise e se perdeu na bonança

Ezequias é quase o rei perfeito. Filho de Acaz, um dos reis mais ímpios de Judá, cresceu numa casa que o empurrava pro lado errado e escolheu outro caminho.

“Ezequias confiava no Senhor, o Deus de Israel. Nunca houve ninguém como ele entre todos os reis de Judá… ele se apegou ao Senhor e não deixou de segui-lo…”

(2Rs 18:5-6, NVI)

Ele derrubou os altares idólatras e despedaçou até a serpente de bronze que Moisés havia feito (Nm 21:4-9), porque o povo tinha passado a queimar incenso a ela (2Rs 18:4). Até aquilo que Deus usou um dia virou ídolo quando o povo esqueceu pra que servia.

Quando Senaqueribe, rei da Assíria, cercou Jerusalém e mandou uma carta cheia de ameaças, Ezequias fez o que Roboão nunca fez. Pegou a carta, subiu ao templo e a estendeu diante do Senhor (2Rs 19:14). Orou pedindo livramento, pra que todos os reinos da terra soubessem que só o Senhor é Deus (2Rs 19:19). Naquela noite, o anjo do Senhor feriu 185 mil soldados assírios (2Rs 19:35).

Pouco depois Ezequias adoeceu, ouviu de Isaías que ia morrer, chorou diante de Deus, e Deus acrescentou quinze anos à vida dele (2Rs 20:1-6). Só que o rei que sabia orar na crise não soube lidar com a bonança. Quando chegaram embaixadores da Babilônia, ele mostrou tudo: o tesouro, as armas, os depósitos (2Rs 20:12-13). Isaías avisou que aquilo tudo seria levado pra Babilônia, e Ezequias respondeu que, pelo menos, haveria paz e segurança nos dias dele (2Rs 20:17-19). Crônicas explica o que se passava por dentro:

“…o coração de Ezequias se tornou orgulhoso, e ele não correspondeu à bondade com que foi tratado; por isso a ira do Senhor veio sobre ele, e sobre Judá e Jerusalém.”

(2Cr 32:25, NVI)

E tem um detalhe que dói. Manassés tinha doze anos quando o pai morreu (2Rs 21:1), e Ezequias reinou vinte e nove anos (2Rs 18:2). As contas fecham: o filho que viria a ser o pior rei de Judá nasceu justamente nos anos extras que Deus deu de presente.

Tem gente que ora com a carta na mão e esquece quando a carta é rasgada. Tem gente que promete tudo no hospital e esquece no dia da alta. Tem gente que clama por um emprego e, quando consegue, não sobra tempo pra Deus. A gente também. Crise obriga a orar. Continuar orando depois que a crise passa já depende do coração, e o coração precisa de cuidado justamente quando tudo vai bem.

Manassés: o pior rei e a porta que ficou aberta

Manassés assumiu o trono com doze anos e reinou cinquenta e cinco, mais que qualquer outro rei de Judá (2Rs 21:1). Reconstruiu os altares que o pai tinha derrubado, ergueu altares a astros nos átrios do templo, queimou o próprio filho em sacrifício, tratou com adivinhos e médiuns e derramou tanto sangue inocente que encheu Jerusalém de um canto a outro (2Rs 21:3-6, 16). A Bíblia diz que ele levou o povo a fazer pior que as nações que Deus tinha expulsado da terra (2Rs 21:9). Uma tradição antiga, que a Bíblia não conta, diz que foi nesse reinado que o profeta Isaías morreu serrado ao meio.

Aí vieram os assírios.

“…puseram um gancho em seu nariz, prenderam-no com algemas de bronze e o levaram para a Babilônia.”

(2Cr 33:11, NVI)

Deus alcança algumas pessoas com um sussurro. Com outras usa uma marreta. No fundo do poço, preso e humilhado, o rei que tinha feito de tudo para afastar Deus fez a única coisa que faltava:

“Em seu sofrimento, ele buscou o favor do Senhor, o seu Deus, e humilhou-se muito diante do Deus dos seus antepassados. E, quando orou, o Senhor o ouviu e atendeu à sua súplica; e assim o trouxe de volta a Jerusalém e a seu reino. Então Manassés reconheceu que o Senhor é Deus.”

(2Cr 33:12-13, NVI)

De volta a Jerusalém, ele reconstruiu os muros, tirou os deuses estrangeiros do templo e restaurou o altar do Senhor (2Cr 33:14-16). Se há esperança pra Manassés, há pra qualquer um. Paulo se chamou o pior dos pecadores e mesmo assim recebeu misericórdia (1Tm 1:15-16). Não importa o que você fez, nem por quanto tempo. Quem se humilha e volta encontra um Pai com a porta aberta.

Só que o perdão não apaga todas as consequências. O filho de Manassés, Amom, voltou aos ídolos do tempo ruim do pai e acabou assassinado pelos próprios servos (2Cr 33:21-24). E, muitos anos depois, o profeta Jeremias ainda apontaria o que Manassés tinha feito como uma das razões da desgraça que viria sobre Judá (Jr 15:4). Deus perdoa de verdade. Mas a gente colhe o que plantou nos anos em que estava longe, e às vezes quem colhe são os filhos.

Josias: o neto que não repetiu a história

Agora imagina nascer nessa família. O pai, Amom, foi assassinado quando Josias ainda era menino. O avô, Manassés, passou a vida espalhando idolatria por todo o reino. Josias tinha oito anos quando virou rei (2Rs 22:1). Tudo ao redor dele puxava pro lado errado.

“No oitavo ano de seu reinado, sendo ainda bem jovem, ele começou a buscar o Deus de seu antepassado Davi.”

(2Cr 34:3, NVI)

Foi aos dezesseis anos, mais ou menos, que ele decidiu conhecer Deus de verdade. Aos vinte, limpou Judá e Jerusalém dos altares e dos ídolos (2Cr 34:3). Quando mandou reformar o templo, os trabalhadores acharam o Livro da Lei esquecido num canto, e alguém leu em voz alta diante do rei (2Rs 22:8-10). Josias rasgou as vestes (2Rs 22:11). Ouviu a Palavra e viu quanto o povo tinha se afastado. Depois reuniu todo mundo, leu o livro inteiro pra todos e renovou a aliança com o Senhor (2Rs 23:1-3). Restaurou a adoração e celebrou uma Páscoa como não se via desde os dias dos juízes (2Rs 23:21-22).

Josias não esperou ser perfeito pra começar. Ele buscou a Deus cedo. Ele tirou o que era mau de dentro de casa. Ele deixou a Palavra mexer com ele antes de querer que mexesse com os outros. E o texto diz que antes dele não houve rei que se voltasse para o Senhor de todo o coração, de toda a alma e com todas as forças, conforme a Lei de Moisés (2Rs 23:25).

Terminar bem não quer dizer terminar fácil. Josias morreu cedo, aos trinta e nove anos, em batalha contra o faraó Neco, em Megido (2Rs 23:29-30). Mas ele chegou ao fim ligado à tomada, e isso a morte não desfaz.

Qual desses reis mora na gente

Quatro reis, quatro jeitos de lidar com o trono, e nenhum deles muito distante da gente. Roboão escutou só quem concordava e nunca perguntou a Deus. Ezequias orou na crise e se encheu de orgulho na vitória. Manassés se afastou o quanto pôde e foi achado na prisão. Josias, com todas as razões pra repetir a família, buscou o Senhor cedo e foi até o fim.

O que separava os bons dos maus nunca foi talento, nem herança, nem fama. Foi intimidade com Deus. A Bíblia mede esses reis por uma pergunta só: fez o que era reto aos olhos do Senhor, ou fez o que era mau? Deus vê quem a gente é, e isso vale pra rei de Judá e pra gente que tá lendo isto na hora do almoço.

Só que há um problema que nenhum deles resolveu. Mesmo os melhores falharam. Ezequias tropeçou no orgulho, Josias morreu cedo, e a lista dos reis de Judá termina em exílio. Ninguém ali foi bom o bastante. Todos nós quebramos o padrão de Deus. Por isso a história de Judá aponta pra frente, pra um Rei da linhagem de Davi que começa bem, termina bem e nunca desliga da tomada: Jesus. Só ele reinou sem falhar.

Tomara que a gente deixe de procurar um bom rei no espelho e entregue o trono da vida ao único que sabe reinar. E tomara que, depois de entregar, a gente continue ligado.