
O medo de ser conhecido de verdade: Graça e identidade
Gênesis 3 lido com Agostinho: quem se esconde de Deus só tira Deus da própria vista
Toda criança pequena, na primeira brincadeira de esconde-esconde, faz a mesma coisa: fica no meio da sala, tampa os olhos com as mãos e anuncia que está escondida. Ela acredita de verdade que, se não vê ninguém, ninguém a vê. Os adultos riem, porque o corpo inteiro está ali, à vista de todos. A única coisa que sumiu foi a sala, para ela.
Confesso que passei boa parte da vida cristã brincando assim com Deus. Com as palavras certas, com a agenda cheia de serviço, com os pecados pequenos confessados para os grandes ficarem quietos. Tampava os olhos e achava que estava escondido.
“Tive medo, porque estava nu”
A Escritura registra o primeiro esconde-esconde da história logo depois da queda:
“E ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim à brisa do dia; e o homem e sua mulher esconderam-se da presença do SENHOR Deus entre as árvores do jardim. E o SENHOR Deus chamou ao homem, e lhe disse: ‘Onde estás?’ E ele respondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estava nu; e me escondi’.”
(Gênesis 3:8-10, Bíblia Livre)
Adão junta numa frase só as três palavras que ainda governam muita vida religiosa: medo, nudez e esconderijo. E Deus responde com uma pergunta. Ele não perguntou “onde estás?” porque estivesse perdido no jardim. Perguntou para que Adão ouvisse a si mesmo respondendo de trás das árvores, e para que a conversa interrompida pelo pecado recomeçasse.
O esconderijo ao contrário
Quase quatro séculos depois de Cristo, um bispo do norte da África escreveu o livro mais honesto da Igreja antiga. Agostinho de Hipona chamou suas memórias de Confissões, e não as escreveu para os leitores, mas para Deus, com os leitores ouvindo. No livro décimo, já maduro na fé, ele para diante do mesmo esconderijo de Adão e percebe o absurdo da fuga:
“Diante de ti, Senhor, a cujos olhos está nu o abismo da consciência humana, o que poderia haver de oculto em mim, ainda que eu não quisesse confessar-te? Eu esconderia a ti de mim, não a mim de ti.”
(Agostinho, Confissões, livro X, capítulo 2, tradução minha do latim)
“Eu esconderia a ti de mim, não a mim de ti.” É a criança com as mãos nos olhos. Quando me escondo, não tiro nada do olhar de Deus; só tiro Deus do meu campo de visão. As folhas de figueira nunca cobriram Adão diante do Senhor. Cobriram o Senhor diante de Adão.
O salmista já sabia disso: “SENHOR, tu me examinas e me conheces. Tu sabes o meu sentar e o meu caminhar; de longe entendes meus pensamentos” (Salmos 139:1-2, Bíblia Livre). O medo de ser conhecido, então, chega tarde. Já fui conhecido. A pergunta que resta é se vou continuar fugindo de quem já me vê inteiro.
Confessar o que não sei de mim
O que mais me consola em Agostinho é que ele não exige de si mesmo um autoconhecimento completo antes de voltar para Deus. Ele escreve: “Confesse eu, pois, o que sei de mim; confesse também o que de mim não sei, porque o que sei de mim, sei porque tu me iluminas, e o que de mim não sei, não o saberei enquanto as minhas trevas não se tornarem como o meio-dia diante da tua face” (Agostinho, Confissões, livro X, capítulo 5, tradução minha do latim).
Isso desmonta uma armadilha comum. Muitos de nós achamos que precisamos primeiro organizar a alma, entender cada ferida e cada motivo, para só depois nos apresentar a Deus. Agostinho faz o caminho contrário: apresenta-se com o que sabe e com o que não sabe, e deixa que a luz de Deus revele o resto aos poucos. É o que João promete: “Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:8-9, Bíblia Livre).
A confissão, nesse sentido, não é um inventário perfeito que eu entrego para ser aprovado, mas o gesto de tirar as mãos dos olhos.
“Estavas comigo, e eu não estava contigo”
Há outra frase das Confissões que descreve o esconderijo por dentro. Agostinho procurou Deus em todo lugar, menos onde ele estava:
“Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu fora; e lá fora te procurava. […] Estavas comigo, e eu não estava contigo.”
(Agostinho, Confissões, livro X, capítulo 27, tradução minha do latim)
“Estavas comigo, e eu não estava contigo.” Esse é o retrato de quem vive de aparência. Deus está presente, e eu estou ausente de mim mesmo, ocupado em administrar a imagem que os outros têm de mim. O próprio Agostinho conta, no mesmo trecho, como o esconderijo foi quebrado: Deus chamou, clamou e rompeu a sua surdez. A iniciativa foi de Deus do começo ao fim. É o que a tradição wesleyana chama de graça preveniente, a graça que vem antes, desperta e capacita a alma a responder, mesmo quando ela ainda está atrás das árvores.
A roupa que só Deus costura
O capítulo 3 de Gênesis não termina com Adão escondido. Antes de o casal sair do Éden, o texto diz: “E o SENHOR Deus fez ao homem e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (Gênesis 3:21, Bíblia Livre).
As folhas de figueira eram o esforço humano de cobrir a vergonha, e não deram conta. As túnicas foram feitas pelas mãos de Deus. Muitos intérpretes, desde a Igreja antiga, viram ali uma sombra do evangelho: para que o homem fosse coberto, algo teve de morrer no lugar dele. A cruz é o cumprimento dessa sombra, porque “Deus prova o seu amor por nós através de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5:8, Bíblia Livre). Cristo não esperou que eu saísse do esconderijo bem vestido; ele desceu ao jardim e trouxe a roupa.
Por isso a identidade cristã não nasce do que consigo esconder nem do que consigo mostrar, mas do que Deus fez por mim enquanto eu ainda fugia. Paulo chama isso de revestir-se de Cristo (Gálatas 3:27). Quem foi vestido por Deus já não precisa costurar folhas.
Volto à criança da sala. Em algum momento, o pai se abaixa, segura com carinho as mãos dela e as tira do rosto. Ela descobre que estava à vista o tempo todo, e que o pai continuava ali, sorrindo. Não houve castigo pela brincadeira, houve encontro. Acho que é isso que Deus faz conosco quando pergunta “onde estás?”.
Senhor, tu me examinas e me conheces, e nada em mim está oculto aos teus olhos. Perdoa-me por todas as vezes em que tampei os olhos e chamei isso de piedade. Tira as minhas mãos do rosto com a mesma ternura com que procuraste Adão no jardim. Confesso o que sei de mim e também o que ainda não sei; ilumina as minhas trevas até que se tornem como o meio-dia diante da tua face. Veste-me com a justiça de Cristo, que eu não consigo costurar, e ensina-me a viver como quem já foi encontrado. Amém.
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