
Cotton Mather e a primeira vacina na América: Fé e ciência
Fé, ciência e epidemias: A história improvável da primeira vacina na América
Existe um clichê muito repetido hoje: a fé cristã e a ciência sempre foram inimigas mortais. Quem nunca ouviu que a religião é puro obscurantismo medieval, enquanto a medicina e a pesquisa científica sempre avançaram apesar da igreja?
Só que a história real tem o péssimo hábito de desmentir os nossos preconceitos modernos.
Em 1721, quando uma epidemia devastadora de varíola atingiu Boston, nos Estados Unidos, quem liderou a primeira grande campanha médica de imunização pública nas Américas não foi nenhum médico iluminista ateu. Foi um dos pastores puritanos mais devotos e conhecidos da Nova Inglaterra: Cotton Mather.
E a história é ainda mais surpreendente, porque envolveu um pastor fervoroso, um africano escravizado e uma granada atirada pela janela de uma casa pastoral.
O terror invisível que matava um em cada seis
Para quem vive hoje num mundo com saneamento básico e antibióticos na farmácia da esquina, é difícil imaginar o terror que uma epidemia causava trezentos anos atrás. A varíola era uma doença horrível: o corpo se cobria de pústulas dolorosas da cabeça aos pés, a febre queimava as entranhas e a mortalidade era altíssima. Em Boston, uma a cada seis pessoas infectadas morria, e as que sobreviviam ficavam cegas ou com o rosto marcado para sempre por cicatrizes profundas.
Em abril de 1721, um navio vindo do Caribe aportou na cidade trazendo a doença. O pânico tomou conta das ruas. As lojas fecharam, os cemitérios ficaram lotados e as famílias ricas fugiram para o campo.
Foi então que Cotton Mather se lembrou de uma conversa que tivera anos antes com Onesimus, um homem negro escravizado que servia em sua casa.
Mather tinha reparado numa cicatriz redonda no braço de Onesimus e perguntado o que era aquilo. Onesimus explicou com naturalidade que, na sua terra natal, na África Ocidental, as pessoas praticavam um costume antigo: quando alguém pegava uma forma leve de varíola, retiravam uma gota do pus da ferida e aplicavam numa pequena incisão na pele de uma pessoa saudável. A pessoa passava uns dias com febre baixa, o corpo criava resistência e ela normalmente não pegava mais a doença mortal.
Era a técnica da variolação, a ancestral direta da vacina moderna.
A guerra contra o fanatismo
Impressionado com o conhecimento de Onesimus, Mather pesquisou relatórios da Sociedade Real de Londres que confirmavam que a mesma prática era usada com sucesso no Império Otomano. Diante do desespero em Boston, o pastor sentiu o peso do mandamento do amor ao próximo, que Jesus põe ao lado do amor a Deus como resumo da Lei (Mateus 22:37-39): se existia uma forma de salvar vidas, cruzar os braços seria cumplicidade com a morte.
Mather procurou os médicos de Boston pedindo que testassem a inoculação. Quase todos recusaram com desprezo, rindo da ideia de “aprender medicina com um africano”.
Apenas um médico aceitou o desafio: o dr. Zabdiel Boylston. Ele começou inoculando o próprio filho de seis anos e dois escravizados da casa. Todos tiveram sintomas leves e se recuperaram em poucos dias.
Mas a reação da população e da imprensa local foi histérica.
Médicos rivais e políticos conservadores começaram a espalhar boatos furiosos, dizendo que Mather e Boylston estavam envenenando a cidade. Pior ainda: muitos religiosos diziam que a varíola era um castigo enviado diretamente por Deus para punir os pecados de Boston, e que tentar preveni-la com a ciência humana era rebelião contra a providência divina.
A perseguição ficou tão violenta que, na madrugada de 14 de novembro de 1721, alguém jogou uma granada acesa pela janela do quarto de Cotton Mather. A granada caiu no chão, mas o pavio falhou e ela não explodiu. Amarrada ao artefato havia uma mensagem de ódio: “Cotton Mather, seu cão danado, vou te inocular com isto aqui!”.
Os números que calaram a histeria
Mather não recuou. Continuou orando, pastoreando as famílias enlutadas e defendendo Boylston.
Ao final da epidemia, os números falaram mais alto do que qualquer grito da multidão: entre os quase seis mil moradores de Boston que pegaram varíola naturalmente, quase novecentos morreram, uma taxa de quase 15%. Entre as quase trezentas pessoas que receberam a inoculação promovida pelo pastor e pelo médico, apenas seis faleceram, uma taxa de menos de 2%.
A coragem de um pastor puritano que ouviu com humildade o relato de um servo africano salvou muitas famílias da morte e abriu caminho para que, décadas mais tarde, Edward Jenner desenvolvesse a vacina moderna contra a varíola, doença que acabou erradicada do planeta.
O evangelho que cuida do ser humano inteiro
A postura de Cotton Mather se aproxima da de outros gigantes da fé, como o missionário metodista E. Stanley Jones, no século vinte, na Índia.
Jones passou décadas pregando o evangelho entre hindus e muçulmanos e tornou-se amigo de Mahatma Gandhi. Aprendeu a despir a mensagem de Jesus da arrogância imperialista ocidental, mostrando que o evangelho não veio para anular a ciência, a cultura sadia e o cuidado com a dor humana, mas para anunciar a salvação em Cristo e, com ela, a restauração de todas as coisas (Colossenses 1:19-20).
A fé bíblica genuína nunca teve medo da verdade e nunca foi inimiga da pesquisa honesta.
Quem crê que Deus é o Criador do universo sabe que toda lei natural descoberta pela medicina e pela ciência reflete a sabedoria do próprio Deus, que a sua graça comum derrama sobre bons e maus (Mateus 5:45). Quando o conhecimento técnico se alia ao amor sacrificial ao próximo, a graça de Deus se faz visível no mundo do jeito mais prático e curador possível.
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