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A primeira Bíblia impressa na América: A de John Eliot

A primeira Bíblia impressa na América não era em inglês: Histórias que você nunca ouviu

Diego Gonçalves5 min de leitura1.020 palavras

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Se você perguntar para qualquer estudante de história qual foi a primeira Bíblia impressa no continente americano, a resposta quase unânime será: “Foi a Bíblia em inglês trazida pelos peregrinos do navio Mayflower”.

Faz sentido pensar assim, mas a história real é mais curiosa e cheia de reviravoltas. A primeira Bíblia completa impressa na América do Norte não tinha uma única palavra em inglês. Foi impressa em 1663 na língua indígena Massachusett, falada pelos povos nativos da região de Boston.

Desenho de John Eliot pregando aos indígenas da Nova Inglaterra, em meio à floresta
F. O. C. Darley, John Eliot pregando aos indígenas, século XIX. Metropolitan Museum of Art, Nova York. CC0, via Wikimedia Commons.

Por trás desse fato existe uma teia de monopólios britânicos, guerras de independência e missionários que aprenderam línguas nativas ao redor das fogueiras.

Aqui estão algumas das histórias mais surpreendentes sobre como o Livro Sagrado moldou a América.

1. O crime de imprimir a Bíblia em inglês

Durante todo o período colonial, os colonos americanos simplesmente não tinham autorização legal para imprimir a Bíblia na própria língua inglesa. A Coroa Britânica mantinha um monopólio real férreo sobre a impressão da Bíblia King James: apenas as gráficas autorizadas de Oxford, Cambridge e a gráfica oficial do Rei em Londres tinham a patente para rodar as Escrituras em inglês. Qualquer colono que tentasse imprimir uma Bíblia inglesa na América seria multado pesadamente e teria sua prensa confiscada pela polícia do rei.

Por causa disso, os puritanos americanos precisavam importar todos os seus exemplares em navios que cruzavam o Atlântico.

Mas a lei britânica tinha uma brecha involuntária: o monopólio da Coroa cobria apenas o idioma inglês. Se alguém quisesse imprimir a Bíblia em alemão, latim ou em dialetos indígenas locais, a Coroa não proibia.

Foi assim que um pastor puritano chamado John Eliot passou anos aprendendo a gramática complexa da família linguística algonquina. Com a ajuda de nativos que haviam aprendido inglês, ele traduziu a Bíblia inteira para a língua dos indígenas de Massachusetts. Em 1663, na prensa ligada à Universidade de Harvard, em Cambridge, saía a primeira Bíblia impressa no Novo Mundo: a famosa Bíblia Indígena de Eliot. A convicção por trás do esforço era a dos reformadores: a Escritura (sola Scriptura) precisa chegar a cada povo na própria língua, para que ouça o Evangelho de Cristo e creia.

2. A Bíblia que nasceu da pólvora e da guerra

Os colonos americanos só conseguiram imprimir a primeira Bíblia completa em inglês mais de cem anos depois, em 1782. O motivo foi a Guerra de Independência Americana contra a Inglaterra.

Com o início dos combates em 1775, a frota naval britânica montou um bloqueio total aos portos dos Estados Unidos. De repente, os livros pararam de chegar da Europa. As igrejas começaram a ficar sem Bíblias para os cultos e os capelães militares não tinham exemplares para entregar aos soldados do exército do general George Washington.

Vendo o desespero nacional, um impressor de Filadélfia chamado Robert Aitken decidiu arriscar o próprio patrimônio. Ele imprimiu, em formato pequeno, a primeira Bíblia completa em inglês das Américas.

O Congresso Continental dos Estados Unidos chegou a aprovar uma resolução elogiando o trabalho de Aitken e recomendando a edição a todos os cidadãos como um símbolo da liberdade recém-conquistada. A edição ficou conhecida como a “Bíblia da Revolução”.

3. Cidades que parecem um mapa do Antigo Testamento

Basta abrir o mapa dos Estados Unidos para perceber que os primeiros colonos tinham a imaginação mergulhada nas histórias bíblicas. Ao fundar uma vila, muitas vezes escolhiam nomes de cidades da Bíblia.

Existem mais de trinta cidades americanas chamadas Salem (nome de Jerusalém em Salmos 76:2), dezenas de cidades chamadas Belém (a mais famosa fica na Pensilvânia, onde mais tarde floresceu a indústria do aço), além de vilarejos com nomes como Canaã, Hebrom, Siló, Gileade, Jericó e Betel.

Muitos pioneiros viam a travessia e a conquista da terra como uma repetição da marcha de Israel rumo à Terra Prometida. Essa leitura é discutível: a promessa da terra pertence a Israel, e a Igreja imita a fé daquele povo.

4. A Bíblia no topo das paradas de sucesso

A influência da Bíblia na cultura americana alcançou a literatura, o cinema e até a música popular.

Em 1880, o general Lew Wallace publicou o romance Ben-Hur: Uma História de Cristo, que se tornou um dos romances mais vendidos do século dezenove nos Estados Unidos e mais tarde virou um dos filmes mais premiados da história de Hollywood.

E, na década de 1960, no auge do movimento hippie e dos protestos contra a Guerra do Vietnã, a banda de rock The Byrds lançou a canção Turn! Turn! Turn!, que alcançou o primeiro lugar na parada da Billboard americana. O detalhe impressionante: quase toda a letra da música vem do capítulo 3 do livro de Eclesiastes, que diz:

“Para todas as coisas há um tempo determinado, e todo propósito abaixo do céu tem seu tempo. Tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que foi plantado.”

(Eclesiastes 3:1-2, Bíblia Livre)

Milhões de jovens cantavam versículos bíblicos no rádio sem perceber que entoavam as palavras do Pregador, tradicionalmente atribuídas ao rei Salomão, escritas quase três mil anos antes.

A caminhada da Bíblia na América nos lembra que o Livro Sagrado nunca foi apenas um objeto para ficar guardado em prateleiras de igrejas. Quando as Escrituras chegam ao coração de uma cultura, elas moldam a linguagem, influenciam as leis, inspiram a arte e deixam marcas profundas na história. Acima de tudo, a Palavra aponta para Cristo e chama cada pessoa ao arrependimento e à fé.

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