Estudos arminianos
Perguntas difíceis sobre o arminianismo
Respostas curtas, com a Bíblia e as fontes, às objeções mais comuns: semipelagianismo, depravação total, mérito, predestinação, presciência, expiação, perseverança e soberania.
1. O arminianismo é semipelagiano?
Não. O semipelagianismo ensina que o ser humano caído, por conta própria, consegue dar o primeiro passo em direção a Deus, e que a graça vem depois, como ajuda a quem já começou. O Concílio de Orange (529) condenou essa ideia, afirmando que até o começo da fé é dom da graça.
Armínio e os remonstrantes estão do lado de Orange. O terceiro artigo da Remonstrância (1610) diz que o homem não tem a graça salvadora "de si mesmo, nem pela força do seu livre-arbítrio", e não pode pensar, querer ou fazer nada de verdadeiramente bom. Quando acusaram Armínio de semipelagiano, ele respondeu que a graça não pode ser excluída do começo da conversão, porque ela vem sempre antes, acompanha e segue. Para ele, no começo da conversão o ser humano é "puramente passivo".
A diferença entre o arminianismo e o calvinismo está em outro ponto: se a graça que vem antes pode ser recusada. Os dois concordam que ela vem antes de tudo.
Fontes
- Concílio de Orange (529), cânones 5 a 7.
- Remonstrância (1610), art. 3.
- Jacó Armínio, Apologia contra 31 artigos (1609), art. XVII; Artigos a serem examinados com diligência, art. XVII.
- Roger E. Olson, Teologia arminiana: mitos e realidades (Reflexão, 2013).
2. O arminiano crê na depravação total?
Crê, e com muita força. Armínio escreveu que, no estado de queda, o livre-arbítrio do homem para o verdadeiro bem "não está só ferido, mutilado, enfermo, torto e enfraquecido, mas também aprisionado, destruído e perdido". Na Declaração de Sentimentos, ele diz que o homem caído não é capaz, "por si mesmo e de si mesmo", de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom, e precisa ser regenerado e renovado por Deus em Cristo, pelo Espírito Santo.
John Wesley chegou a dizer que ninguém, "nem o próprio João Calvino", afirmou o pecado original com mais força do que Armínio. E as atas da conferência metodista de 1745 dizem que os metodistas chegam "até a beira do calvinismo" ao atribuir todo bem à livre graça de Deus, negar todo livre-arbítrio natural e todo poder anterior à graça, e excluir todo mérito humano. Paulo resume: "todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23).
Fontes
- Jacó Armínio, Disputas públicas XI; Declaração de Sentimentos (1608), "O livre-arbítrio do homem".
- John Wesley, The Question, "What is an Arminian?" Answered (1770).
- Minutes of Some Late Conversations, conferência metodista de 1745.
- Leia também A Doutrina da Depravação Total.
3. Se a graça pode ser recusada, a salvação não acaba dependendo de mim?
Armínio respondeu a essa objeção com uma imagem. Um homem rico dá esmola a um mendigo faminto. A esmola deixa de ser presente porque o mendigo estende a mão para receber? Ninguém diria que ela dependeu em parte da generosidade do doador e em parte do mendigo. E Armínio completa: se isso não se diz de um mendigo, muito menos se dirá do dom da fé, "para cuja recepção são necessários muito mais atos da graça divina".
Ou seja, receber não é merecer. E, no caso da fé, até a mão estendida é graça, porque foi a graça preveniente que libertou a vontade. Paulo diz: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não por obras, para que ninguém tenha orgulho de si mesmo" (Efésios 2:8-9). Quem recusa a graça é responsável pela recusa. Quem a recebe não tem do que se gloriar: "E o que tens tu, que não tenhas recebido?" (1 Coríntios 4:7).
Fontes
- Jacó Armínio, Apologia contra 31 artigos (1609), art. XXVII.
- Keith D. Stanglin, Arminius on the Assurance of Salvation (Brill, 2007), sobre o uso da imagem por outros reformadores.
- Leia também A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo.
4. O que é a graça preveniente, e onde ela está na Bíblia?
Graça preveniente quer dizer graça que vem antes (do latim praevenire, "chegar antes"). É a obra do Espírito Santo que vem antes de qualquer resposta humana: ilumina a mente, convence do pecado, liberta a vontade e torna possível crer. Ela é sobrenatural, dada depois da queda por causa de Cristo, e não uma capacidade natural que ficou intacta em nós. E ela pode ser resistida.
Armínio se apoiava sobretudo em dois textos. Jesus diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:44). E Lucas conta que o Senhor abriu o coração de Lídia "para que prestasse atenção ao que Paulo dizia" (Atos 16:14). Outros textos mostram o alcance dessa graça: Cristo é "a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo" (João 1:9), e "a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens" (Tito 2:11). Que ela pode ser recusada, Estêvão diz aos líderes de Jerusalém: "Vós sempre resistis ao Espírito Santo!" (Atos 7:51).
Fontes
- Jacó Armínio, Apologia contra 31 artigos (1609), arts. VIII e XVI; Disputas privadas LXX.
- Abner F. Hernández, The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius (tese, Andrews University, 2017).
- John Wesley, sermão 85, Sobre operar a nossa própria salvação (1785).
- Leia também A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo.
5. Os arminianos creem na predestinação?
Creem, porque a Bíblia fala dela: "Pois aos que desde antes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho" (Romanos 8:29). O que o arminianismo nega é a predestinação incondicional.
Na Declaração de Sentimentos, Armínio expôs quatro decretos de Deus. O primeiro foi designar Jesus Cristo como Mediador e Salvador. O segundo, receber em seu favor os que se arrependem e creem, e salvar os que perseveram. O terceiro, dar os meios suficientes e eficazes para o arrependimento e a fé. O quarto, salvar e condenar pessoas determinadas, com base na presciência pela qual Deus sabia quem, pela graça preveniente, creria e, pela graça subsequente, perseveraria.
A eleição, portanto, é em Cristo: "nos escolheu nele antes da fundação do mundo" (Efésios 1:4). Os eleitos são escolhidos "segundo o pré-conhecimento de Deus Pai" (1 Pedro 1:2). A fé prevista é a condição que recebe, e não o mérito que causa a eleição. Alguns arminianos leem a eleição sobretudo como escolha de um povo em Cristo (eleição corporativa), e essa leitura também cabe no arminianismo clássico.
Fontes
- Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos (1608), "Minha própria opinião sobre a predestinação".
- Remonstrância (1610), art. 1.
- Robert E. Picirilli, Grace, Faith, Free Will (Randall House, 2002); Brian J. Abasciano, sobre a eleição corporativa em Romanos 9.
- Leia também Presciência, Eleição e Predestinação.
6. Se Deus conhece o futuro, ele já está fixo? O arminianismo é o mesmo que o teísmo aberto?
O arminianismo clássico afirma que Deus conhece de modo completo e infalível tudo o que vai acontecer, inclusive as escolhas livres das pessoas. O chamado teísmo aberto, que diz que Deus não conhece com certeza as decisões futuras, é outra coisa, e o arminianismo clássico o rejeita.
Saber não é causar. Wesley explicava que o conhecimento de Deus não faz as coisas acontecerem. Deus sabe que algo vai acontecer porque vai acontecer, e não o contrário. Armínio distinguia na mente de Deus o conhecimento do que poderia ser, o conhecimento do que seria em cada circunstância (o que se chama conhecimento médio) e o conhecimento do que será. Os estudiosos discutem quanto Armínio dependia do jesuíta Luis de Molina nessa distinção, mas todos concordam que ele afirmava uma presciência completa.
Por isso a eleição pode ser condicional sem ser incerta: Deus conheceu "desde antes" (Romanos 8:29) quem haveria de crer.
Fontes
- Jacó Armínio, Disputas públicas IV, "Da natureza de Deus".
- John Wesley, sermão 58, Sobre a predestinação (1773).
- Hernández (2017), cap. 4, sobre o conhecimento médio em Armínio; Kirk R. MacGregor, A Molinist-Anabaptist Systematic Theology (2007).
7. Por quem Cristo morreu? A cruz, no arminianismo, é substituição?
Cristo morreu por todos. O segundo artigo da Remonstrância diz que ele "morreu por todos e por cada um dos homens", mas que só os que creem participam do perdão. João escreve: "E ele é o sacrifício para perdão dos nossos pecados; e não somente dos nossos, mas também dos de todo o mundo" (1 João 2:2).
E a cruz é substituição. Cristo levou no lugar do pecador o castigo que o pecado merece: "o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados" (Isaías 53:5). Armínio tratou a obra sacerdotal de Cristo como satisfação à justiça de Deus, e Wesley pregou a justiça de Cristo imputada a quem crê, em O Senhor, justiça nossa. Paulo diz que Deus fez "aquele que não conheceu pecado se tornasse pecado por nós; para que nós nele fôssemos feitos justiça de Deus" (2 Coríntios 5:21).
Alguns arminianos posteriores, a partir de Hugo Grócio (1617), preferiram a chamada teoria governamental, que vê a cruz sobretudo como demonstração da justiça de Deus no governo moral do mundo. Ela faz parte da história do arminianismo, mas este site sustenta a substituição penal, como Armínio e Wesley.
Fontes
- Remonstrância (1610), art. 2.
- Jacó Armínio, Disputas públicas XIV, sobre os ofícios de Cristo; Exame do panfleto de Perkins.
- John Wesley, sermão 20, O Senhor, justiça nossa (1765).
- Hugo Grócio, Defensio fidei catholicae de satisfactione Christi (1617).
- Leia também Arminianismo: Expiação para Todos.
8. Se Deus quer salvar todos, então todos serão salvos?
Não. Deus de fato "quer que todas as pessoas se salvem e venham ao conhecimento da verdade" (1 Timóteo 2:4) e não quer "que alguns pereçam, mas sim que todos venham ao arrependimento" (2 Pedro 3:9). Ele diz pelo profeta: "não tenho prazer na morte do perverso, mas sim em que o perverso se converta de seu caminho, e viva" (Ezequiel 33:11).
Mas Deus não salva ninguém à força. Jesus chorou sobre Jerusalém: "Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!" (Mateus 23:37). O desejo de Deus é real, a oferta é real, e a recusa também é real. Por isso o arminianismo une duas coisas que outros separam: o amor universal de Deus e a realidade da condenação dos que rejeitam a graça. Jesus falou dos que "irão ao tormento eterno" (Mateus 25:46). A Remonstrância diz o mesmo: ninguém participa do perdão sem crer.
Fontes
- Remonstrância (1610), arts. 1 e 2.
- Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos (1608), segundo decreto.
- Declaração de fé deste site, na página Sobre.
9. Um crente pode perder a salvação? E então, não há certeza?
O arminianismo clássico ensina que a fé salvadora pode ser abandonada. A Remonstrância (1610) deixou essa questão em aberto, mas os remonstrantes a afirmaram em Dort, em 1618, e Wesley a defendeu em 1751. A Bíblia adverte: "Se alguém não estiver em mim, é lançado fora, como o ramo, e seca-se" (João 15:6). E Paulo escreve aos gálatas: "da graça caístes" (Gálatas 5:4). Essa queda não acontece por um pecado qualquer, mas quando a pessoa abandona a fé em Cristo.
Isso não tira a certeza. Cristo guarda os que estão nele, e ninguém os arranca da mão dele (João 10:28). E o Espírito dá certeza no presente: "O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus" (Romanos 8:16). Wesley chamou isso de testemunho do Espírito. A segurança do crente está em Cristo, e o chamado é para permanecer nele: "se, de fato, permaneceis fundados e firmes na fé" (Colossenses 1:23).
Fontes
- Remonstrância (1610), art. 5; Sententia Remonstrantium (1618), art. 5.
- John Wesley, Serious Thoughts upon the Perseverance of the Saints (1751); sermões 10 e 11, O testemunho do Espírito.
- Leia também Arminianismo: A Segurança da Salvação.
10. O arminianismo diminui a soberania de Deus?
Não. Na Declaração de Sentimentos, Armínio declara que a providência de Deus "preserva, regula, governa e dirige todas as coisas, e que nada no mundo acontece fortuitamente ou por acaso". Wesley pregava uma providência particular, que alcança cada pessoa e cada detalhe, como os pardais e os cabelos da cabeça (Mateus 10:29-30).
A questão é como Deus exerce a soberania na salvação. Para o arminianismo, Deus decidiu soberanamente salvar pela fé em Cristo e dar ao ser humano, pela graça, uma liberdade real de responder. Um rei que escolhe convidar em vez de forçar não deixa de ser rei. Paulo junta as duas coisas: "exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir" (Filipenses 2:12-13).
Fontes
- Jacó Armínio, Declaração de Sentimentos (1608), "A providência de Deus".
- John Wesley, sermão 67, Sobre a providência divina (1786).
- Leia também A Soberania de Deus e o Livre-Arbítrio Humano.
11. O arminianismo é reformado? É protestante?
O arminianismo nasceu dentro da Igreja Reformada dos Países Baixos. Armínio estudou em Leiden e em Genebra, com Teodoro de Beza, foi pastor reformado em Amsterdã e professor em Leiden, e morreu como ministro reformado. Ele recomendava aos alunos que, depois das Escrituras, lessem os comentários de Calvino, porque dizia que, na interpretação da Escritura, Calvino era incomparável.
O arminianismo clássico afirma o que a Reforma tem de central: a autoridade suprema das Escrituras, a salvação só pela graça, a justificação só pela fé, com a justiça de Cristo imputada a quem crê, e Cristo como único mediador. A divergência com o calvinismo é soteriológica: está no modo da graça e na condição da eleição. Por isso, o arminianismo é protestante, e muitos o descrevem como um ramo da tradição reformada mais ampla.
Fontes
- Carl Bangs, Arminius: A Study in the Dutch Reformation (Abingdon, 1971), sobre a carta de Armínio que recomenda os comentários de Calvino.
- Keith D. Stanglin e Thomas H. McCall, Jacob Arminius: Theologian of Grace (Oxford, 2012).
- Leia também O Arminianismo é Reformado?
12. Arminianismo e wesleyanismo são a mesma coisa?
São parentes próximos, mas não são a mesma coisa. John Wesley recebeu de Armínio a doutrina da graça: a depravação total, a graça preveniente oferecida a todos e resistível, a eleição condicional e a perseverança condicional. Ele chegou a chamar a revista metodista de The Arminian Magazine (1778).
Mas a teologia wesleyana é maior do que essas doutrinas. Ela tem, por exemplo:
- o caminho da salvação, da graça preveniente ao novo nascimento e à santificação;
- o testemunho do Espírito, que dá certeza de ser filho de Deus;
- a ênfase na santidade de coração e de vida, até a perfeição cristã, entendida como amor perfeito recebido pela fé;
- os meios de graça;
- a santidade social.
Paulo ora: "o próprio Deus da paz vos santifique em tudo" (1 Tessalonicenses 5:23). João escreve que "o perfeito amor expulsa o medo" (1 João 4:18). Este site é arminiano clássico com tendência wesleyana: parte de Armínio e acolhe essa herança de santidade.
Fontes
- John Wesley, sermão 43, O caminho da salvação segundo as Escrituras (1765); A Plain Account of Christian Perfection (1766).
- Randy L. Maddox, Responsible Grace (Kingswood, 1994).
- Leia também Arminianismo clássico e wesleyano: diferenças e pontos comuns.