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Como pedir sabedoria a Deus segundo Salomão e Tiago 1

Buscando a sabedoria de Deus

Diego Gonçalves10 min de leitura1.919 palavras

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Neste texto

“Peça-me o que quiser, e eu lhe darei!” (1Rs 3:5). Essa frase intriga a humanidade desde os tempos antigos, e a gente vê o eco dela na velha história do gênio da lâmpada.

Tem uma versão moderna que conta de um homem que achou uma garrafa na praia, tirou a rolha e, poof, saiu um gênio numa nuvem de fumaça. Para agradecer, o gênio ofereceu um desejo. O homem disse: “Bem, eu sempre quis ir para a Coreia, mas morro de medo de avião e navio me deixa enjoado. Você poderia construir uma ponte daqui até lá?”

O gênio respondeu: “Nossa… isso é muito trabalho. Pilares até o fundo do oceano, concreto, 20.000 quilômetros de asfalto… Não tem outro desejo?”

O homem pensou e disse: “Tem sim. Eu sempre quis entender as mulheres. Por que elas riem, por que choram, como elas funcionam… Você pode me explicar como as mulheres pensam?” O gênio parou, olhou para ele e perguntou: “Você vai querer aquela ponte com duas pistas ou quatro?”

A gente ri, mas a história toca num ponto real. Se você pudesse ter qualquer coisa, o que pediria? Imagine se o Criador do universo falasse com você, de forma audível, exatamente como falou com Salomão em Gibeom. Qual seria a sua resposta?

Quem foi Salomão

O primeiro versículo de Provérbios já identifica o autor:

Estes são os provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel.

(Pv 1:1, NVI)

Para entender o livro, precisamos entender o homem, e Salomão não nasceu sábio. Em 1Rs 3, ele tinha acabado de assumir o trono. E não era qualquer trono: estava no lugar de Davi, o maior rei que Israel já tinha visto, herói de guerra, homem segundo o coração de Deus. O paletó de Davi era grande demais para qualquer um vestir.

Salomão foi a Gibeom oferecer sacrifícios, mil holocaustos (1Rs 3:4). Naquela noite, sob o peso da responsabilidade e da fumaça dos sacrifícios, Deus apareceu a ele em sonho.

A resposta de Salomão (1Rs 3:7-9) revela uma humildade que é o primeiro passo para a grandeza. Ele não fingiu que sabia o que estava fazendo. Orou assim: “Senhor, meu Deus, tu fizeste o teu servo reinar em lugar de meu pai Davi. Mas eu não passo de um jovem; eu não sei como governar, não sei como entrar nem sair…” Repare nisso: “Eu não sei entrar nem sair”. Ele admitiu a própria incapacidade.

E então fez o pedido que mudou a história: “Dá, pois, ao teu servo um coração que ouve, para governar o teu povo e distinguir entre o bem e o mal.”

Deus ficou tão satisfeito por Salomão não ter pedido vida longa, nem riquezas, nem vingança contra os inimigos, que respondeu:

Já que você pediu isso… Eu lhe darei um coração sábio e capaz de discernir, de modo que nunca houve nem haverá ninguém como você.

(1Rs 3:11-12)

O resultado não foi só um rei inteligente. Foi uma explosão de conhecimento: “Deus deu a Salomão sabedoria… tão imensurável quanto a areia do mar” (1Rs 4:29). A sabedoria dele cobria todas as áreas da vida. Ele organizou o conhecimento humano em 3.000 provérbios, compôs 1.005 canções (1Rs 4:32) e foi um dos primeiros grandes naturalistas da Bíblia, falando de botânica, do cedro ao hissope, e de zoologia.

A fama atravessou fronteiras. A rainha de Sabá viajou semanas pelo deserto, com uma caravana carregada de ouro, só para testá-lo com enigmas difíceis. Ao ver a sabedoria dele na prática, na comida, nos servos, na arquitetura, ela ficou literalmente “sem fôlego” (1Rs 10:5). A realidade superou a fama.

Dá vontade de dizer: quem dera fôssemos sábios assim, quem dera tivéssemos a mesma oportunidade de pedir.

A oferta não expirou

A melhor notícia é que a gente tem esse privilégio. A oferta não acabou com Salomão. Uma das promessas mais incríveis da Bíblia está em Tiago:

Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida.

(Tg 1:5, NVI)

Note como Tiago descreve Deus. Ele dá “livremente”, “de boa vontade” e sem repreensão. Isso quer dizer que, quando você chega a ele com as suas dúvidas, as suas trapalhadas financeiras, os seus erros de relacionamento, ele não olha pra você e diz: “De novo? Como você é burro!”. Ele dá com generosidade e tem prazer em dar sabedoria.

Inclua isso na sua oração hoje. Era a oração constante de Davi: “Ensina-me o teu caminho, Senhor… dá-me um coração inteiramente fiel” (Sl 86:11), e também: “Ensina-me o teu caminho, Senhor; conduze-me por uma vereda segura…” (Sl 27:11).

Sabedoria para não desperdiçar a provação

Só que nem tudo são flores, porque existe um “porém”. Tiago manda pedir sabedoria logo depois de falar de uma coisa de que ninguém gosta, as provações:

Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa…

(Tg 1:2-4, NVI)

Você já parou pra pensar por que devemos pedir sabedoria justo na provação? Eu acredito que é porque, nos momentos de dor, a nossa visão embaça, e é na crise que a gente toma as piores decisões. A sabedoria não serve para evitar todos os problemas, mas para não desperdiçá-los.

Samuel Logan Brengle, pregador e oficial do Exército de Salvação, entendeu isso a fundo. Na velhice, a cegueira foi tomando conta dele, e para um escritor e pregador perder a visão é como um músico perder a audição. Conta-se que ele escreveu a um amigo dizendo que, se a luz fosse apagar, ele se prepararia para a escuridão, citaria Tg 1:2-4, gritaria aleluia e seguiria em frente.

Isso é sabedoria: confiar em Deus o bastante para gritar “Aleluia” mesmo quando a luz do mundo se apaga, porque a luz de dentro continua acesa.

Cavar como quem procura tesouro

Você pode pensar: “Tá, ok, eu vou pedir. Mas e depois? A sabedoria vai cair do céu enquanto eu durmo?” Não. Deus raramente usa uma voz audível hoje. Ele usa a sua Palavra.

Em Provérbios 2, Salomão muda a imagem: é preciso buscar a sabedoria como quem procura prata e cavar atrás dela como quem busca tesouro escondido. Ninguém tropeça numa mina de prata por acidente enquanto passeia no quintal. É preciso cavar, é preciso suar.

Se der ouvidos à sabedoria e inclinar o coração para o discernimento; se clamar por entendimento e por discernimento gritar bem alto, se procurar a sabedoria como se procura a prata e buscá-la como quem busca um tesouro escondido, então você entenderá o que é temer ao Senhor e achará o conhecimento de Deus. Pois o Senhor é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.

(Pv 2:2-6, NVI)

Dizem que sabedoria é ver a vida do ponto de vista de Deus. Ou seja, olhar para o problema de saúde, para o casamento, para as finanças, para a carreira, e ver o que Deus vê. O que será que ele está vendo em você, agora, durante o processo que você atravessa?

Como descobrir? Pela meditação bíblica. Meditar não é esvaziar a mente, é encher. É memorizar, visualizar e personalizar as Escrituras até que elas se tornem o nosso sistema operacional. O médico suíço Paul Tournier dizia que a Bíblia é onde aprendemos com o Criador a “arte de viver bem”.

Oswald Chambers e o dia em que ele esperou

Oswald Chambers, autor do clássico devocional Tudo para Ele, estava no Egito durante a Primeira Guerra Mundial, servindo como capelão de soldados que seguiriam para as trincheiras. Conta-se que um dia o cenário mudou. Ele foi chamado a um interrogatório severo pelas autoridades militares britânicas. O evangelismo dele incomodava o comando, e a ameaça era clara: ele e toda a equipe seriam afastados, humilhados e mandados de volta à Inglaterra.

Imagine a cena: anos de trabalho missionário prestes a ser jogados fora por uma canetada burocrática. Os colegas de Chambers entraram em pânico. Corriam de um lado para o outro, tentando usar influências políticas, ligando para conhecidos importantes, desesperados para salvar a própria pele. O senso comum gritava: faça alguma coisa, lute, argumente.

Chambers fez algo estranho. Foi para o quarto, em silêncio, e abriu a Bíblia. A leitura do dia era 1Sm 8, a história em que o povo de Israel, movido pelo medo e pela impaciência, exige um rei humano para se defender, rejeitando o tempo de Deus. Chambers percebeu que o pânico dos colegas era o mesmo erro de Israel: querer resolver um problema espiritual com armas humanas. No diário, anotou que diante de qualquer dilema a tentação é usar o senso comum em vez de esperar que Deus cumpra o seu propósito. Então, enquanto todos corriam lá fora, ele sentou e esperou. “Vamos ficar perto d’Ele e esperar”, disse aos amigos.

E o resultado dessa loucura? O senso comum dizia que ele seria deportado por não se defender. Mas, segundo o relato, sem que Chambers movesse uma palha, a atitude das autoridades mudou. O inquérito foi arquivado, e a ordem de deportação nunca chegou.

A sabedoria bíblica é isso: ela nos impede de fazer loucuras baseadas no medo e nos dá a estabilidade de uma rocha no meio do caos.

O alicerce: o temor do Senhor

Toda essa estrutura de sabedoria tem um alicerce. Se você tirar, o prédio cai. É o versículo que resume o livro de Provérbios:

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina.

(Pv 1:7, NVI)

O que é esse temor? Muita gente tropeça aqui e acha que é ter medo de Deus, como se ele fosse um tirano pronto para nos ferir. Não é isso. A. W. Tozer disse que o temor de Deus é uma “reverência atônita”, o estado mais agradável e a emoção mais satisfatória que a alma humana pode conhecer. É o respeito profundo de um filho que ama tanto o pai que treme só de pensar em decepcioná-lo. É reconhecer a grandeza dele.

Sem atalhos

No Brasil e no mundo, fala-se muito em atalhos. Quando eu era criança, assistia ao Popeye, um marinheiro fracote que ganhava superpoderes ao comer uma latinha de espinafre. Outro exemplo é o Chapolin Colorado, que tomava a pílula encolhedora, ficava pequeno, espiava a cena e só depois agia.

E isso não é só coisa de TV. Recentemente vi um vídeo no YouTube sobre uma bebida asiática que promete deixar as crianças “mais inteligentes”. Aqui no Brasil, vemos a busca desesperada pela “pílula da inteligência”: remédios, suplementos, qualquer coisa que dê hiperfoco e produtividade instantânea.

A gente quer o download da informação, mas não quer o processo da formação. Somos obcecados por inteligência artificial e carentes de sabedoria real. E existe uma diferença gigante entre ser esperto e ser sábio: o esperto sabe sair do buraco, o sábio não cai nele.

Vivemos na geração mais educada da história. Temos mais informação no celular do que Salomão tinha em toda a sua biblioteca. Mas olhe em volta: guerras tolas, lares desfeitos por motivos tolos, ansiedade em níveis epidêmicos.

Aplicação

Você quer pensar com inteligência num mundo tolo? Quer tomar decisões das quais não vai se arrepender daqui a dez anos? A receita não está na farmácia. Está em Provérbios 1.

  1. Peça a Deus, porque ele ama dar sabedoria.
  2. Estude as Escrituras a fundo, cavando como quem procura ouro e prata.
  3. Cultive o temor do Senhor, a reverência atônita.

Para ser sábio, comece ajoelhando diante daquele que é a própria Sabedoria.