
Antes de serem 7, os pecados capitais eram 8
De Evágrio a Gregório Magno: como oito pensamentos viraram sete pecados capitais, e o que a Bíblia tem a ver com isso
A lista dos pecados capitais ganhou o número sete num comentário sobre um cavalo de guerra, no livro de Jó. Se foi assim que ela nasceu, ela pode ser chamada de bíblica, e você, salvo pela graça, deveria usá-la?
Antes do sete, o oito de Evágrio
Antes do sete, porém, houve um oito. No fim do século 4, um monge do deserto egípcio chamado Evágrio do Ponto (345–399) escreveu o Prático, um manual curto de vida espiritual para outros monges, e ali organizou as tentações em oito grupos.
Ele não as chamava de pecados. A palavra grega que ele usa é logismoi, isto é, os pensamentos que puxam você, a sugestão que bate na porta da mente antes de virar ação. No capítulo 6 do Prático, Evágrio escreve: “São oito, ao todo, os pensamentos principais, e neles cabem todos os outros: o primeiro é o da gula; com ele, o da impureza sexual; o terceiro, o do amor ao dinheiro; o quarto, o da tristeza; o quinto, o da ira; o sexto, o da acídia; o sétimo, o da vanglória; o oitavo, o da soberba.”
Você talvez nunca tenha ouvido falar em acídia, mas já sentiu. É a tarde de domingo em que a Bíblia fica aberta na mesma página enquanto o polegar desce a tela do celular sem parar. Acídia é esse tédio da alma, uma preguiça das coisas de Deus que deixa tudo arrastado e sem gosto. No capítulo 12, Evágrio descreve o monge tomado por ela: o sol parece parado, o dia parece ter cinquenta horas, e ele vai até a janela conferir quanto falta para as três da tarde e olhar se algum irmão está chegando.
Logo depois da lista, Evágrio faz uma distinção que ajuda qualquer cristão. Se esses pensamentos vão perturbar a alma ou não, isso não depende de nós; se vão ficar, e se vão acender as paixões, isso depende de nós. A tentação bate na porta, e a decisão é se ela entra.
Gregório Magno e o cavalo de Jó
Cerca de duzentos anos depois, essa sabedoria do deserto já tinha chegado ao Ocidente. Gregório Magno (c. 540–604), monge que se tornou bispo de Roma em 590, escreveu um comentário enorme sobre o livro de Jó, as Morais sobre Jó. No capítulo 39 de Jó, Deus mostra a Jó o cavalo de guerra, que não recua diante da espada, relincha ao toque da trombeta e, no versículo 25, sente de longe o cheiro do combate, o brado dos comandantes e o grito de guerra.
Gregório lia a Bíblia em camadas, e na camada moral enxergou no cavalo o cristão que luta e, nos comandantes que gritam, os vícios que comandam um exército dentro do coração. No livro 31 das Morais ele escreve: “Quando a soberba, rainha dos vícios, toma por completo um coração vencido, logo o entrega a sete vícios principais, como a generais seus, para que o devastem.” E dá os nomes: vanglória, inveja, ira, tristeza, avareza, gula e luxúria.
Duas listas lado a lado
Ponha as duas listas lado a lado na lousa e três mudanças aparecem:
- A soberba saiu da fila: em Evágrio ela era o oitavo pensamento, e em Gregório ela sobe acima de todos, como rainha e raiz.
- A acídia deixou de ser um item próprio, e a tristeza ficou.
- A inveja, que Evágrio não contava, entrou.
Oito, menos dois, mais um: sete.
Sobre a soberba, os dois respondem de modo diferente. Para Evágrio, ela é uma entre as oito tentações. Para Gregório, ela fica fora dos sete porque está por baixo de todos, do jeito que a raiz fica por baixo da árvore. A lista que você ouviu na escola, com a soberba de volta para dentro e a preguiça no lugar da tristeza, é uma arrumação que se firmou séculos depois.
Neste ponto, a Escritura dá razão a Gregório. A queda começou com a promessa da serpente, em Gênesis 3:5, de que Adão e Eva seriam como Deus, e Tiago 4:6 resume: “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes.” A soberba é o coração que se senta no lugar de Deus, e dela nasce o resto.
O que é bíblico e o que é ferramenta
Abra a sua Bíblia e olhe os subtítulos que separam os trechos, como “A parábola do semeador” ou “O fruto do Espírito”. Eles não fazem parte do texto inspirado; foram postos pelos editores, e mesmo assim ajudam você a achar o que está lá.
Você pode estar pensando: “Então a lista é invenção de monge e de papa, e o que não está na Bíblia não me obriga.” A objeção tem metade da razão. Os vícios estão todos na Escritura, e os próprios apóstolos fizeram listas parecidas. Paulo escreve em Colossenses 3:5: “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria.”
O que a Bíblia não traz é o número sete, a ordem dos itens e a ideia de que o cavalo de Jó ensina isso. Lido no seu próprio horizonte, Jó 39 fala de um cavalo de verdade, que Deus criou e Jó jamais poderia criar, para mostrar a Jó quem governa o mundo. A leitura de Gregório é uma lição dele, pendurada no texto, e não o que o texto quis dizer. Por isso, a lista funciona como aqueles subtítulos: o conteúdo é bíblico, e a lista é uma ferramenta que a Igreja montou para achar esse conteúdo no próprio coração.
Uma lista de monges serve a quem foi salvo pela graça?
Mas uma ferramenta nascida entre monges serve para quem foi salvo pela graça? A objeção mais forte vem de dentro da nossa própria casa: “Lista de pecados é o caminho mais curto para o farisaísmo. Você marca os itens, se acha melhor que o vizinho e esquece a cruz.” Isso acontece, e qualquer igreja, inclusive a nossa, sabe como acontece.
Pense num exame de sangue. Ele mostra a glicose alta, mas não abaixa a glicose; ninguém joga o exame fora por isso, e ninguém toma o papel como remédio. A lista dos sete faz o mesmo: dá nome ao que está doente, e o remédio continua sendo Cristo.
A ordem de Colossenses 3 confirma isso. Antes da lista do versículo 5, o versículo 1 diz: “Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto.” Paulo põe a graça primeiro e a luta depois. Você não combate os vícios para ser aceito por Deus; você combate porque já foi aceito, e porque a graça que alcançou você antes de você buscá-la também transforma o seu coração.
O próprio Gregório pôs Cristo no centro dessa guerra. Logo depois de nomear os sete, ele escreve que, por se doer de nos ver cativos desses vícios, o nosso Redentor veio à batalha espiritual da nossa libertação, cheio do Espírito da graça. Um pouco adiante, volta ao cavalo e diz que o soldado de Deus fareja a batalha de longe, porque aprende a reconhecer a voz dos comandantes antes que o exército chegue. E isso confronta quem fala também: é muito mais fácil achar a inveja no colega de trabalho do que a vanglória no nosso próprio post de domingo.
A resposta à pergunta do começo cabe numa frase: os pecados da lista são bíblicos, a lista é uma ferramenta, e ela só faz bem quando leva você de volta a Cristo. Use os sete do jeito que você usa um exame, para saber o que precisa levar ao médico.
Esta semana, leia Colossenses 3 inteiro, olhe para os sete com honestidade e leve a Cristo o nome daquele que mais tem ocupado o seu coração.
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