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Elias e a viúva de Sarepta: sermão em 1 Reis 17

A Panela Vazia e a Provisão no Deserto: Sermão em 1 Reis 17

Diego Gonçalves6 min de leitura1.201 palavras

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Neste texto

“Depois disso, a palavra do Senhor veio a Elias: ‘Vá imediatamente para a cidade de Sarepta, que pertence a Sidom, e fique por lá. Eu ordenei a uma viúva daquele lugar que lhe forneça comida’. Então ele foi a Sarepta. Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva que estava colhendo gravetos. Ele a chamou e perguntou: ‘Pode me trazer uma vasilha com água para eu beber?’ Enquanto ela ia buscar a água, ele gritou: ‘Por favor, traga-me também um pedaço de pão’.”
— 1 Reis 17.8-11

Quem de nós nunca chegou a um ponto de esgotamento total, olhando para os próprios recursos e sentindo que o tanque chegou na reserva da reserva? Às vezes isso acontece no orçamento apertado no fim do mês, outras vezes acontece na energia emocional para sustentar um casamento em crise, na saúde debilitada ou na sensação pesada de que as forças espirituais se esgotaram.

A passagem de 1 Reis 17 nos coloca exatamente diante desse cenário de terra seca. O relato do profeta Elias e da viúva de Sarepta não é uma fábula piedosa para enfeitar a imaginação; é uma lição desconcertante sobre como Deus age quando tudo ao redor parece conspirar para a morte.

Do ribeiro seco à terra estrangeira

O profeta Elias surge na história bíblica como um trovão em céu azul. Num tempo de profunda corrupção espiritual em Israel, sob o governo idólatra de Acabe e Jezabel, Elias anuncia anos de seca implacável sobre a terra. Em seguida, Deus manda o profeta se esconder no ribeiro de Querite. Ali, Elias foi sustentado milagrosamente: bebia da água do riacho e os corvos lhe traziam pão e carne de manhã e à tarde.

Só que um dia o riacho secou. A seca que atingia o povo rebelde também secou a água do profeta de Deus. É fácil confiar na providência divina enquanto a água fresca corre aos nossos pés. Mas o que a gente faz quando o ribeiro seca?

Deus não abandonou Elias; Ele apenas mudou o endereço da dependência. O Senhor ordena que o profeta saia de Israel e vá até Sarepta, uma cidade costeira da Fenícia, situada no território onde Jezabel cresceu adorando o falso deus Baal. Deus manda o Seu servo buscar refúgio em solo inimigo, não na mansão de um comerciante rico, mas na choupana de uma viúva pobrezinha.

O choque na porta da cidade

Depois de caminhar mais de cem quilômetros sob o sol escaldante, desidratado e faminto, Elias chega aos portões de Sarepta. A primeira cena que ele encontra é de partir o coração: uma mulher solitária, com roupas puídas, catando dois gravetos na poeira para acender uma fogueira minúscula.

Elias se aproxima e pede água. A mulher, demonstrando generosidade espontânea mesmo no meio da escassez geral, dá meia-volta para buscar a vasilha. Mas quando ela dá os primeiros passos, o profeta acrescenta um pedido que soa quase desumano: “Traga-me também um pedaço de pão”.

A mulher para e desabafa em desespero: “Tão certo como vive o Senhor, o seu Deus, não tenho pão nenhum! Resta apenas um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na botija. Estou colhendo uns dois gravetos para levar para casa e preparar uma última refeição para mim e para o meu filho, para que a comamos e depois morramos de fome”.

Aquele não era o egoísmo de quem esconde mantimentos no armário. Era o lamento cru de uma mãe que contava as últimas horas de vida do próprio filho. Ela tinha planejado a última refeição da família antes da morte lenta pela inanição.

A ousadia da fé que pede o primeiro pedaço

Se a gente estivesse no lugar de Elias, a reação mais compreensível seria o constrangimento: “Perdão, minha senhora. Não sabia que a situação estava tão feia. Deixe para lá, vou procurar outro lugar”.

Só que Elias carrega a promessa de Deus. Ele engole seco e pronuncia palavras que exigem uma coragem quase inacreditável: “Não tenha medo. Vá para casa e faça o que disse. Mas primeiro faça um pequeno bolo com o que você tem e traga para mim; depois faça algo para você e para o seu filho. Pois assim diz o Senhor, o Deus de Israel: A farinha na panela não se acabará e o azeite na botija não secará até o dia em que o Senhor fizer chover sobre a terra”.

Preste atenção na ordem: “primeiro faça para mim”. Deus não pede o que sobra da fartura; Ele pede a prioridade no momento da maior carência. É um teste brutal de confiança. Dar o primeiro pedaço da última porção de comida a um estrangeiro exigia que aquela mulher transferisse toda a segurança de sua vida daquilo que os olhos viam na panela para a palavra invisível do Deus verdadeiro.

A viúva foi para casa, acendeu o fogo com os dois gravetos e colocou a mão no fundo da panela. Ela raspou a última farinha, misturou com as últimas gotas de azeite, assou o bolinho e o entregou nas mãos do profeta. Ela arriscou a própria sobrevivência na promessa daquele Deus que não pertencia ao seu povo.

O milagre do fundo da panela

E o que aconteceu em seguida? A mulher voltou para dentro de casa. Quando olhou novamente para a panela, havia farinha no fundo. Quando inclinou a botija, o azeite escorreu. E assim foi no dia seguinte, na semana seguinte e nos meses seguintes.

Deus não encheu a casa da viúva de sacos empilhados de trigo até o teto, nem transformou a botija numa cisterna inesgotável. O milagre acontecia na medida exata da necessidade de cada dia. Todas as manhãs, a panela parecia estar vazia; mas todas as manhãs, quando ela estendia a mão em obediência, encontrava a provisão suficiente para o pão diário.

O Deus da Bíblia não alimenta o nosso desejo de acumulação egoísta para nos dar falsa sensação de controle; Ele sustenta a nossa caminhada passo a passo para nos manter em comunhão viva com Ele.

A nossa entrega e a providência de Cristo

Essa história aponta com muita clareza para o evangelho. Séculos mais tarde, em Nazaré, Jesus citou essa mesma mulher de Sarepta para lembrar que a graça soberana de Deus muitas vezes alcança os improváveis e desprezados enquanto os religiosos autossuficientes permanecem vazios.

O que a gente tem nas mãos hoje pode parecer risível e insuficiente diante do tamanho das contas, das dores e dos desafios da vida. O pouco que a gente guarda por medo e avareza apodrece e nos consome por dentro. Mas o pouco colocado com fé e humildade nas mãos do Senhor se multiplica em sustento, consolo e esperança.

O chamado da Palavra para a sua vida nesta hora é muito simples: pare de olhar para a escassez da sua panela e comece a olhar para a fidelidade dAquele que governa a história. Não tenha medo de ser generoso. Não tenha medo de obedecer mesmo quando a lógica humana disser que não vai sobrar nada. Quem entrega a sua vida nas mãos de Cristo descobre que a graça do Pai nunca se esgota e que o Seu cuidado é mais do que suficiente para nos conduzir em segurança até a glória eterna. Amém.