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Elias e a viúva de Sarepta: confiar com o pouco que resta
Elias e a viúva de Sarepta
Todo mundo já abriu o armário no fim do mês e viu o que sobrava: um restinho de arroz, um fundo de óleo na lata, e a conta de quanto dava pra render até o próximo pagamento. Quando a gente está ali, olhando pro fundo da panela, a fé encolhe. A gente se sente pequeno, vazio, sem rumo, sem energia pra procurar uma saída. É nesse lugar que a história de Elias e da viúva de Sarepta começa.
Quando o riacho seca
Elias aparece de repente na Bíblia. Não sabemos quem eram os pais dele, só que era de Tisbe, em Gileade. Ele anuncia ao rei Acabe uma seca, e Deus o manda para o riacho de Querite, onde a água corre e os corvos trazem pão e carne (1Rs 17:1-6). Deus cuida dele ali. Mas o riacho seca, e chega a hora de seguir em frente (1Rs 17:7).
A ordem seguinte é estranha. Deus manda Elias para Sarepta, na região de Sidom, fora de Israel. Sidom era a terra de Jezabel, a rainha que tinha levado o povo ao culto de Baal (1Rs 16:31). E lá Elias encontraria uma viúva que o sustentaria. Imagine o profeta, cansado de fome e de sede, chegando ao portão da cidade e vendo uma mulher magra, sozinha, apanhando gravetos. Era essa a provisão de Deus?
Elias pede água, e ela vai buscar. Quando ela se vira, ele pede também um pedaço de pão. Aí a mulher responde:
Tão certo como vive o Senhor, seu Deus, não tenho um pedaço sequer de pão em casa. Tenho apenas um punhado de farinha que restou numa vasilha e um pouco de azeite no fundo do jarro. Estava apanhando alguns gravetos para preparar esta última refeição, e depois meu filho e eu morreremos.
(1Rs 17:12, NVT)
Quem pede o que o outro não tem pode parecer egoísta. Muitas vezes, porém, o que a gente toma por egoísmo é medo, vergonha, escassez. Essa mulher não estava sendo mesquinha, estava contando as últimas colheres.
Faça primeiro um pãozinho pra mim
A resposta de Elias é a parte mais difícil de pregar:
Não tenha medo! Faça o que acabou de dizer, mas primeiro faça um pouco de pão para mim. Depois, use o resto para preparar uma refeição para você e seu filho.
(1Rs 17:13, NVT)
Ele pede a ela que dê primeiro. E vem a promessa: a vasilha de farinha não vai se esvaziar nem o jarro de azeite vai secar, até o dia em que o Senhor mandar chuva (1Rs 17:14). Pense no que cada um dos dois estava arriscando. Elias, que fala em nome de Deus, está pedindo a última comida de uma mãe com o filho passando fome. Se a promessa falhasse, quem pagaria o preço seria ela. E a mulher, estrangeira, ouve um homem de outro povo falar de um Deus que ela só conhecia de ouvir dizer, e precisa decidir se acende o fogo ou se guarda a panela.
Quanto tempo ela terá segurado aquela panela antes de abrir a tampa? A Bíblia não diz quanto tempo demorou, só conta o que ela fez:
Ela fez conforme Elias disse. Assim, Elias, a mulher e a família dela tiveram alimento para muitos dias. Sempre havia farinha na vasilha e azeite no jarro, exatamente como o Senhor tinha prometido por meio de Elias.
(1Rs 17:15-16, NVT)
Deus gosta do pouco
Repare no que Deus não fez. Ele não encheu o celeiro da viúva de uma vez. Deu o suficiente pra cada dia, e a farinha e o azeite apareciam conforme ela usava. É o pão de cada dia que Jesus ensinou a pedir (Mt 6:11). Quem queria uma despensa cheia talvez ficasse frustrado. Quem entendia que Deus sustenta a cada manhã descobria que nada faltava.
E isso combina com o jeito de Deus agir desde sempre. Quando quis mudar o mundo, mandou um bebê em Belém. Escolheu um pastor de ovelhas, o menor da casa do pai, pra ser rei de Israel (1Sm 16:11-13). Jesus disse que o Reino é como uma semente de mostarda, a menor de todas, que cresce até virar uma árvore onde as aves fazem ninho (Mt 13:31-32). E, diante de uma multidão faminta, ele pegou cinco pães e dois peixes que um menino tinha e deu de comer a mais de cinco mil pessoas (Jo 6:9-13).
A própria viúva de Sarepta foi lembrada por Jesus. Ele disse que havia muitas viúvas em Israel naquele tempo de seca, mas Elias foi enviado a uma de Sidom (Lc 4:25-26). Deus passou por cima de tanta gente e escolheu uma estrangeira sem nada, porque fé não depende do que a pessoa tem na despensa.
Tirar a tampa
A gente tem o costume de manter as nossas panelas bem tampadas. Guardamos o que sobra de tempo, de talento, de dinheiro, de coragem, e dizemos que quando sobrar mais a gente dá. É nossa maneira de dizer até onde achamos que Deus pode ir. Mas a viúva destampou a panela quando não havia margem nenhuma, e foi ali que descobriu que Deus cabia.
Isso vale pra nós em muita coisa. Pode ser a oferta que parece pequena demais, o tempo que a gente tem pouco, o dom que parece simples, o convite pra alguém conhecer a igreja. Quando a gente entrega o pouco que tem, Deus costuma fazer dele o suficiente, e às vezes mais que isso.
E a fé tem outra face. Quem está de fora olha pra viúva e pensa: coitada, entregou tudo. Quem está dentro da história sabe que ela ficou com o necessário todo dia. Quando a gente dá um passo de fé, muitas vezes descobre que tinha mais do que imaginava, e que o que parecia perda era a porta de entrada pro cuidado de Deus.
Talvez você esteja olhando pro fundo da sua panela agora, no trabalho, na família, na vida espiritual. Talvez algo esteja queimando no seu coração, e você sinta que Deus quer que você faça uma coisa que ainda não faz sentido. Tomara que a gente tenha a coragem da viúva de Sarepta: acender o fogo, obedecer, e esperar que o Deus que sustentou Elias no deserto também sustente a gente, um dia de cada vez.
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