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1 Samuel 16como desenvolver um coração para Deus
Desenvolvendo um coração para Deus
Neste texto
Introdução
Num almoço com professores, a conversa foi parar na cirurgia plástica da pálpebra e no padrão de beleza coreano: olhos grandes, nariz fino e arrebitado, queixo em V. Naquele dia eu percebi o quanto a nossa sociedade é obcecada pela aparência física. Uma das indústrias que mais crescem no mundo é a da beleza. A busca por cirurgias plásticas, academias, clínicas de estética e novas dietas movimenta cada vez mais a indústria da saúde e do fitness. Não me entenda mal, sou totalmente a favor de cuidar do corpo e de estar em forma. Mas Deus tem outro padrão.
Quando Samuel procurava um homem para suceder Saul como rei de Israel, Deus disse a ele:
Não olhe para a sua aparência nem para a sua altura, porque eu o rejeitei. Porque o Senhor não vê como o ser humano vê. O ser humano vê o exterior, porém o Senhor vê o coração.
(1Sm 16:7)
O ser humano admira e supervaloriza o que é visível aos olhos. Deus examina o interior em busca de algo mais. O homem julga alguém pela aparência, mas Deus avalia o coração.
No pensamento bíblico, o coração é o centro que governa todas as atividades da pessoa. Em sentido espiritual, é como se fosse o útero da alma, que gera o caráter. E só existem dois tipos de caráter, o bom e o mau. Quando dizemos que alguém tem “bom caráter”, estamos elogiando a honestidade, a fidelidade, a lealdade, a integridade, a sinceridade. Quando falamos de mau caráter, queremos dizer o oposto.
Bill Hybels define caráter como a soma total dos nossos hábitos, virtudes e vícios. Todos temos um caráter, e são as nossas atitudes que mostram se ele é bom ou mau. Existe até um ditado popular que diz que pensamentos viram ações, ações viram hábitos, hábitos viram caráter, e o caráter vira destino. Ou seja, caráter não é um momento esporádico de bondade ou de honestidade. É hábito, é constância. No livro Quem É Você Quando Ninguém Está Olhando?, o mesmo Hybels lembra a frase de um sábio: caráter é o modo como agimos quando ninguém está olhando. A definição confronta, porque espera que a gente seja, pense e aja em público do mesmo jeito que em particular. O caráter se revela nos bastidores.
No texto bíblico, é de lá, dos bastidores, que Deus chama alguém. Um pastor de ovelhas, pequeno e magro, chamado Davi. O coração dele estava calibrado, as contas com Deus estavam em dia. Era o homem que o profeta Samuel procurava para suceder o rei Saul. Mesmo tendo começado com aparência de fracote, Davi se tornou um líder poderoso, um general valente e guerreiro, além de músico talentoso e escritor de salmos. Deus sabia desde o começo qual seria esse currículo, e mesmo assim o que mais o impressionou em Davi foi o coração. Ele disse: “Achei Davi, o filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade” (At 13:22).
De um lado, um Deus que procura pureza e integridade de coração. Do outro, um homem que se deixa moldar pela vontade de Deus. É uma combinação perfeita. Por isso quero encorajar você e a mim mesmo a desenvolver um coração para Deus, como Davi fez. Mas, antes de ver como, vamos identificar o que pode destruir um coração assim.
I. O que destrói um coração para Deus
O coração físico é muito forte. É o motor mais poderoso do corpo, do tamanho de um punho, e não pesa mais que uma latinha de refrigerante. Já o coração espiritual, o que chamamos de alma, é frágil. Está sujeito a todo tipo de doença e de influência que pode comprometer a sua integridade. Por isso o sábio de Provérbios diz: “De tudo o que se deve guardar, guarde bem o seu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4:23). Quais são essas doenças?
Vanglória e autocomiseração
A primeira é a vanglória, que nasce de se gabar exageradamente de certas conquistas. Ela domina o coração, enche de falsos elogios e faz a gente dizer: “Esse cara sou eu”, “Olha só as minhas realizações”, “Olha o que eu fiz”. Em geral vem cheia de vaidade e presunção.
Existe também o outro lado da moeda, a autocomiseração. John Piper compara as duas em Em Busca de Deus: a vanglória é a resposta do orgulho ao sucesso, e a autocomiseração é a resposta do orgulho ao sofrimento. A vanglória diz “mereço ser admirado porque alcancei muito”. A autocomiseração diz “mereço ser admirado porque sofri tanto”. A primeira é a voz do orgulho no coração dos fortes, a segunda é a voz do orgulho no coração dos fracos.
A vanglória é evidente. A autocomiseração é mais sutil. Uma nasce de um ego inflado, a outra de um ego ferido. Quem fica remoendo a própria dor está infeliz porque acha que o seu valor passa despercebido. “Não recebi o que mereço. Ninguém me trata de acordo com o meu valor.” As duas são pecados perigosos e enganosos, e as duas endurecem o coração. Estrangulam a fé, sugam a esperança, matam a alegria, sufocam o amor, alimentam a raiva e roubam qualquer desejo de servir. Abrem a porta para outros males, como fofoca, difamação, gula, abuso de substâncias, pornografia e o consumo frenético de entretenimento.
Egoísmo
O egoísmo também quer destruir um coração para Deus. Ele encolhe o coração até sobrar espaço só para duas coisas, o eu e o meu. É o comportamento de quem olha apenas para as próprias opiniões, interesses e necessidades e despreza a necessidade dos outros. Eu o entendo como idolatria. Timothy Keller diz que idolatria é amar qualquer coisa mais do que a Jesus Cristo. Nosso coração tem a mania de ser uma fábrica de ídolos, e quase sempre põe a gente mesmo no centro. O egoísmo, portanto, não é só um desvio de caráter, mas pecado, porque é o oposto de tudo o que Jesus ensinou e viveu.
Preguiça
Ao lado da vanglória e do egoísmo vem a preguiça. Ela traz secura à alma, produz apatia, indisposição para servir e uma certa vagabundagem espiritual. Acredito que vivemos um tempo de grande preguiça de devoção. A situação é tão crítica que, quando alguém faz o mínimo que um cristão deveria fazer, como meditar na Palavra e orar todo dia, é elogiado como “super espiritual”. Chegamos a justificar e até apoiar a negligência espiritual em nome do comodismo e da “leveza”. Sei que é forte, mas essa busca pela leveza, como ideal de vida e fim em si mesma, está nos deixando mais preguiçosos e indisciplinados, e a falta de disciplina vai matando em silêncio a nossa oração, a nossa devoção e a nossa adoração. Talvez a gente não queira Deus, queira conforto, e o conforto tenha virado o nosso verdadeiro deus.
Pecado
Vanglória, egoísmo e preguiça destroem o coração para Deus, e por isso devem ser chamados pelo nome: pecado. O pecado também é doença espiritual. Oswald Chambers escreveu que o pecado é uma relação fundamental, não só fazer a coisa errada, mas ser errado, deliberadamente independente de Deus. A verdade cruel é que o pecado endurece o coração para as coisas que realmente importam. Um coração endurecido pelo pecado fica sujo como o pulmão de um fumante, cada vez mais distante da fonte de vida, que é o próprio Deus.
Estresse
O estresse também destrói muitos corações, colocando sobre eles exigências desnecessárias. Aparece de várias formas. Você anda sobrecarregado, irritável, ansioso, preocupado, com dificuldade de se concentrar ou de tomar decisões, com dor de cabeça? Vive cansado, dorme mal, ou tem evitado o contato com as pessoas e se isolado? Essa não é uma lista exaustiva, e quem se identificou deve procurar acompanhamento médico adequado. Mas posso adiantar que você precisa descobrir o que anda dominando você. A quem você serve: o Deus vivo ou a sua lista de tarefas?
Imagine que você está no consultório médico para um exame do coração. Alguma dessas doenças seria detectada? Alguma delas está impedindo você de viver para Deus?
II. Como desenvolver um coração para Deus
Desenvolver um coração para Deus não é tão difícil quanto parece. É preocupar o nosso coração com as preocupações do coração de Deus e cultivar as qualidades que valem a pena ter. A partir da vida de Davi, vejo um remédio para cada uma das doenças que acabamos de ver.
A. Seja humilde apesar do sucesso
Sem dúvida, Davi foi bem-sucedido. A Bíblia diz que ele “continuou a ser bem-sucedido em todas as suas atividades porque o Senhor estava com ele” (1Sm 18:14). Entrou em cena para enfrentar e derrotar o gigante Golias. Depois, à frente do exército de Saul, venceu todas as batalhas para as quais era enviado (1Sm 18:5). Foi tão bem-sucedido que o povo cantava: “Saul matou seus milhares, mas Davi dezenas de milhares” (1Sm 18:7). O sucesso de Davi deixou Saul louco de ciúme e de inveja.
Com Davi aprendemos que o sucesso não precisa subir à cabeça. Alguém pode ser bem-sucedido e ainda ter um coração para Deus. Só que, pra isso, o sucesso precisa ser mantido sob controle, e o remédio se chama humildade, que é simplesmente reconhecer a graça e a misericórdia de Deus. A humildade sabe de onde vêm as conquistas. Numa oração, Davi disse: “Tu salvas o povo humilde, mas, com um lance de vista, abates os orgulhosos” (2Sm 22:28).
Talvez o teste final de um coração para Deus seja como ele lida com o sucesso. O maior teste do caráter não é a adversidade, mas a prosperidade. Quando as coisas vão bem, com que frequência você ora? Quando está desfrutando de promoções e bônus, você reconhece Deus como a fonte definitiva dessas bênçãos?
B. Esteja atento ao Senhor
Davi é conhecido por muitas coisas, e uma das maiores foi ter escrito tantos salmos. Muitos deles provavelmente nasceram quando estava sozinho, na encosta da Judeia, cuidando das ovelhas. São palavras que dirigem a atenção ao Pai celestial: “Louvem comigo a grandeza do Senhor, e todos juntos lhe exaltemos o nome” (Sl 34:3). Davi consultava o Senhor, e isso resume a vida dele (2Sm 21:1).
Davi ensina que o remédio para o egoísmo é exaltar a Deus. O egoísmo encolhe o coração. Exaltar a Deus o expande, porque abre espaço para Deus e esvazia o coração do que é desnecessário. Você tem exaltado o Senhor? Quem, ou o quê, você anda adorando?
C. Esteja disponível ao Senhor
Davi serviu de todo o coração a Deus, a tempo e fora de tempo, nos bons e nos maus momentos. Acredito que o remédio para a preguiça é servir. Se a preguiça secou o coração, servir ao Senhor abre uma comporta de águas vivas, que trazem vida, alegria, poder e uma nova devoção a Deus.
Um homem conta a história de um velho poço que a família dele usava nas férias de verão, no interior. A água era sempre fria, pura e refrescante, e nunca secou, nem nas piores secas. Quando os vizinhos tinham de ir ao lago buscar água, a família só precisava sair pela porta da frente. Os anos passaram, e a família decidiu modernizar a casa de férias. Veio a água encanada, e o poço foi coberto com um tampão de cimento, para ter uma reserva se um dia fosse preciso. Anos depois, houve uma grande crise hídrica na cidade. Quando o homem destampou o poço, ficou chocado: tinha secado. Mais tarde descobriu que esse tipo de poço é abastecido por centenas de pequenos veios subterrâneos. Enquanto a água é tirada, mais água entra por esses canais e os mantém abertos e limpos. Quando ninguém tira água, os veios entopem e fecham.
Nosso coração é parecido. Seca por dentro se a água viva de Deus não correr nele. O que seca o coração não é a ausência do Espírito de Deus, mas o desuso da adoração. Se não nos entregamos de coração para servir a Deus e aos irmãos, acabamos secos e ocos por dentro. Não sei você, mas eu não quero ficar seco. Quero ser um manancial. Quero que do meu coração corram rios de água viva, e que as águas claras que jorram do trono de Deus inundem a minha vida.
Alguém já disse que Deus quer a nossa disponibilidade antes de querer a nossa capacidade. Acredito que ele quer as duas, mas ele não pode usar a nossa habilidade se a gente não se coloca à disposição. Você já se colocou à disposição de Deus? Está se apresentando para servir a ele e aos irmãos? Você quer ser usado por Deus?
D. Arrependa-se dos pecados
Eu amo a Bíblia por muitas razões, e uma delas é que ela não encobre o pecado nem as falhas de ninguém. Davi não é exceção. Foi um grande pecador, com pecados feios demais pra serem contados na frente de criança. Mas foi também um grande arrependido. Confessou: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12:13). O Salmo 51 é a sua declaração de confissão. Ele pecou, mas queria desesperadamente não pecar.
Da vida de Davi aprendo que não é preciso ser perfeito para ter um coração para Deus. Mesmo que você seja um grande pecador, pode ser dedicado a Deus. Mesmo que tenha um passado horrível, pode ser usado por Deus. Nós vamos pecar, isso é fato. O pecado nos separa de Deus, suja, mancha e endurece o coração. Mas o remédio para o pecado é o arrependimento.
Arrependimento não é só sentir pena do pecado, é se afastar dele. Não dá para se arrepender e continuar pecando. A renúncia precisa acontecer. Nem preciso perguntar se há pecado na sua vida. A questão é se você está se afastando dele e se está se arrependendo do pecado conhecido. Davi orou: “Deus, cria um coração limpo para mim e renova um espírito firme dentro de mim” (Sl 51:10). Queria um coração limpo diante de Deus, o que mostra uma pessoa que dedica a vida a ele.
E. Confie em um Salvador
Davi conheceu o estresse constante. Boa parte da juventude foi passada fugindo de Saul, que procurava matá-lo. Depois virou rei de uma nação que enfrentou guerras, gigantes, problemas, fome. Os problemas de família foram terríveis, e a rivalidade que teve com os irmãos na presença de Samuel parece pouca coisa perto do drama com os próprios filhos. O estresse quebra até o coração mais resistente.
Davi, porém, tinha um remédio: confiar no Deus vivo. Esse era o segredo da vida dele. Uma das canções mais bonitas que compôs diz:
O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza, o meu libertador; o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha salvação, o meu alto refúgio. Ó Deus, tu me salvas da violência. Invoco o Senhor, digno de ser louvado, e serei salvo dos meus inimigos.
O jeito básico de Davi lidar com os problemas era: eu oro, eu confio, eu continuo andando. E você? Como resiste ao teste das batalhas da vida? Fica estressado ou confia em Deus? As batalhas vão vir, tenha certeza disso. Use-as para aproximar o seu coração do Salvador. O missionário Hudson Taylor, que serviu na China, escreveu que não importa o tamanho da pressão. O que importa é se ela afasta você de Deus ou o empurra para mais perto do coração dele.
A pressão da vida está atraindo você para o Salvador ou afastando você dele?
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