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Paralisados pelo medo: Sermão em 1 Samuel 17:1-31

Diego Gonçalves23 min de leitura4.531 palavras

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Neste texto

Ideia central

O medo mede o gigante pela nossa força e nos deixa parados; a fé mede o gigante pelo Deus vivo e nos põe de pé. A história de 1 Samuel 17 poderia ter sido a de Saul contra Golias, mas o homem mais alto de Israel passou quarenta dias sem sair do lugar. O que o medo tirou de Saul é o que ele tenta tirar de nós: o tempo, a verdade do nosso culto e a firmeza na luta.

Texto bíblico

1 E os filisteus juntaram seus exércitos para a guerra, e congregaram-se em Socó, que é de Judá, e assentaram o campo entre Socó e Azeca, em Efes-Damim. 2 E também Saul e os homens de Israel se juntaram, e assentaram o acampamento no vale de Elá, e ordenaram a batalha contra os filisteus. 3 E os filisteus estavam sobre o um monte da uma parte, e Israel estava sobre o outro monte da outra parte, e o vale entre eles:

4 Saiu então um homem do acampamento dos filisteus que se pôs entre os dois campos, o qual se chamava Golias, de Gate, e tinha de altura seis côvados e um palmo. 5 E trazia um capacete de bronze em sua cabeça, e ia vestido com couraças de placas: e era o peso da couraça cinco mil siclos de bronze: 6 E sobre suas pernas trazia caneleiras de ferro, e escudo de bronze a seus ombros. 7 A haste de sua lança era como um lançador de tear, e tinha o ferro de sua lança seiscentos siclos de ferro: e ia seu escudeiro diante dele.

8 E parou-se, e deu vozes aos esquadrões de Israel, dizendo-lhes: Para que saís a dar batalha? não sou eu o filisteu, e vós os servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que venha contra mim: 9 Se ele puder lutar comigo, e me vencer, nós seremos vossos servos: e se eu puder mais que ele, e o vencer, vós sereis nossos servos e nos servireis. 10 E acrescentou o filisteu: Hoje eu desafiei o acampamento de Israel; dá-me um homem que lute comigo. 11 E ouvindo Saul e todo Israel estas palavras do filisteu, perturbaram-se, e tiveram grande medo.

(1 Samuel 17:1-11, Bíblia Livre)

12 E Davi era filho daquele homem efrateu de Belém de Judá, cujo nome era Jessé, o qual tinha oito filhos; e era este homem no tempo de Saul, velho, e de grande idade entre os homens. 13 E os três filhos mais velhos de Jessé haviam ido a perseguir a Saul na guerra. E os nomes de seus três filhos que haviam ido à guerra, eram, Eliabe o primogênito, o segundo Abinadabe, e o terceiro Samá. 14 E Davi era o mais novo. Seguiram, pois, os três maiores a Saul. 15 Porém Davi ia e voltava de perto de Saul, para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém. 16 Vinha, pois, aquele filisteu pela manhã e à tarde, e apresentou-se por quarenta dias.

17 E disse Jessé a Davi seu filho: Toma agora para teus irmãos um efá deste grão tostado, e estes dez pães, e leva-o logo ao acampamento a teus irmãos. 18 Levarás também estes dez queijos de leite ao capitão, e cuida de ver se teus irmãos estão bem, e toma garantias deles. 19 E Saul e eles e todos os de Israel, estavam no vale de Elá, lutando com os filisteus. 20 Levantou-se, pois, Davi de manhã, e deixando as ovelhas ao cuidado de um guarda, foi-se com sua carga, como Jessé lhe havia mandado; e chegou ao entrincheiramento do exército, o qual havia saído em ordem de batalha, e tocava alarme para a luta. 21 Porque tanto os israelitas como os filisteus estavam em ordem de batalha, esquadrão contra esquadrão. 22 E Davi deixou de sobre si a carga em mão do que guardava a bagagem, e correu ao esquadrão; e chegado que houve, perguntava por seus irmãos, se estavam bem.

23 E estando ele falando com eles, eis que aquele homem que se punha em meio dos dois acampamentos, que se chamava Golias, o filisteu de Gate, saiu dos esquadrões dos filisteus, e falou as mesmas palavras; as quais ouviu Davi. 24 E todos os homens de Israel que viam aquele homem, fugiam de sua presença, e tinham grande temor.

(1 Samuel 17:12-24, Bíblia Livre)

25 E cada um dos de Israel dizia: Não vistes aquele homem que saiu? Ele se adianta para provocar a Israel. Ao que lhe vencer, o rei lhe enriquecerá com grandes riquezas, e lhe dará sua filha, e fará livre de tributos a casa de seu pai em Israel. 26 Então falou Davi aos que junto a ele estavam, dizendo: Que farão ao homem que vencer a este filisteu, e tirar a humilhação de Israel? Porque quem é este filisteu incircunciso, para que provoque aos esquadrões do Deus vivente? 27 E o povo lhe respondeu as mesmas palavras, dizendo: Assim se fará ao homem que o vencer.

28 E ouvindo-lhe falar Eliabe seu irmão mais velho com aqueles homens, Eliabe se acendeu em ira contra Davi, e disse: Para que hás descido aqui? e a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Eu conheço tua soberba e a malícia de teu coração, que vieste para ver a batalha. 29 E Davi respondeu: Que fiz eu agora? Não são estas apenas palavras? 30 E apartando-se dele até outros, falou o mesmo; e responderam-lhe os do povo como da primeira vez. 31 E foram ouvidas as palavras que Davi havia dito, as quais quando referiram diante de Saul, ele o fez vir.

(1 Samuel 17:25-31, Bíblia Livre)

Para entender o texto

Vale de Elá. Elá quer dizer “terebinto”, uma árvore grande e de sombra larga, da mesma família do pistache. O vale é um corredor que sobe da planície do litoral, onde ficavam as cidades dos filisteus, para a região montanhosa de Judá, onde ficam Belém e Hebrom. Socó e Azeca eram cidades de Judá (Josué 15:35). Ou seja, quando o capítulo abre, os filisteus já estão acampados dentro da terra de Israel.

O “homem do meio”. No versículo 4, a Bíblia Livre diz que Golias “se pôs entre os dois campos”. Em hebraico a expressão é ish habbenayim, ao pé da letra “o homem do entre”: o campeão que desce para o espaço vazio entre dois exércitos e luta sozinho em nome de todos. O versículo 9 explica a regra desse combate de representantes. Quem vencer o duelo vence a guerra pelo seu povo inteiro.

As medidas. O côvado tinha uns 45 centímetros, a distância do cotovelo à ponta dos dedos, e o palmo, uns 22. Seis côvados e um palmo dão perto de 2,90 metros. O siclo pesava cerca de 11 gramas, então a couraça de cinco mil siclos passava dos 55 quilos, e só a ponta de ferro da lança pesava uns 7. O efá de grão tostado que Davi leva aos irmãos dava algo como 22 litros.

“Provocar” e “humilhação”. O verbo que a Bíblia Livre traduz por “desafiei” no versículo 10 e por “provocar” nos versículos 25 e 26 quer dizer insultar, cobrir de vergonha. A “humilhação” do versículo 26 vem da mesma raiz. Golias não está só chamando para a briga: ele está zombando.

“Incircunciso”. A circuncisão era o sinal da aliança de Deus com Abraão e a sua descendência (Gênesis 17:11). Quando Davi chama Golias de “incircunciso”, a palavra soa menos como xingamento e mais como diagnóstico: aquele homem está fora da aliança, sem o Deus de Israel ao seu lado.

O texto em contexto

O capítulo 17 vem logo depois de duas notícias graves sobre Saul. No capítulo 15, depois de desobedecer à ordem de Deus, o próprio Saul confessa o motivo: “temi ao povo, consenti à voz deles” (1 Samuel 15:24). Não era a primeira vez. Em Gilgal ele já tinha oferecido o holocausto por conta própria porque viu o povo se espalhando e teve medo dos filisteus (1 Samuel 13:11-12). O medo vinha governando o rei havia tempo.

No capítulo 16, Samuel unge Davi em Belém, e o texto coloca lado a lado duas frases que explicam o vale de Elá:

13 E Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o dentre seus irmãos: e desde aquele dia em diante o espírito do SENHOR tomou a Davi. Levantou-se logo Samuel, e voltou-se a Ramá. 14 E o espírito do SENHOR se afastou de Saul, e atormentava-lhe o espírito mau da parte do SENHOR.

(1 Samuel 16:13-14, Bíblia Livre)

Lembre também por que Israel pediu um rei. O povo queria ser “como todas as nações”, com um rei que “sairá diante de nós, e fará nossas guerras” (1 Samuel 8:20). E Saul tinha o físico que o povo esperava: quando foi apresentado, “desde o ombro acima era mais alto que todo o povo” (1 Samuel 10:23). Se havia em Israel um homem que, pelo tamanho e pelo cargo, devia descer ao vale, era ele.

Os filisteus eram um povo vindo do mar, instalado no litoral em cinco cidades: Gaza, Asdode, Ascalom, Gate e Ecrom. Dominavam o ferro e não deixavam Israel ter ferreiros (1 Samuel 13:19). Golias era de Gate. Estamos por volta do ano 1000 antes de Cristo, numa fronteira disputada palmo a palmo. As escavações de Khirbet Qeiyafa, uma fortaleza dessa época no alto do vale de Elá, mostram como aquela região era vigiada.

Considerações interpretativas

A altura de Golias. O texto hebraico que está nas nossas Bíblias diz seis côvados e um palmo. A tradução grega antiga, a Septuaginta, um manuscrito de Samuel achado em Qumran e o historiador Josefo trazem quatro côvados e um palmo, perto de 2 metros. Seja qual for a leitura original, Golias era um gigante para a época, em que um homem comum mal passava de 1,60 metro. A mensagem do texto fica de pé com qualquer uma das duas medidas.

Um trecho que falta no grego. O principal manuscrito da Septuaginta, o Códice Vaticano, não traz os versículos 12 a 31 nem o final do capítulo (17:55 a 18:5). Isso ajuda a entender uma tensão conhecida: em 16:21 Davi já serve Saul como escudeiro, e no fim do capítulo 17 Saul pergunta de quem ele é filho. Uns estudiosos acham que o texto hebraico juntou dois relatos da mesma história; outros, que o tradutor grego cortou para harmonizar. Este sermão segue o texto hebraico, que é o das nossas Bíblias, e o trecho que falta no grego é justamente o que mostra o acampamento de Israel por dentro.

A ironia do versículo 19. O texto diz que Saul e os seus estavam no vale “lutando com os filisteus”. Ninguém estava lutando. Há quarenta dias o exército fazia fila, gritava e voltava para a barraca.

Em quem nos vemos na história? Há duas leituras. Uma lê Davi como exemplo de fé: seja como ele e enfrente os seus gigantes. A outra lê Davi como figura de Cristo, o campeão que desce ao vale sozinho e vence por todo o povo, e nos coloca no lugar de Israel, que treme no alto do monte. As duas têm razão em parte, e a ordem importa. Primeiro Cristo, que venceu por nós o combate que nenhum de nós podia vencer (Hebreus 2:14-15). Depois Davi, como exemplo de quem confia nesse Deus. E um cuidado: Golias era inimigo de Deus e do seu povo. O texto não serve para chamar de “gigante” qualquer obstáculo aos nossos projetos pessoais.

Introdução

Quem já passou uma tarde na piscina de um clube conhece a cena. O menino sobe a escada do trampolim de cinco metros, anda até a ponta da prancha, olha para baixo e trava. Atrás dele começa a fila. Os amigos gritam lá de baixo. Ele dá um passo para frente, dois para trás. Depois de muito tempo, desce de costas pela mesma escada por onde subiu, com a cara vermelha. A água estava lá. O salva-vidas estava lá. O professor estava lá. Faltou o pulo.

Todo mundo conhece a história de Davi e Golias. Já ouviu alguém contar a história de Saul e Golias? Não ouviu, porque ela nunca aconteceu. E podia ter acontecido. Saul era o rei. Era o mais alto de Israel. Era o homem que o povo tinha pedido justamente para lutar as suas guerras. Só que, quando o gigante desceu ao vale, Saul subiu no trampolim e não pulou. Quarenta dias depois, quem desceu ao vale foi um rapaz que tinha ido levar pão e queijo ao acampamento.

O medo tem esse efeito. Ele não nos tira do acampamento; nos deixa lá dentro, de armadura, fazendo fila. E por isso precisamos olhar com calma para este texto. Vamos ver como o medo mede o gigante, o que o medo rouba de quem cede a ele e o que a fé enxerga que o medo não vê.

I. O medo mede o gigante com a régua errada (vv. 1-11)

A. Saul se mediu pelo tamanho

Veja o que o texto descreve com mais cuidado nos versículos 4 a 7. Ele quase não fala do caráter de Golias nem da história dele, mas descreve o equipamento item por item. Capacete, couraça, caneleiras, escudo, lança, escudeiro. O narrador nos faz olhar Golias como os israelitas olhavam: de baixo para cima, peça por peça.

Pense nos números. Com quase 2,90 metros, Golias passava da altura de uma trave de futebol, que tem 2,44. Só a couraça pesava mais que um saco de cimento. A lança tinha a haste grossa como a vara de um tear. E na frente dele vinha outro homem carregando o escudo. Quem olhava aquilo do alto do monte fazia a conta que qualquer um faria: “Ninguém aqui tem tamanho para isso.”

Esse é o problema de Saul. Ele era a régua de Israel. Era o mais alto, o mais forte, o ungido. Quando o homem mais alto do povo se põe ao lado de Golias, ele descobre que falta mais de meio metro. Saul se mediu e se achou pequeno. O que ele não fez foi medir o gigante pelo tamanho do Deus de Israel.

B. A voz do gigante ocupou o silêncio

O versículo 11 diz que Saul e todo Israel ficaram com grande medo “ouvindo… estas palavras do filisteu”. Golias falava, e Israel só ouvia Golias. Não há no capítulo uma oração de Saul. Não há um sacerdote consultado, nem uma pergunta ao Senhor. O Espírito tinha se afastado do rei (16:14), e onde Deus não é ouvido, a voz do inimigo fala mais alto.

Isso é ainda mais triste porque, poucos capítulos antes, o filho de Saul tinha mostrado o caminho. Diante de outra guarnição filisteia, Jônatas disse ao seu escudeiro: “não é difícil ao SENHOR salvar com multidão ou com pouco número” (1 Samuel 14:6). A fé estava dentro da casa do rei. O rei é que não estava ouvindo.

C. Aplicação: o inimigo é maior do que nós, e Deus é maior do que ele

Você também está num vale. Paulo diz que a nossa luta não é contra pessoas:

12 Pois temos de lutar não contra carne e sangue, mas sim contra os domínios e poderes, contra os senhores destas trevas, contra os males espirituais nos lugares celestes.

(Efésios 6:12, Bíblia Livre)

E Pedro avisa que esse adversário não brinca: “anda ao redor, rugindo como um leão, buscando a quem possa devorar” (1 Pedro 5:8). Seria ingenuidade dizer que ele é pequeno. Pela nossa régua, ele é maior. Ele conhece as nossas fraquezas, os nossos pecados de estimação, os nossos medos.

Só que a régua de Saul não serve. Deus nunca mandou o seu povo vencer pela comparação de tamanho. Por isso a primeira pergunta para você hoje é esta: qual voz ocupa o seu silêncio? Quando o gigante grita, você escuta o quê? Quem passa a semana inteira ouvindo só o noticiário, a ameaça do patrão e a própria ansiedade vai tremer como Israel tremeu. Quem abre a Bíblia e ora, ainda que com medo, começa a medir as coisas por outra régua.

II. O medo rouba o que tem mais valor (vv. 12-24)

A. O medo rouba o tempo

O versículo 16 diz que Golias vinha “pela manhã e à tarde, e apresentou-se por quarenta dias”. Quarenta dias é o tempo de uma quaresma inteira. Duas vezes por dia, o mesmo homem, o mesmo grito, a mesma afronta. Faça a conta: oitenta oportunidades. Oitenta vezes Israel podia ter descido ao vale, e oitenta vezes ficou no monte.

E pense no que esses quarenta dias custaram. Homens longe de casa, plantações sem cuidado, famílias esperando notícia. Jessé, já velho, mandava comida para os filhos no front sem saber se estavam vivos (vv. 17-18). O medo não deixava Israel perder a guerra, mas também não deixava ganhar. Prendia todo mundo num meio-termo caro.

Quanto tempo o medo já tirou de você? O pedido de perdão que você ensaia há anos. A conversa com o filho que você sempre adia. O chamado para servir que você responde com “ano que vem”. Jesus contou de um servo que recebeu um talento e devolveu o mesmo talento, enterrado e sem fruto, e a desculpa dele foi esta: “atemorizado, fui e escondi o teu talento na terra” (Mateus 25:25). Por isso Paulo escreve:

15 Portanto vede cuidadosamente como vos conduzis, não como tolos, mas sim como sábios; 16 aproveitai o tempo, porque os dias são maus.

(Efésios 5:15-16, Bíblia Livre)

B. O medo esvazia o culto

Quando Davi chega, o exército está saindo “em ordem de batalha” e “tocava alarme para a luta” (v. 20). Esquadrão contra esquadrão (v. 21). Grito de guerra, fileira formada, lança na mão. E nenhuma batalha. Era como um time que fica com a bola o jogo inteiro, toca de lado, toca para trás, e não chuta a gol nenhuma vez. Muita posse de bola e nenhum gol.

Isso também acontece com quem cede ao medo dentro da igreja. Continuamos indo ao culto. Cantamos as músicas. Fechamos os olhos na oração. Ouvimos o sermão e até concordamos com ele. Só que já não esperamos que nada aconteça. Não arriscamos nada por Deus. Paulo descreve gente assim: “têm uma aparência de devoção divina, mas negam o poder dela” (2 Timóteo 3:5).

O problema dos israelitas nunca foi falta de forma. A forma estava perfeita. O que faltava era a convicção de que aquilo tudo era de verdade, de que havia um Deus vivo naquele acampamento. Quando o medo se instala, a vida cristã vira ensaio permanente. E você sabe disso. Há quanto tempo a sua fé só ensaia?

C. O medo nos faz recuar

No versículo 23 Golias sai mais uma vez, e Davi ouve pela primeira vez. No versículo 24 o texto diz que todos os homens de Israel “fugiam de sua presença”. Golias não tinha dado um passo contra eles. Ele só falou. E bastou a fala para que um exército inteiro desse as costas.

O medo que começa parado termina andando para trás. Quem não avança acaba perdendo o terreno que já tinha. Tem crente que pendurou as chuteiras. Levou uma pancada da vida, uma decepção com a liderança, uma perda que não entendeu, e um dia disse: “Para mim chega.” E o inimigo, que não tirou férias, ficou com o terreno.

A Palavra não nos manda vencer sozinhos. Ela nos manda ficar de pé com aquilo que Deus nos dá:

13 Portanto pegai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mal, e depois que fizerdes tudo, continuar firmes.

(Efésios 6:13, Bíblia Livre)

Se você saiu do campo, este texto é um convite para voltar. A igreja precisa de você no lugar onde Deus colocou você.

III. A fé enxerga o que o medo não vê (vv. 25-31)

A. A fé vê Deus no centro da afronta

Nos versículos 25 e 26, Davi e os soldados olham para o mesmo homem e veem coisas diferentes. Os soldados dizem: “Ele se adianta para provocar a Israel.” Davi pergunta: “quem é este filisteu incircunciso, para que provoque aos esquadrões do Deus vivente?” Os soldados falam do exército de Saul. Davi fala do exército de Deus.

No capítulo anterior, quando Samuel se impressionou com a altura de Eliabe, Deus lhe disse que “o homem olha o que está diante de seus olhos, mas o SENHOR olha o coração” (1 Samuel 16:7). Davi olha o vale desse jeito, com os olhos de Deus. Por isso não se impressiona com a armadura. Para ele, Golias é só um filisteu incircunciso, um homem fora da aliança, servo de Dagom, o mesmo ídolo que já tinha caído de cara no chão diante da arca (1 Samuel 5). E do outro lado está o Deus vivente.

Davi tinha medo? O texto não diz. Mas sabemos que, em outra ocasião, nas mãos dos filisteus em Gate, a terra de Golias, ele orou: “No dia em que eu tiver medo, eu confiarei em ti” (Salmos 56:3). Fé não é ausência de medo, mas confiança que fala mais alto do que ele. O que mudou em Davi foi o lugar de Deus. Quando o nome de Deus está em jogo, o zelo pela honra dele pesa mais do que o medo por nós mesmos.

E você? O que dói mais em você: o risco que você corre ou a afronta que o nome de Deus sofre no lugar onde você vive?

B. A fé conhece um Rei melhor

O versículo 25 conta a recompensa que Saul prometeu: riqueza, a mão da princesa e isenção de impostos para a família inteira. Era muita coisa. Só que há um detalhe. Saul oferecia prêmio, mas não oferecia ajuda. Quem descesse ao vale desceria sozinho. O máximo que o rei faria depois seria emprestar uma armadura que não servia.

O nosso Rei é diferente. Jesus não ficou no alto do monte esperando um voluntário. Ele mesmo desceu ao vale. Ele foi o “homem do meio” que lutou por todos nós contra o inimigo que nenhum de nós podia vencer:

14 Portanto, uma vez que os filhos compartilham do sangue e da carne, também ele, semelhantemente, participou das mesmas coisas, a fim de pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo; 15 e libertar a todos os que, por medo da morte, estavam sujeitos à servidão durante a vida toda.

(Hebreus 2:14-15, Bíblia Livre)

Repare na última frase: Cristo veio libertar quem vivia escravo do medo. Na cruz ele “despojou os domínios e autoridades” e “triunfou sobre eles” (Colossenses 2:15). A vitória é toda dele, do começo ao fim. Ele não nos pede que completemos o que faltou; nos chama a confiar nele e a ficar de pé na vitória que ele já ganhou, com a força que ele mesmo dá. E as recompensas do Rei Jesus fazem as de Saul parecerem pouca coisa. O salmista manda não esquecer “nenhum dos benefícios dele”, o Deus que perdoa, sara, resgata a vida da perdição e coroa “com bondade e misericórdia” (Salmos 103:2-4). E Jesus promete:

21 Ao que vencer, eu lhe concederei que se sente comigo em meu trono; assim como eu também venci, e me sentei com meu Pai no trono dele.

(Apocalipse 3:21, Bíblia Livre)

Quem vence, vence com ele e nele, permanecendo nele pela fé. Saul devia ter lembrado da oração de Ana, que abre o livro dele: o Senhor “dará força a seu Rei, E exaltará o poder de seu ungido” (1 Samuel 2:10). Força para a batalha nunca foi algo que o rei precisasse fabricar. Era algo que Deus dava.

C. A fé não para na primeira voz contrária

Então vem o golpe que Davi não esperava, e ele veio de casa, e não do gigante. Eliabe, o irmão mais velho, ouve Davi conversando com os soldados e explode: “Eu conheço tua soberba e a malícia de teu coração” (v. 28). Ele humilha o caçula na frente de todos, chama aquele rebanho de “poucas ovelhas” e acusa Davi de ter vindo só para assistir.

Eliabe é aquele que Samuel achou que seria o ungido, por causa da aparência e da altura, e de quem Deus disse: “eu o rejeito” (16:6-7). Agora vemos o que Deus tinha visto no coração dele. Talvez Eliabe tenha falado assim porque Davi, com uma pergunta, deixou à mostra o medo de todos eles, e quem tem medo não gosta de ser lembrado disso.

Veja a resposta de Davi: “Que fiz eu agora? Não são estas apenas palavras?” (v. 29). E ele vira para outro lado e continua perguntando (v. 30). Ele não entra em briga de família no meio de uma guerra. Tinha um gigante para enfrentar, e não ia gastar força com o irmão.

O povo diz que santo de casa não faz milagre. O próprio Jesus disse que “não há profeta sem honra, a não ser em sua terra, e em sua casa” (Mateus 13:57). A voz que mais desanima você nem sempre vem do inimigo declarado. Muitas vezes vem de alguém próximo, da família ou da própria igreja. “Quem você pensa que é?” “Isso não é para você.” Foi o que dez dos doze espias fizeram em Cades: “Não poderemos subir contra aquele povo; porque é mais forte que nós” (Números 13:31). Viram gigantes e se acharam “como gafanhotos” (13:33). Só Calebe fez o povo calar e disse: “Subamos logo” (13:30).

Não deixe que o medo dos outros decida a sua obediência. A palavra de Deus a Josué serve para você: “não temas nem desmaies, porque o SENHOR teu Deus será contigo onde quer que fores” (Josué 1:9). E veja como o capítulo termina o nosso trecho: as palavras de Davi chegaram até Saul, e Saul mandou chamar o rapaz (v. 31). A pergunta de fé que ninguém quis ouvir no acampamento chegou até a tenda do rei.

Conclusão

Lembra do menino no trampolim? Saul subiu a escada. Vestiu a armadura, formou a fileira, tocou o alarme, ofereceu prêmio. E desceu de costas, quarenta dias seguidos. Não por falta de tamanho, mas por falta de confiança no Deus que estava com ele. A história de Saul e Golias ficou sem ser escrita.

Paulo escreveu ao jovem Timóteo: “Deus não nos deu espírito de medo; mas sim de força, de amor, e de moderação” (2 Timóteo 1:7). Então deixe que o texto pergunte a você:

O gigante grita mais alto? Deus é maior. O tempo já passou? Deus é maior. O culto esfriou? Deus é maior. A voz de casa desanima? Deus é maior.

Saul olhou para o gigante e se achou pequeno; Davi olhou para Deus e achou o gigante pequeno.

Por isso, antes de fechar a Bíblia hoje, faça três coisas. Dê nome ao medo que tem paralisado você, diante de Deus, em oração. Escolha um passo de obediência que você vem adiando e marque o dia de dar esse passo nesta semana. E, se você saiu do campo, volte: procure o seu pastor, a sua igreja, o seu lugar de serviço. Não espere o medo passar. Desça ao vale com o medo e com Deus.

Vamos orar.

Senhor, confessamos que muitas vezes medimos os nossos gigantes pela nossa força e nos esquecemos de ti. Perdoa-nos pelos dias perdidos, pelo culto sem verdade e pelas vezes em que demos as costas à luta. Obrigado porque Jesus desceu ao vale por nós e venceu o inimigo que nós não podíamos vencer. Dá-nos o teu Espírito, que não é de medo, mas de força, de amor e de moderação. Faz-nos ouvir a tua voz mais alto do que a voz do gigante, e dá-nos coragem para obedecer hoje. Em nome de Jesus, amém.

Este sermão foi escrito a partir de uma mensagem de Ray Fowler, usada como fonte de pesquisa.

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