
1 Coríntios 13 e os relacionamentos: o amor não guarda print
Navegando relacionamentos
Quantos prints de conversa você tem guardados no celular? Não estou falando de meme. Estou falando daquele print que a gente tira “só pra garantir”. A amiga que falou de você no grupo. O colega que prometeu e não cumpriu. O irmão que disse aquela coisa que você não esqueceu até hoje. Tá tudo lá na galeria, bem organizadinho, com data e hora.
E aí, quando a briga começa, o que a gente faz? Abre a galeria e joga na cara: “olha aqui o que você falou em março”.
Confesso que eu também tenho a minha galeria. Talvez não no celular, mas na cabeça tem uma pasta inteira de coisa que me fizeram e que eu não esqueci. Por isso relacionamento é tão complicado, né? Amizade, família, paixão… a gente tropeça em todos. Vamos pensar em como navegar nos relacionamentos do jeito de Deus, porque a Bíblia tem uma palavra bem direta sobre essa galeria.
O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
(1Co 13:4-7, ARA)
A gente costuma ouvir esse texto em casamento, né? Só que Paulo não escreveu pra um casamento. Escreveu pra uma igreja que vivia brigando. Uns diziam “eu sou de Paulo”, outros diziam “eu sou de Apolo” (1Co 1:12). Tinha irmão processando irmão (1Co 6:1-8). Tinha gente disputando quem tinha o dom mais importante. Ou seja, o capítulo 13 nasceu no meio de uma briga, e é por isso que ele serve tão bem pra gente.
O amor tem pavio longo
Você já soltou bombinha em festa junina? Tem umas que você acende e dá tempo de correr. Tem outras que você acende e estoura quase na mão. Pavio curto.
Paulo começa a lista dizendo que “o amor é paciente”. A palavra que ele usa no grego é makrothymeō, que ao pé da letra quer dizer “ânimo longo”. Ou seja, pavio longo: o amor demora pra estourar.
Quem tem pavio curto? Eu levanto a mão primeiro. E onde é que o pavio da gente queima mais rápido? Em casa. Paciência com o irmão mais novo que mexe nas suas coisas. Paciência com a mãe que pede pela terceira vez pra arrumar o quarto. Paciência com o pai que não entende o que você está passando. Paciência com o amigo que visualiza e não responde.
Depois Paulo diz que o amor é “benigno”, que quer dizer bondoso. Só que bondoso na prática, não só no sentimento. O amor não só segura a explosão, mas também faz alguma coisa boa no lugar dela. Segurar a resposta grossa é paciência. Mandar uma mensagem perguntando se o amigo está bem é bondade.
Quem, na sua casa, vai precisar do seu pavio longo essa semana?
O amor não fica no centro da foto
Quando alguém posta uma foto da turma, qual é a primeira pessoa que você procura? Você mesmo, né? Se você saiu bem, a foto está ótima. Se saiu de olho fechado, a foto tem que ser apagada. Todo mundo faz isso. Eu também faço.
Agora olha o que Paulo coloca na lista. O amor “não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses”. Parece complicado, mas é simples. “Ufanar-se” quer dizer se gabar, contar vantagem. “Ensoberbecer-se” quer dizer se achar. “Conduzir-se inconvenientemente” é ser grosso, sem educação. E “não procurar os seus interesses” quer dizer não querer ficar no centro de tudo.
O ciúme aparece quando a gente começa a se comparar. Sabe o filho da amiga da sua mãe, que tira dez em tudo e ainda ajuda em casa sem ninguém pedir? Quando ele aparece na conversa, alguma coisa aperta aqui dentro.
O amor não precisa ser o melhor da turma, não precisa ganhar toda discussão e não precisa sair bem em toda foto. O amor consegue ficar feliz quando o outro se dá bem.
Isso vale muito pra paixão também. Tem relacionamento que parece amor, mas no fundo a pessoa só quer alguém que faça ela ficar bem na foto. Amar alguém não é usar a pessoa pra se sentir melhor, mas querer o bem dela.
Em qual relacionamento você tem ficado no centro da foto?
O amor não guarda print
Vamos voltar pra galeria. Paulo diz que o amor “não se ressente do mal”. A palavra que ele usa no grego é logizomai, palavra de contabilidade. É o verbo de quem anota uma conta no caderno pra cobrar depois. Ou seja, o amor não fica anotando o mal que recebeu. Não guarda print pra jogar na cara depois.
Só que o versículo continua: o amor “não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”. Regozijar quer dizer ficar feliz, comemorar. Ou seja, perdoar não quer dizer fingir que nada aconteceu. O amor chama o errado de errado.
E aqui eu preciso falar uma coisa bem séria. Se alguém está te machucando de verdade, te ameaçando ou te humilhando, amar não quer dizer ficar quieto. Isso a gente leva pra um adulto de confiança: os seus pais, o pastor, alguém da igreja. O print que Paulo tem em mente é outro. É aquela conta pequena que você cobra de alguém há meses. A pessoa já pediu desculpa, e você ainda joga na cara.
Perdoar não é apagar a memória, mas parar de cobrar a conta. Qual é a conta que você precisa parar de cobrar?
Um amor que a gente não tem sozinho
Por fim, Paulo fecha a lista assim: o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. “Tudo crê” não quer dizer ser bobo e acreditar em qualquer coisa, mas escolher acreditar no melhor da pessoa em vez de presumir o pior.
Faz um teste. Pega o versículo 4 e troca a palavra “amor” pelo seu nome: “Fulano é paciente, Fulano é benigno, Fulano não procura os seus interesses…”. Como é que fica? Quando eu faço isso com o meu nome, eu travo logo no primeiro item.
Agora troca pelo nome de Jesus. Jesus é paciente. Jesus é benigno. Jesus não procurou os seus interesses. Jesus tudo suportou, até a cruz. Ou seja, esse texto não é uma lista de cobrança, mas um retrato de Jesus.
João diz assim: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4:19). A gente não ama pra Deus amar a gente. A gente ama porque ele já amou. E Deus não só perdoa, mas também muda o coração da gente pra amar do jeito dele. John Wesley, lá no século XVIII, dizia que o alvo da vida cristã é um coração tomado pelo amor a Deus e ao próximo. Isso não vem da força de vontade, mas da graça que Deus vai trabalhando na gente todo dia.
Por isso, quando faltar paciência, a gente pede. Quando faltar sabedoria, a gente pede. Tiago diz que Deus dá sabedoria a todos com generosidade e “nada lhes impropera” (Tg 1:5). “Impropera” quer dizer jogar na cara. Deus é o único que tinha todos os motivos pra jogar na cara, e não joga.
A galeria de Deus
Agora pensa na galeria de Deus. Se tem alguém que teria print de tudo, esse alguém é ele. Cada mentira. Cada resposta grossa. Cada vez que a gente ficou no centro da foto. E o que Deus fez com esses prints?
Paulo responde: Jesus cancelou o escrito de dívida que era contra nós e o pregou na cruz (Cl 2:14). “Escrito de dívida” era o papel onde ficava anotado o que a pessoa devia. Ou seja, Deus tinha todos os prints da gente e, em vez de jogar na nossa cara, pregou na cruz.
Então, como é que a gente navega nos relacionamentos? E quando o seu amigo visualizar e não responder? A gente ama primeiro. E quando a sua mãe pedir pela terceira vez? A gente ama primeiro. E quando alguém sair melhor do que você na foto? A gente ama primeiro. E quando a galeria estiver cheia de prints? A gente ama primeiro.
Por quê? Porque ele amou a gente primeiro. Quem foi amado primeiro pode amar primeiro. Tomara que a gente saia daqui hoje com a galeria um pouco mais leve.
Senhor, tu conheces a galeria que cada um de nós carrega. Tu sabes as contas que cobramos e as que devemos. Obrigado porque não guardaste os nossos prints, mas os pregaste na cruz do teu Filho. Dá-nos um amor de pavio longo. Livra-nos de querer o centro da foto. Ensina-nos a perdoar sem chamar o errado de certo. E enche o nosso coração do teu amor, pra amarmos porque tu nos amaste primeiro. Em nome de Jesus, amém.
- Sermão
- 1Coríntios
- Amor
- Perdão