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HistóriaIdade Média1 de 6

Cisma do Ocidente: quando a cristandade teve três papas

O Cisma do Ocidente: Quando a cristandade teve três papas ao mesmo tempo

Diego Gonçalves7 min de leitura1.326 palavras

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Se você acha que a política moderna é confusa, a história da Igreja no final do século 14 tem muito a ensinar. Entre 1378 e 1417, a cristandade ocidental viveu um dos períodos mais surreais da sua trajetória: o Grande Cisma do Ocidente. Durante quase quatro décadas, a Europa não teve apenas divisões teológicas; ela teve dois, e, por um tempo, três, papas reinando em simultâneo, cada um afirmando ser o único vigário de Cristo na terra e cada um excomungando solenemente o rival e todos os fiéis que o seguiam.

Para entender como a Igreja se meteu nesse labirinto, a gente precisa voltar um pouco até o chamado “cativeiro de Avignon”. Por quase setenta anos, entre 1309 e 1377, os papas não moravam em Roma, mas na cidade de Avignon, no sul da França, governando sob a tutela direta da coroa francesa. Foi só em 1377 que o papa Gregório XI resolveu fazer as malas e transferir a cúria de volta para Roma. O problema é que a Cidade Eterna estava arruinada, as famílias da nobreza local viviam em pé de guerra e os cardeais, acostumados com o luxo e o clima ameno de Avignon, detestavam estar ali.

Para piorar a situação, Gregório XI morreu no início do ano seguinte, em março de 1378. E aí o barril de pólvora foi aceso.

O conclave do pânico

Quando os cardeais se reuniram no Vaticano em abril de 1378 para escolher o novo pontífice, as ruas de Roma ferveram. Uma multidão armada cercou o palácio aos gritos: “Romano o volemo, o almanco italiano!” — ou seja, ou escolhiam um romano de nascença, ou no mínimo um italiano, ou ninguém sairia vivo daquele prédio.

Aterrorizados com a possibilidade de serem linchados, os cardeais, que em sua maioria esmagadora eram franceses, correram para achar um nome de compromisso. Escolheram o arcebispo de Bari, Bartolomeo Prignano, um italiano respeitado pela sua capacidade administrativa, que adotou o nome de Urbano VI. Para acalmar o povo que invadiu o palácio antes do anúncio, chegaram a fantasiar um cardeal romano idoso com as vestes papais enquanto o verdadeiro eleito fugia pelos fundos para se proteger.

No começo, parecia que a crise tinha sido contornada. Só que Urbano VI se revelou um homem de temperamento intratável. Logo nos primeiros discursos, ele começou a humilhar publicamente os cardeais, chamando bispos de mentirosos e ladrões e ameaçando confiscar seus bens. O clima ficou insustentável em pouquíssimas semanas.

Os cardeais franceses bateram em retirada para a cidade de Fondi. Lá, declararam que a eleição de Urbano VI havia sido nula porque fora realizada sob coação e ameaça de morte da multidão romana. Em setembro do mesmo ano, reuniram-se e elegeram outro papa: o cardeal Robert de Genebra, que assumiu o nome de Clemente VII. Sem conseguir tomar Roma pelas armas, Clemente fugiu de volta para Avignon.

A partir daquele instante, a Igreja se partiu em duas. Urbano VI continuava em Roma; Clemente VII governava em Avignon. E o que era uma briga de bastidores da cúria virou uma crise geopolítica continental.

A Europa dividida em dois altares

A divisão acompanhou os interesses das potências políticas da época. A França, a Escócia, o reino de Castela e Aragão reconheceram o papa de Avignon. A Inglaterra (inimiga mortal da França na Guerra dos Cem Anos), o Sacro Império Romano-Germânico, Portugal e as repúblicas do norte da Itália ficaram com o papa de Roma.

A vida espiritual da população virou um pesadelo prático. Se um viajante saía da Alemanha em direção à França, ele saía de uma terra onde o papa de Roma era legítimo e entrava numa região onde aquele mesmo papa era considerado um usurpador herege. Como os dois pontífices se excomungavam mutuamente toda semana, pelas contas oficiais de cada lado, a outra metade da cristandade inteira estava formalmente condenada ao inferno. Paróquias passaram a ter dois padres, ordens religiosas tinham dois superiores gerais e dioceses inteiras tinham dois bispos disputando o dízimo no braço.

Os anos foram passando, os dois homens morreram, mas a divisão não acabou. Em Roma, os cardeais elegeram sucessores para Urbano; em Avignon, elegeram sucessores para Clemente. Ninguém cedia um palmo de poder.

Quando dois viraram três

Depois de três décadas desse escândalo público, a paciência da Europa esgotou. Em 1409, teólogos influentes e cardeais dos dois lados resolveram tomar a iniciativa e convocaram um concílio na cidade italiana de Pisa. A ideia parecia simples: reunir a liderança da Igreja, depor tanto o papa de Roma (Gregório XII) quanto o de Avignon (Bento XIII) por perjúrio e cisma, e eleger um único pontífice incontestável.

Elegeram Pedro Filargis, que assumiu como Alexandre V — sucedido no ano seguinte pelo cardeal Baldassarre Cossa, que virou João XXIII.

Só que esqueceram de combinar com os outros dois. Nem o papa de Roma nem o de Avignon aceitaram a decisão de Pisa. O resultado foi tragicômico: a Igreja, que já não conseguia conviver com dois chefes, agora tinha três papas governando ao mesmo tempo, cada um com o seu colégio de cardeais, a sua corte e o seu grupo de reinos apoiadores.

A solução no lago de Constança

A saída definitiva só começou a ser desenhada quando o imperador do Sacro Império, Sigismundo da Hungria, bateu na mesa e forçou a convocação de uma assembleia ecumênica geral em grande escala. O Concílio de Constança reuniu-se na atual Alemanha entre 1414 e 1418, transformando aquela pequena cidade às margens de um lago no centro político e religioso do mundo ocidental.

Para resolver o impasse institucional, o concílio publicou um documento revolucionário chamado Haec Sancta, proclamando que um concílio geral legitimamente reunido no Espírito Santo recebe o seu poder diretamente de Cristo, e que até mesmo o papa deve obediência às suas decisões em matéria de fé e de unidade da Igreja. Essa corrente ficou conhecida na teologia como conciliarismo.

Com essa autoridade em mãos, o Concílio de Constança agiu de forma cirúrgica:

  • O papa de Pisa, João XXIII, fugiu da cidade disfarçado, mas foi capturado, julgado por abusos graves e deposto em 1415.
  • O papa de Roma, Gregório XII, agiu com dignidade: reconheceu a autoridade do concílio para encerrar o cisma e renunciou voluntariamente ao pontificado.
  • O papa de Avignon, Bento XIII, refugiou-se numa fortaleza na Espanha e recusou qualquer acordo até o fim da vida; o concílio simplesmente o declarou herege obstinado e o destituiu em 1417.

Com o caminho limpo, em novembro de 1417 os bispos e cardeais reunidos em Constança elegeram o cardeal Oddone Colonna, que assumiu o nome de Martinho V. Pela primeira vez em quase quarenta anos, toda a cristandade ocidental reconhecia um único bispo de Roma.

A cicatriz que não sumiu

O Cisma do Ocidente terminou formalmente, mas o estrago moral e institucional na cristandade foi irreversível. A pretensão papal de ter poder absoluto sobre reis, reinos e consciências perdeu grande parte da sua aura de santidade. Para a mente de quem viveu aquela crise, ficou evidente que a estrutura eclesiástica de Roma podia ser tão corrupta, interesseira e mundana quanto qualquer corte imperial.

Além disso, foi no mesmo Concílio de Constança que o pré-reformador tcheco Jan Hus foi condenado à fogueira em 1415, mesmo tendo comparecido com um salvo-conduto assinado pelo próprio imperador Sigismundo. A promessa quebrada e a queima de Hus revoltaram a Boêmia e mostraram que a reforma que a Igreja precisava ia muito além de trocar a cadeira de um pontífice: era uma necessidade profunda de retornar ao Evangelho puro e à autoridade das Escrituras.

Cem anos depois de Constança, quando Martinho Lutero afixou as suas 95 teses em Wittenberg, a lembrança dos três papas disputando poder à força de excomunhão ainda ecoava viva na memória da Europa. O Cisma do Ocidente escancarou uma verdade que a Bíblia nunca escondeu: quando os homens colocam a sua confiança em tronos e instituições em vez de no Senhor da Igreja, o resultado é sempre o mesmo: divisões amargas, ruína moral e um deserto espiritual que só a verdade de Cristo pode curar.