
De desertores a defensores da fé: os apóstolos
De Desertores a Defensores da Fé
“Vendo a coragem de Pedro e de João, e percebendo que eram homens comuns e sem instrução, ficaram maravilhados e reconheceram que eles haviam estado com Jesus.”
— Atos 4:13
Se você colocar lado a lado dois retratos de Simão Pedro separados por apenas cinquenta dias, vai achar difícil acreditar que está olhando para o mesmo ser humano.
O primeiro retrato acontece em uma noite fria no pátio do palácio do sumo sacerdote em Jerusalém. Enquanto Jesus está sendo humilhado lá dentro, Pedro se aquece perto do fogo. Uma jovem criada se aproxima, olha no rosto dele e diz: “Você também estava com aquele galileu”. Pedro treme de medo. Nega uma vez, nega duas, e na terceira vez jura de pés juntos que nunca viu Jesus mais gordo na vida. O galo canta na mesma hora. Pedro sai tropeçando pela noite escura e chora lágrimas amargas de vergonha.
O segundo retrato acontece algumas semanas depois, em praça pública, no dia de Pentecostes. A cidade está apinhada de peregrinos do mundo inteiro. Pedro se levanta no meio dos apóstolos, encara os líderes religiosos que mandaram Jesus para a cruz e prega com uma autoridade tão cortante que milhares de pessoas caem em quebrantamento. Pouco depois, preso pelo Sinédrio e proibido de falar, ele olha nos olhos dos poderosos da nação e responde: “Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer a vocês antes do que a Deus”.
Como explicar um abismo desses? O que aconteceu entre o homem covarde que fugiu de uma empregada e o líder destemido que desafiou as maiores autoridades do país?
O material humano que Jesus escolheu
Para entender a força dessa virada, a gente precisa lembrar quem eram aqueles homens antes do chamado. Jesus não fundou o Seu movimento recrutando filósofos da Grécia, generais de Roma ou mestres consagrados das academias religiosas de Jerusalém. Ele chamou pescadores do mar da Galileia, um cobrador de impostos odiado pelo povo e trabalhadores braçais da periferia.
Eram homens jovens, sem formação teológica formal e sem influência política. Mais do que isso: eram homens profundamente limitados e falhos. O texto bíblico não esconde as fraquezas dos apóstolos por uma razão muito simples: a Bíblia não é um livro sobre a grandeza dos homens, mas sobre a graça de Deus que opera na fraqueza humana.
Eles brigavam pelo caminho pra ver quem sentaria no lugar mais alto do Reino. Tinham ciúme de quem expulsava demônios fora do grupo deles. No jardim do Getsêmani, quando Jesus pediu que orassem por uma hora, pegaram no sono três vezes seguidas. E na hora em que os soldados apareceram com espadas e tochas, todos, sem exceção, largaram o Mestre sozinho e correram para salvar a própria pele.
O encontro com a Ressurreição e a restauração
A primeira coisa que começou a mudar o rumo dessa história foi o fato inegociável do túmulo vazio. Se Jesus tivesse permanecido morto na cova de Jerusalém, o cristianismo teria terminado como tantas outras revoltas messiânicas fracassadas da Galileia: com discípulos dispersos, traumatizados e voltando cabisbaixos para os seus barcos de pesca.
Só que Jesus ressuscitou e apareceu vivo a eles. Ele comeu peixe assado com Pedro na praia e tratou a ferida da traição no mesmo ponto em que ela tinha sido aberta. Jesus não humilhou Pedro em público pelo fracasso do passado; Ele perguntou três vezes pelo amor dele e devolveu a ele a responsabilidade pastoral de apascentar o rebanho. O perdão de Deus sempre precede a missão. Antes de enviar Pedro para pregar às multidões, Cristo cuidou da alma partida de Pedro no silêncio da beira do lago.
Revestidos do poder do Alto
Mesmo depois da ressurreição, Jesus deu uma ordem curiosa aos apóstolos: não saiam pelo mundo ainda. Fiquem em Jerusalém e esperem. Eles tinham visto o Ressurreto, tinham recebido ensinamentos profundos sobre o Reino, mas ainda faltava o elemento essencial. Ninguém faz a obra de Deus confiando apenas na própria força moral.
No dia de Pentecostes, a promessa do Pai desceu sobre a Igreja. O Espírito Santo foi derramado não para criar um espetáculo religioso de autopromoção, mas para dar poder de testemunho. O Espírito transformou a compreensão daqueles homens, abriu a mente deles para as Escrituras e colocou nos seus lábios uma coragem santa que a morte já não conseguia intimidar.
Aqueles homens simples continuavam sendo pescadores sem diploma de retórica rabínica, mas tinham estado com Jesus e estavam cheios do Seu Espírito.
O chamado para hoje
A história dos primeiros discípulos confronta diretamente a nossa postura confortável e as nossas desculpas diárias. Quantas vezes a gente se esconde atrás das nossas fragilidades para não obedecer a Deus? Quantas vezes a gente acha que precisa ser brilhante, perfeito e impecável para poder servir ao Reino?
Deus não usa pessoas porque elas são extraordinárias; Ele usa pessoas comuns e quebradas para que a glória do poder pertença exclusivamente a Ele. O mesmo Senhor que resgatou Pedro do chão da covardia e o transformou em uma coluna viva da fé continua chamando homens e mulheres hoje. Ele não exige um histórico limpo de erros; Ele pede arrependimento sincero, amor verdadeiro e disposição para ser revestido pelo Seu Espírito para proclamar o Evangelho da graça em um mundo que precisa de salvação.
- Devocional
- Apóstolos
- Espiritualidade Cristã
- Discipulado