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SermõesSermões em Lucas8 de 12

Lucas 7a mulher que amou muito porque foi perdoada

O amor de quem entende o tamanho do perdão

Diego Gonçalves13 min de leitura2.553 palavras

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Neste texto

Convidado por um dos fariseus para jantar, Jesus foi à casa dele e reclinou-se à mesa. Ao saber que Jesus estava comendo na casa do fariseu, uma mulher pecadora daquela cidade trouxe um frasco de alabastro com perfume e se pôs atrás de Jesus, aos seus pés. Chorando, começou a molhar os pés dele com as suas lágrimas. Depois, ela os enxugou com os cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume.

Ao ver isso, o fariseu que o havia convidado disse a si mesmo: “Se este homem fosse profeta, saberia quem está tocando nele e que tipo de mulher ela é: uma pecadora.”

Então, Jesus lhe disse: “Simão, tenho algo para dizer a você.” “Diz, Mestre”, respondeu ele. “Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. Como nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, ele perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?” Simão respondeu: “Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior.” “Você julgou bem”, disse Jesus.

Em seguida, virou-se para a mulher e disse a Simão: “Vê esta mulher? Entrei na sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com lágrimas e os enxugou com cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés. Por isso, digo a você, ela amou muito porque seus muitos pecados lhe foram perdoados. Mas aquele a quem pouco foi perdoado pouco ama.”

Então, Jesus disse a ela: “Os seus pecados estão perdoados.” Os outros convidados começaram a dizer entre si: “Quem é este que até perdoa pecados?” Jesus disse à mulher: “A sua fé a salvou; vá em paz.”

(Lc 7:36-50, NVI)

Introdução

Imagine um gráfico que mede o seu amor por Deus e pelas pessoas ao seu redor. De um lado, o número um: um coração seco, indiferente, quase impenetrável. Do outro, o dez: um coração transbordante, que ama profundamente, incondicionalmente, como se o próprio Deus estivesse presente em cada relacionamento.

Onde você se encaixa? Não precisa responder a ninguém, é só um momento de reflexão pessoal, não de julgamento público. Mas considere: o que isso diz sobre o seu relacionamento com Deus? E com as pessoas?

Jesus ensinou que o amor é a essência da vida cristã. Amar a Deus e ao próximo não é apenas um mandamento entre outros, é o maior de todos (Mt 22:37-39). O amor é o critério pelo qual Deus mede o nosso crescimento espiritual, e Paulo deixa isso claro: “Sem amor, nada sou” (1Co 13:2). Se formos honestos, todos reconhecemos a necessidade de crescer nessa área. Nosso amor frequentemente é raso, condicional, pouco mais que uma sombra do que Deus deseja para nós.

A história que vamos ver é desconcertante. Dois personagens, Simão, o fariseu, e uma mulher anônima conhecida por sua vida de pecado, se encontram no mesmo cenário, a casa de Simão, onde Jesus é o convidado principal. Simão, um líder respeitado e profundamente religioso, representa tudo o que a sociedade valoriza: moralidade, status, conhecimento. A mulher traz consigo um histórico público de vergonha e marginalização. Aos olhos de todos, ela não deveria estar ali.

À medida que a cena se desenrola, as categorias se invertem. O homem respeitável mostra pouco amor e quase nenhuma devoção, enquanto a mulher desprezada demonstra um amor extravagante, profundamente tocante. Como explicar isso?

Jesus revela que a resposta está em algo que Simão e, talvez, muitos de nós esquecemos: a conexão entre amor e perdão. Essa conexão não é teórica, é vivida. Só quem entende o tamanho da dívida que foi perdoada consegue amar com intensidade. Por isso a pergunta não é apenas “Quanto eu amo?”, mas “Será que eu realmente entendi o quanto Deus me perdoou?”

I. O jantar na casa de Simão

Jesus está na casa de Simão, o fariseu. Simão organiza um jantar, um evento típico da época, em que se abria a casa para discussões morais e teológicas, especialmente com mestres e rabinos. Jesus, com sua reputação de mestre e realizador de milagres, é o convidado principal. Mas o convite de Simão é mais do que hospitalidade. Ele quer avaliar Jesus, e a cena expõe muito mais sobre Simão do que ele poderia imaginar.

Jesus aceita o convite, e isso não podemos ignorar: ele nunca excluía ninguém. Comia com pecadores e publicanos, mas também com fariseus. Aqui já há uma lição para nós: o amor de Deus não tem preferências. Ele chama tanto o religioso moralista quanto o pecador perdido.

Os convidados estão reclinados ao redor da mesa, conforme o costume. Não havia cadeiras; as pessoas se reclinavam sobre almofadas, apoiadas no braço esquerdo, com os pés para trás, enquanto comiam com a mão direita. A cena é comum para a época, mas o que acontece em seguida é tudo menos comum.

Uma mulher entra na sala. Todos a conhecem, mas ninguém a respeita. Ela carrega uma reputação pública de pecado. Talvez uma prostituta, talvez apenas alguém cujo passado e cujas decisões foram escancarados e condenados pela sociedade. Só que ela sabia que Jesus estaria lá. A entrada não é casual, é intencional. Ela traz um frasco de alabastro com perfume caro, um presente raro e significativo, e se posiciona aos pés de Jesus.

Então as lágrimas começam a cair. Não lágrimas discretas, mas um choro incontrolável. Por que ela faz isso? O que leva essa mulher a esse nível de emoção e de entrega? Será remorso por pecados profundamente sentidos? Ou gratidão por um perdão já experimentado? Talvez as duas coisas. O fato é que ela está literalmente lavando os pés do Senhor.

E faz algo que choca a todos: deixa o cabelo solto. Para os padrões da época, era um gesto escandaloso, algo que só mulheres de má reputação fariam em público. Mas para ela não importava o que os outros pensassem. Usa o cabelo para secar as lágrimas que molham os pés de Jesus, beija-os repetidamente e os unge com o perfume.

A sala se enche do cheiro do perfume, mas também de indignação silenciosa. Simão observa tudo e, em seu coração, formula um julgamento: “Se Jesus fosse realmente um profeta, saberia quem é essa mulher e a afastaria.” A lógica parece sólida à primeira vista, porque um verdadeiro profeta não permitiria tal comportamento.

Só que o problema não está em Jesus, está em Simão. Ele não entende que Jesus não veio para condenar, mas para redimir (Jo 3:17). Não reconhece que a sua própria dureza de coração o coloca tão longe de Deus quanto os pecados daquela mulher. Simão pensa que Jesus não sabe quem ela é. Mas Jesus sabe exatamente quem ela é, e sabe quem Simão é também.

Jesus lê os pensamentos de Simão e diz: “Tenho algo a dizer a você.” Simão, ainda cego para o que está por vir, responde educadamente: “Diga, Mestre.” A tensão cresce, e todos os olhares se voltam para Jesus. O que ele dirá? Vai corrigir a mulher? Ou vai corrigir Simão?

Simão está prestes a descobrir que o verdadeiro problema não é a mulher aos pés de Jesus, mas o homem que a observa com desprezo.

II. A parábola dos dois devedores

Jesus responde aos pensamentos de Simão com uma parábola. Como fazia com frequência, usa uma história simples, mas profunda, para revelar uma verdade essencial.

Dois homens deviam dinheiro a um credor. Um devia quinhentos denários, algo próximo a dois anos de salário. O outro, cinquenta denários, cerca de dois meses de trabalho. Ambos estavam na mesma situação: incapazes de pagar. E então o credor faz algo extraordinário e cancela as duas dívidas.

Aí vem a pergunta: “Qual deles o amará mais?” É simples, e a resposta é óbvia. O maior devedor, perdoado, terá uma resposta mais profunda de amor e gratidão.

Imagine que você está soterrado em dívidas que somam dois anos de salário, algo que parece impossível de pagar. De repente, chega uma carta: “Seu saldo foi zerado. Sua dívida foi cancelada.” Como você reagiria? Quem teve uma dívida pequena cancelada ficaria grato, mas o alívio e a alegria de quem foi perdoado de uma dívida enorme seriam incomparáveis. Essa é a imagem que Jesus usa para ligar perdão e amor.

Simão, porém, hesita. Responde com cautela: “Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior.” Por que “suponho”? Talvez ele tente manter uma neutralidade falsa, ou talvez já perceba onde Jesus quer chegar e tema se expor. Afinal, Simão já fez seus julgamentos. Vê a mulher como a devedora dos quinhentos denários e a si mesmo como alguém que, se deve algo, deve só um pequeno saldo. Não está pronto para admitir que a sua dívida também é maior do que pode pagar.

Jesus confirma: “Você julgou bem.” Mas há uma ironia aqui. Simão, tão rápido para julgar a mulher, agora se vê avaliado por Jesus. A parábola não é só uma história sobre dois devedores, é um espelho para Simão e para nós. Ele acredita estar em vantagem espiritual, mas a falta de amor e de compaixão revela uma falha central: não entende a profundidade da sua própria necessidade de perdão.

É aqui que a verdade da parábola atinge o coração. Quem reconhece o tamanho da dívida, e o tamanho do perdão que recebeu, responde com amor. Quem não percebe a gravidade da sua condição permanece frio, indiferente e crítico. Essa é a realidade que Simão precisa encarar, e talvez seja também a que nós precisamos enfrentar.

III. Simão, você está vendo esta mulher?

Jesus finalmente se volta para Simão, mas antes de responder às suas críticas silenciosas, faz uma pergunta desconcertante: “Vê esta mulher?”

Claro que Simão a vê. Viu desde o momento em que ela entrou. Mas a vê só pelo filtro do julgamento e do desprezo. Define a mulher pelo seu passado, não pela sua humanidade, muito menos pela transformação que acontece diante dos seus olhos.

Então Jesus expõe o contraste entre os dois. Simão não fez nem o mínimo como anfitrião. Não ofereceu água para os pés de Jesus, algo básico na cultura da época. A mulher lavou os pés de Jesus com lágrimas e os enxugou com o próprio cabelo, um ato profundamente humilde e sacrificial. Simão não o cumprimentou com um beijo de boas-vindas. A mulher não parou de beijar os pés de Jesus desde que ele entrou. Simão não ungiu a cabeça de Jesus com óleo, algo barato e acessível. A mulher derramou perfume caro nos pés dele, sinal de devoção absoluta.

O que isso revela? Simão oferece o mínimo porque não sente necessidade de Deus. Ele se enxerga como justo e suficiente. A mulher oferece tudo porque entende a profundidade do perdão que recebeu. O amor dela é evidência do perdão, não a causa dele. Ou seja, o amor que ela demonstra não “compra” nem “merece” o perdão de Deus. É a resposta natural de um coração que já experimentou a graça desse perdão. É o que Jesus declara: quem muito foi perdoado muito ama (Lc 7:47).

Aqui está o coração da mensagem. O tamanho do seu amor por Deus é proporcional ao seu entendimento do perdão que você recebeu. A mulher sabe que foi perdoada de uma dívida que nunca poderia pagar, e isso a libertou para amar sem reservas. Simão não reconhece a própria necessidade de perdão. Acredita que deve pouco, então ama pouco. Essa autossuficiência espiritual não só bloqueia o seu amor, como o impede de receber o perdão de que tanto precisa.

Então Jesus se volta para a mulher e faz algo revolucionário. Na frente de todos, declara: “Os seus pecados estão perdoados.” Não há rituais, nem ofertas, nem intermediação sacerdotal. Jesus fala com autoridade divina. O verbo grego que Lucas usa para “perdoar” carrega a ideia de enviar embora, de despachar a dívida. É perdão completo, definitivo, imerecido. A sala se enche de murmúrios: “Quem é este que até perdoa pecados?” A resposta é óbvia. É Jesus, o Filho de Deus, com poder para perdoar e restaurar.

Por fim, Jesus olha para a mulher e diz: “A sua fé a salvou; vá em paz.” Não foi o ato de derramar perfume ou de beijar os pés que trouxe salvação, mas a fé. Ela reconheceu quem Jesus era e colocou nele a sua confiança. Saiu em paz não porque mudou a opinião de Simão ou dos outros convidados, mas porque foi perdoada por Deus.

Agora a mensagem se volta para nós. Jesus continua a perdoar e a oferecer paz a quem coloca nele a sua fé. Como Simão, somos propensos a minimizar a nossa dívida espiritual e, por consequência, a amar pouco. Mas quando reconhecemos a nossa falência espiritual, somos libertos para amar profundamente e viver em gratidão.

Conclusão

Começamos perguntando: como está o seu amor por Deus e pelos outros? Agora temos a resposta de Jesus. A medida do nosso amor reflete o quanto entendemos o perdão de Deus em nossas vidas. A mulher na casa de Simão amou intensamente porque sabia que havia sido profundamente perdoada.

A verdade é que todos temos uma dívida imensa diante de Deus, uma dívida que não podemos pagar. Mas, como Simão, muitas vezes falhamos em reconhecer isso. Podemos nos comparar aos outros e pensar que a nossa dívida é pequena, mas, diante da santidade de Deus, somos todos devedores.

Ao ler o texto com calma, vemos que o grande pecado na sala não era o da mulher, mas o de Simão. Era o pecado de um coração endurecido, incapaz de amar. Lábios que não beijam, joelhos que não se dobram, olhos que não choram, mãos que não servem, perfume que não é derramado. O maior pecado é a recusa em obedecer ao maior mandamento: amar.

Se Simão tivesse percebido isso, teria se juntado à mulher em lágrimas aos pés de Jesus, os dois como devedores perdoados. A graça de Deus é suficiente tanto para corações quebrados quanto para corações endurecidos. A mulher encontrou graça para um coração ferido. Simão precisava de graça para um coração orgulhoso e frio. E nós também precisamos dela.

Se o seu amor por Deus esfriou, talvez você tenha esquecido o quanto Deus já perdoou você. Reserve um tempo agora, ou nesta semana, para refletir sobre a sua própria dívida e o perdão que recebeu. Deixe isso renovar o seu amor por Deus e pelos outros, como o amor daquela mulher.

E se você ainda não conhece a Cristo, lembre-se do que a Bíblia diz:

Deus amou o mundo de tal maneira que enviou seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele.

(Jo 3:16-17)

Jesus não veio como Simão, apontando falhas e condenando. Veio para perdoar e salvar. Hoje ele oferece o mesmo perdão a quem coloca nele a sua fé. Como a mulher, você pode sair em paz, sabendo que a sua dívida foi completamente cancelada. O convite está diante de você: aceite o perdão de Cristo e viva no amor e na paz que somente ele pode oferecer.