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Zaqueu em Lucas 19: o pequeno homem que Jesus procurou

Um homem pequeno encontra um Deus grande

Diego Gonçalves8 min de leitura1.530 palavras

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Neste texto

Quem já foi criança numa festa de rua sabe como é. Todo mundo em pé, a banda passando, e você só enxerga costas, cotovelos e bolsas. Alguém mais velho acaba pegando a criança no colo, e aí o mundo aparece. Só que ninguém ia pegar Zaqueu no colo. Em Jericó, quando Jesus passou, o homem mais baixo da multidão era também o mais odiado.

É a história de Lc 19:1-10, e ela fica mais forte quando a gente repara no lugar dela dentro do Evangelho. Pouco antes, na entrada de Jericó, Jesus tinha parado diante de um mendigo cego (Lc 18:35-43). Era a ponta de baixo da sociedade. Agora Jesus atravessa a mesma cidade e encontra o outro extremo: um homem rico, bem perto do topo. Lucas apresenta o personagem em três palavras: Zaqueu, chefe dos publicanos, rico.

Um homem que ninguém respeitava

Publicano era cobrador de impostos a serviço de Roma. Para muito judeu, isso fazia dele um traidor que tinha trocado o próprio povo por dinheiro. Zaqueu estava num degrau acima: era chefe, com outros cobradores trabalhando debaixo dele. Roma pedia uma quantia, os cobradores podiam exigir mais, e a diferença ficava no bolso deles. O povo pagava a conta.

Jericó era um lugar ótimo pra isso. A cidade ficava numa rota de comércio, e peregrinos passavam por ali a caminho de Jerusalém, principalmente nas grandes festas. Mais movimento, mais imposto, mais lucro.

Zaqueu tinha dinheiro, posição e casa boa. Só não tinha respeito. Os religiosos o colocavam na mesma gaveta dos pecadores públicos, e Jesus já tinha ouvido essa reclamação antes: “Por que vocês comem e bebem com publicanos e pecadores?” (Lc 5:30). O curioso é que o nome Zaqueu costuma ser ligado à ideia de pureza e inocência. Ninguém em Jericó usaria essas palavras pra ele.

Curiosidade, altura e uma árvore

Mesmo assim, algo fazia falta. Lucas diz que Zaqueu procurava ver quem era Jesus. Repare: ele não queria só dar uma olhada no famoso da vez. Queria descobrir quem era aquele homem de quem se contava tanta coisa, que recebia pecador, tocava leproso e anunciava perdão. Talvez nem ele soubesse explicar. Tem gente que conquista tudo o que planejou e, num fim de tarde qualquer, pensa: “Não pode ser só isso.”

Zaqueu tinha dois problemas. O primeiro era de altura. Lucas diz que ele era de pequena estatura, e a multidão não tinha o menor interesse em abrir passagem pro cobrador. Não custa imaginar um contribuinte dando aquela cotovelada “sem querer”.

O segundo problema era maior. Isaías já tinha escrito que são as nossas iniquidades que fazem separação entre nós e Deus (Is 59:2). Não faltavam centímetros só a Zaqueu. Faltava integridade a ele, e a gente também fica abaixo do padrão santo de Deus.

Só que ele não ficou parado reclamando. Correu na frente da multidão, achou uma figueira brava e subiu. Um homem rico, importante, provavelmente de roupa boa, correndo na estrada e se pendurando num galho. Numa árvore dessas, de galhos largos e baixos, dava pra enxergar a estrada inteira. Quem passasse ia rir, e Zaqueu não ligou. Naquele dia, parecer importante perdeu o valor. Ele queria ver Jesus.

E isso nos põe uma pergunta incômoda: o que a gente está disposto a largar pra chegar perto de Cristo? A altura não segurou Zaqueu, nem a multidão, nem a reputação, nem o medo do ridículo. Pra nós pode ser um pecado de estimação, o que os outros vão pensar, ou o costume de acompanhar a multidão.

Quem estava procurando quem

Lucas conta o que aconteceu quando Jesus chegou ao lugar da árvore: ele parou, olhou pra cima e disse, pelo nome: “Zaqueu, desça depressa, pois hoje preciso ficar em sua casa” (Lc 19:5, NVI).

Zaqueu estava procurando Jesus, mas Jesus já estava procurando Zaqueu. Ninguém tinha apresentado os dois. Jesus caminhava pra Jerusalém, com a cruz logo à frente, e mesmo assim parou por causa de um pecador numa árvore. Ele sabia como aquele homem tinha enriquecido, sabia o que ele tinha feito. E parou.

Isso diz muito sobre a salvação. A gente gosta de pensar que a história começa quando nós começamos a procurar Deus. Só que muito antes disso Deus já vinha na nossa direção. A vontade de procurar, até ela, já é graça dele. Ninguém chegaria a Jesus se ele não viesse primeiro.

Repare também em duas palavras. “Depressa”: o chamado de Cristo tem urgência, e não adianta esperar a vida ficar arrumada, porque agora é o dia da salvação (2Co 6:2). E “preciso”: Jesus não disse “se você não tiver nada marcado”. Naquele mundo, entrar na casa de alguém e dividir a refeição dizia muito sobre comunhão e aceitação. Gente respeitável não fazia isso com um homem como Zaqueu. Jesus fez questão. A multidão via um traidor, um explorador, o passado dele. Jesus via um perdido que podia ser encontrado e o que a graça faria com o futuro.

A conta que mudou

Zaqueu desceu depressa e recebeu Jesus com alegria. Veio muito mais do que ele esperava: queria dar uma espiada, e agora Jesus ia jantar na casa dele.

Nem todo mundo ficou alegre. Todos começaram a murmurar: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador” (Lc 19:7). Fica fácil condenar aquela gente, mas tem um pouco dela em nós. A gente também faz categorias, acha uns pecados mais escandalosos porque não são os nossos, e deixa de perceber que o nosso pecado não tem cheiro melhor que o dos outros.

Lucas não conta o que Jesus e Zaqueu conversaram à mesa. Mas, quando Zaqueu se levanta, dá pra ver o que aconteceu. Ele chama Jesus de Senhor e diz que vai dar metade dos bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, devolver quatro vezes mais (Lc 19:8). Antes ele usava gente pra ganhar dinheiro. Agora usa o dinheiro pra ajudar gente. Antes acumulava, e agora reparte. Antes tirava dos outros, e agora quer devolver.

Isso não quer dizer que ele comprou a salvação dando dinheiro aos pobres. Ele deu porque tinha encontrado salvação. A generosidade não é a causa da mudança, é o fruto dela. Se alguém diz que encontrou Jesus e nada muda, existe uma pergunta honesta a fazer. Perfeição instantânea ninguém promete, nem ausência de luta, mas uma direção nova sim.

E repare no tamanho da resposta. A Lei de Moisés mandava restituir em dobro, ou até mais, em casos de furto: pelo boi, cinco bois, e pela ovelha, quatro ovelhas (Êx 22:1). Quando a pessoa confessava por conta própria, devolvia o que tinha tomado e acrescentava a quinta parte (Nm 5:6-7). Zaqueu escolheu o peso maior. Não foi procurar o mínimo exigido. Quis consertar, mesmo que custasse caro. Arrependimento é isso: mudança de direção que inclui, sempre que dá, reparar o que foi quebrado. Quem tinha passado a vida compensando a baixa estatura com dinheiro e poder descobriu naquele dia outro tipo de grandeza, a de um coração transformado.

Jesus então declara: “Hoje houve salvação nesta casa, porque este também é filho de Abraão.” A multidão dizia “pecador”, e Jesus disse “filho de Abraão”. A multidão dizia “traidor”, e Jesus disse que a salvação tinha chegado àquela casa. E o versículo que explica a cena toda:

Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

(Lc 19:10, ARA)

Qual é a sua árvore?

Zaqueu passou por quatro momentos que a gente reconhece. Primeiro a curiosidade, a vontade de saber quem Jesus era. Depois a investigação: ele se aproximou, não deixou os obstáculos vencerem. Aí veio a conversão, quando o Salvador que o procurava o encontrou. Por último, a transformação, que mexeu no dinheiro, nas pessoas e na direção da vida. A conversão acontece num momento. A transformação leva a vida inteira.

Se você está só curioso, tudo bem, mas não pare aí. Leia os Evangelhos, observe Jesus de perto, faça perguntas. Se já investigou por um tempo, chega a hora de decidir o que fazer com o que descobriu, porque Jesus não veio pra ser estudado, veio pra salvar. E se você já se diz cristão, vale perguntar se Jesus mora na sua casa ou só faz visita. Tem gente que diz: “Pode entrar na minha vida religiosa.” Mas fecha a porta das finanças, dos relacionamentos, dos planos, do orgulho, de uma mágoa, de um hábito, de um segredo. Cristo não procura um quarto pra alugar dentro de nós. Ele é Senhor. Zaqueu abriu a casa, depois a carteira, depois o passado.

Talvez sua árvore hoje seja o orgulho, a reputação, o dinheiro, uma vida confortável demais pra imaginar mudança ou o medo do que vão pensar. Jesus conhece seu nome, sua história inteira e os lugares onde você tentou esconder tudo isso. E, em vez de esperar você melhorar, ele se aproxima pra transformar. Ele mesmo diz que está à porta e bate, e que, se alguém abrir, ele entra e cea com essa pessoa (Ap 3:20).

A salvação não começa quando a gente consegue subir alto o bastante até Deus. Começa quando descobre que Deus veio até nós. Zaqueu subiu numa árvore pra ver Jesus, e no fim foi Jesus quem o encontrou. Tomara que a gente também ouça o próprio nome, largue o que precisa largar e desça.