
SermõesSermões em Lucas9 de 12
Lucas 15ovelha, moeda e filho perdidos e o Pai que procura
Perdidos e achados: as três parábolas da misericórdia
Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles.
(Lc 15:1-2, ARA)
Toda vez que precisamos viajar, seja de barco, ônibus ou avião, vamos até a hidroviária, a rodoviária ou o aeroporto. E, geralmente, nesses lugares existe um departamento chamado “Perdidos e Achados”. Certa vez, lendo as Escrituras, percebi que na Bíblia também existe um departamento de “Perdidos e Achados” de Deus. É o capítulo 15 de Lucas.
Esta passagem é um resumo do Evangelho, e nela vemos um Pai amoroso e misericordioso que perdoa o seu filho. Quantas vezes temos uma percepção errada sobre o Senhor? Muitos pensam que Deus é um juiz implacável e severo, que fica no céu anotando e julgando todos os nossos pecados. Mas o que acabamos de ler revela o coração do Senhor e mostra que Deus é um Pai amoroso e misericordioso.
Se você continuar lendo esse texto, vai perceber que ele é muito marcante. O Deus que perdoa é também o Deus que restaura, que convida o seu filho a retornar para casa. Por trás das palavras de Jesus, vemos que não há pecado tão grande que não possa receber um perdão tão grande. Muitas vezes encontramos pecado em nosso caminho e, embora o pecado nos tire do caminho do Senhor, o pecado nunca poderá tirar o Senhor do nosso caminho. Porque Deus é muito paciente e está sempre de braços abertos, sorrindo e esperando para nos receber. Creio que, nesta passagem, Jesus está dizendo exatamente isso.
Quatro grupos ao redor de Jesus
Logo nos primeiros versículos deste capítulo encontramos quatro grupos: publicanos, pecadores, fariseus e escribas. Quem são eles?
Os publicanos eram judeus contratados por Roma para cobrar os impostos do povo judeu. Só que tinha um problema: eles eram conhecidos por serem corruptos e fraudadores, pois sempre cobravam a mais do que era devido. Mateus e Zaqueu eram exemplos de publicanos (Mt 9:9; Lc 19:2).
Havia também o grupo dos pecadores. Na cultura judaica da época, todo aquele que não seguia a religião dos judeus era considerado “pecador”. Quem não fazia parte do grupo ou exercia profissões consideradas impuras, como açougueiros e até médicos, era rotulado de impuro.
O terceiro grupo era o dos fariseus. Eles eram zelosos pelas 613 leis e observavam rigorosamente as Escrituras, porém se esqueciam do mais importante: exercer a misericórdia. Frequentemente eram vistos como hipócritas, sempre buscando reconhecimento público.
E o quarto grupo era o dos escribas. Eles eram estudiosos da Lei e da tradição judaica e auxiliavam os fariseus na interpretação e na aplicação dela. Eram tão respeitados que suas palavras eram consideradas por eles mesmos como superiores às próprias Escrituras.
Naquele dia, enquanto Jesus se relacionava com dois grupos, os publicanos e os pecadores, era criticado duramente pelos fariseus e escribas. Isso não era um fato isolado. Por onde Jesus ia, esses quatro grupos estavam por perto.
Vale a pena dizer que os fariseus, os escribas e outros grupos, como os saduceus, os essênios e os herodianos, competiam por posições políticas dos seus partidos em Israel. Eles precisavam lançar um candidato. Então descobriram que havia um novo professor em Israel, distribuindo pão e peixe aos famintos, vinho nas festas de casamento, curando as doenças, libertando os oprimidos de coração e operando muitos sinais e maravilhas. Por isso a fama dele crescia por toda a Palestina.
Sabe qual foi a atitude inicial deles? Queriam filiar Jesus ao seu partido. Todos queriam saber mais desse Jesus famoso, e saíram ao encontro dele. Porém, todas as vezes que o encontravam, o avistavam comendo com pecadores, conversando com publicanos, perdoando prostitutas, curando no sábado… As coisas não se encaixavam. Tudo isso era motivo de repúdio para os fariseus e escribas, promotores da cultura da pureza farisaica, e motivo de estranheza para outros grupos da elite religiosa.
Jesus, sabendo das intenções do coração deles, aplica uma lição pra todo mundo. Ele conta as três parábolas da misericórdia: a da ovelha perdida, a da moeda perdida e a do filho pródigo.
A ovelha que sabe que está perdida
Logo de cara, Jesus começa falando da ovelha. Encontramos diversas passagens na Bíblia que mostram o Deus que é pastor. Jesus é o pastor que veio resgatar as ovelhas perdidas de Israel e também as ovelhas de outro curral (Jo 10:16).
É interessante a figura da ovelha na parábola. Primeiro, a ovelha não enxerga tão bem quanto alguns animais. Ela é míope. Sai pastando, não percebe que está se aproximando da beira de um precipício e de repente cai do penhasco. Segundo, a ovelha não tem um bom olfato. Por isso não percebe quando os predadores estão se aproximando, como os cães, os lobos, os ursos. Ela não consegue sentir o cheiro do perigo, a catinga do inimigo. Terceiro, a ovelha não ouve muito bem. Embora conheça o som da voz do pastor, infelizmente não percebe os passos sorrateiros dos predadores. Não consegue ouvir a chegada do inimigo. É por isso que as ovelhas precisam ser pastoreadas pelo Pastor.
Vale lembrar que todo pastor carrega consigo dois instrumentos: o bordão e o cajado. Às vezes é o mesmo instrumento. Mas o cajado tem um formato de guarda-chuva e é usado para puxar a ovelha que está se afastando do grupo e trazê-la para a direção que ela deve seguir. O bordão, ou a vara, é usado para lutar e expulsar os predadores.
Na parábola, Jesus diz que a ovelha se separou do rebanho e se perdeu. Uma ovelha pode se perder ou não? Pode! Até formiga pode se perder, se você desfizer a rota dela. Com a ovelha é igual: se sair do rebanho, estará perdida, literalmente perdida. Quando Jesus pronuncia esta primeira parábola, está dizendo que a ovelha representa aquele que está perdido e sabe que está perdido. Ela representa o grupo dos pecadores e dos publicanos, que estão perdidos e sabem que estão perdidos.
A moeda perdida dentro de casa
Em seguida, Jesus conta uma segunda parábola, a da moeda. A moeda não tem nada a ver com ovelha. Moeda não vê, não ouve, não sente. Moeda é moeda, e ela está perdida dentro de casa.
O que podemos aprender com essa segunda parábola é que existem pessoas perdidas dentro de casa que não sabem que estão perdidas dentro de casa. Veja bem: um grupo está perdido lá fora e sabe que está perdido lá fora. Esse é o grupo dos publicanos e dos pecadores. O outro grupo está perdido dentro de casa e não sabe. Esse é o grupo dos fariseus e dos mestres da lei. Mesmo indo ao templo, mesmo protegidos por suas famílias, estão perdidos e não sabem que estão perdidos.
Dois filhos, dois jeitos de se perder
E por último Jesus narra a terceira parábola, talvez a mais querida pelos crentes: a do filho pródigo. Vamos tentar entender as implicações dessa história.
Primeiro, o filho mais novo se perde e, antes de se perder, pede a herança antecipada. Quando um filho pede a herança ao pai ainda em vida, na verdade está decretando a morte do pai antecipadamente. Tanto faz se o pai morrer hoje ou amanhã, pois tudo o que ele espera do pai é essa herança.
Um segundo ponto importante é que, na ausência do pai, o filho mais velho tinha a responsabilidade de cuidar das propriedades e dos afazeres. Ele poderia intervir. No entanto, se cala e não diz nada, permitindo que o irmão mais novo faça o que bem quiser. E agora vamos entender uma coisa: o versículo 12 diz que o pai repartiu os bens entre os dois, no plural (Lc 15:12). Não apenas o filho mais novo ficou com sua herança, mas o mais velho também.
Olha só que coisa! Muitas vezes lemos esse texto e passa batido que o silêncio do filho mais velho é comprometedor. A única diferença entre o filho mais velho e o mais novo é que o mais novo era mais sincero quanto à sua pecaminosidade. Ele não teve medo de expor seus erros e sentimentos incorretos, enquanto o mais velho escondia e disfarçava todos eles.
O texto mostra que, às vezes, é mais fácil sentir a sinceridade de um pecador do que a hipocrisia de um “santo”. Creio que isso é o que Jesus está dizendo: “Fariseu, escriba, ouçam com atenção: é mais chocante perceber a hipocrisia de um ‘santo’ do que a sinceridade de um pecador.” Não estou dizendo que é correto ser pecador, mas que é correto ser sincero com o Senhor sobre os nossos sentimentos. Ambos os filhos tinham problemas com o pai. Um falava e o outro escondia. Enquanto um se perdeu fora, o outro se perdeu dentro. Um se assemelha à ovelha perdida e o outro, à moeda perdida.
Mas de repente o que estava perdido fora é achado. Ele sente o desejo de voltar à casa do pai e, quando volta, o pai misericordioso corre ao seu encontro e o recebe de braços abertos, cheio de misericórdia, cheio de compaixão, cheio de perdão, cheio de amor. Convida-o a entrar em casa, chama-o para dentro, veste-o com a melhor roupa, coloca um anel em seu dedo, renova a sua aliança e põe sandálias novas em seus pés, para o caminho que vem pela frente (Lc 15:22). Esse é o amor do Pai que se manifesta ao pecador quebrantado, humilde e arrependido.
Quando o pai dá essa grande festa para o filho que voltou, o filho mais velho, voltando do trabalho, sente o cheiro do churrasco e ouve o som da festa de longe. Chama o servo mais próximo e, ao perguntar o motivo, é informado sobre o retorno do irmão. Fica transtornado com a notícia, todo ressentido. Remoído por dentro, pensa: “Puxa! Eu trabalhei duro a vida inteira, e meu pai nunca me deu uma festa.”
Então chama o pai e o confronta, e esse encontro acontece no portão, o mesmo portão que separa os fariseus e escribas dos publicanos e pecadores. Os publicanos e pecadores já estão dentro, recebendo a Palavra que purifica, a Palavra que limpa o homem, a Palavra que revive o homem. Os fariseus e escribas se recusam a entrar. Eles são a figura do filho mais velho.
Jesus, na figura do pai, vai até o portão e diz: “Meu filho, por que você não quer entrar e se alegrar também? Aquele teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi achado” (Lc 15:31-32).
Qual é a moral da história? Há pessoas que se perdem dentro e outras que se perdem fora. E uma segunda: eu tenho alguém à minha procura. Mais novo ou mais velho, moeda ou ovelha, perdido lá fora ou perdido cá dentro, temos um Deus que nos procura e quer nos salvar. Essa é a mensagem do Evangelho de Jesus.
Oração
Senhor, diante da Tua palavra que nos traz a mensagem do Teu amor e misericórdia, nós nos colocamos em quebrantamento diante de Ti. Reconhecemos que muitas vezes nos perdemos, nos afastamos do Teu caminho e nos esquecemos do Teu amor por nós. Mas Tu és um Pai amoroso que está sempre de braços abertos, pronto para nos receber de volta e nos perdoar. Que possamos aprender com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo a buscar a Tua presença e a nos arrepender dos nossos pecados. Ajuda-nos a ser sinceros e humildes diante de Ti, e a reconhecer que somos todos pecadores necessitados da Tua graça e misericórdia. Que o Teu amor e perdão nos inspirem a ser mais compassivos e misericordiosos com aqueles ao nosso redor, assim como Tu és conosco. Em nome de Jesus, amém.
Perguntas para reflexão
- Sermão
- Lucas
- Graça
- Arrependimento