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Maria, mãe de Jesus, e Maria Madalena: duas mulheres de fé
Sermão de Dia das Mães sobre as duas Marias do Evangelho
Toda família conhece a cena. Sobra o último pedaço de bolo, e a mãe, que passou a tarde na cozinha, diz que não quer. “Pode comer, eu já provei.” Ninguém acredita, todo mundo come, e ela sorri. Servir está no coração da maternidade, e a gente só percebe o quanto custa quando fica adulto.
Hoje é Dia das Mães, mas quero abrir um pouco mais o assunto. A gente precisa honrar melhor as mulheres na igreja, em casa e na sociedade, e a Bíblia ajuda a ver por quê. Repare quem estava lá nos dias mais importantes da história da salvação. As mulheres ficaram até o sepultamento de Jesus (Mc 15:47). Foram as primeiras a chegar ao túmulo (Jo 20:1). E foram as primeiras a sair correndo para anunciar a ressurreição (Mt 28:8).
Duas delas se chamavam Maria. Uma era mãe e a outra, até onde sabemos, não era. Os dois nomes são, na verdade, o mesmo: Miriam, o nome da irmã de Moisés, que ficou de vigia à beira do Nilo para ver o que seria do irmãozinho no cesto (Êx 2:4) e que depois foi chamada de profetisa (Êx 15:20). Duas mulheres com o nome de uma vigia e de uma profetisa. Vale olhar para as duas.
Maria, a mãe: servir, sofrer e soltar
Muita gente imagina Maria como uma figura distante, quase de névoa. A Bíblia mostra uma mulher real, com dúvidas reais e uma fé real. Quando o anjo Gabriel lhe anuncia o nascimento de Jesus, ela responde: “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1:38, ARA). Ela se prepara para servir, sem saber o preço.
E o preço vem logo. Quando Jesus ainda é bebê, o velho Simeão lhe diz que uma espada traspassará a sua alma (Lc 2:35). Ser mãe, ali, já inclui ser quebrada. Quem é mãe sabe o que é isso. O coração anda fora do corpo, do lado de lá da porta, esperando o filho chegar.
Depois vem a lição mais difícil, a de soltar. Quando Jesus tinha doze anos, a família subiu a Jerusalém para a Páscoa. Na volta, José e Maria pensaram que o menino estava no meio dos parentes, e só no fim do dia perceberam que não. Voltaram correndo e o procuraram por três dias. Qualquer pai ou mãe que já perdeu o filho de vista no supermercado imagina o que foi aquilo. Acharam o garoto no templo, ouvindo e perguntando aos mestres. Maria desabafou: “Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos”. E ouviu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lc 2:48-49, ARA). O texto termina com uma frase honesta: eles não compreenderam o que ele disse (Lc 2:50).
Mãe nenhuma entende tudo o que o filho faz. E, mais cedo ou mais tarde, vai ser lembrada de que os filhos pertencem ao Pai, e não a ela. O melhor que uma mãe pode fazer é apontar os filhos para o reino de Deus.
Maria precisou aprender isso também no tempo de Deus. Num casamento em Caná, faltou vinho, e ela avisou o filho. A resposta soou dura: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2:4, ARA). Ela tinha uma expectativa que não combinava com o relógio do céu. E em outra ocasião, quando a mãe e os irmãos de Jesus foram procurá-lo enquanto ele ensinava, ele olhou para os que estavam ao redor e disse que quem faz a vontade de Deus é irmão, irmã e mãe (Mc 3:31-35). A família de sangue é um presente, mas o primeiro lugar é de Cristo. Quem é pai ou mãe precisa cuidar disso: não forçar a agenda da gente sobre os filhos e cultivar, primeiro, o próprio relacionamento com Jesus.
A última lição de Maria é a de ficar. Ela estava ao pé da cruz quando o filho sofreu e morreu (Jo 19:25). Não saiu dali. E Jesus, no último gesto de cuidado, entregou a mãe ao discípulo amado (Jo 19:26-27). Depois da ressurreição, encontramos Maria no cenáculo, com os outros, perseverando em oração (At 1:14). Mãe que ora faz mais pelos filhos do que a gente consegue medir.
Maria Madalena: libertada para servir
Maria Madalena talvez seja a mulher mais mal falada e mais mal compreendida da Bíblia. “Madalena” não é sobrenome, é o jeito de distinguir essa Maria das outras: ela era de Magdala. A Bíblia não a identifica com a mulher flagrada em adultério (Jo 8) nem com a mulher que ungiu os pés de Jesus na casa de Simão (Lc 7). Aquela mulher não tem nome no texto, e Lucas só apresenta Maria Madalena no capítulo seguinte, em outro contexto. Também não existe nenhuma base nas Escrituras para as histórias de romance que dizem que ela foi casada com Jesus.
O que o texto diz é bem mais bonito. Lucas conta que Jesus ia de cidade em cidade anunciando o reino, e com ele iam os Doze e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: “Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes; Suzana e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens” (Lc 8:2-3, ARA).
Veja a sequência. Maria estava presa. Ninguém conseguia ajudá-la, e só alguém mais forte do que o mal podia soltá-la. Jesus soltou. Ela e as outras duas, cada uma do seu jeito, estavam além de qualquer ajuda humana, e o Filho as libertou, como ele mesmo disse: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36). Quem foi libertado desse jeito não consegue mais se afastar. Elas queriam estar com ele, e sustentaram o ministério com o que tinham.
Isso diz muito sobre como a obra de Deus anda. Jesus poderia ter multiplicado pão para sustentar a equipe, como fez em outras ocasiões, mas aceitou contar com essas mulheres, e foi como lhes dar o privilégio de serem parceiras dele no ministério. O ministério custa. A gente que dá é parceira, parte da equipe, e é bíblico que alguns sejam sustentados para ir enquanto outros enviam. Na história da Igreja, uma mulher romana chamada Paula, no século IV, bancou a vida e o trabalho de Jerônimo em Belém, e isso ajudou a Bíblia a chegar à língua do povo em latim. Ed Silvoso, no livro Mulheres: a arma secreta de Deus, defende que um dos motivos de o cristianismo ter se espalhado tão rápido nos primeiros anos foi justamente a honra e o valor que a mensagem de Jesus devolveu às mulheres. Faz sentido, e a gente ainda tem muito a aprender com isso.
Maria saiu da escravidão, passou pela liberdade e chegou ao serviço voluntário. Quem foi curado quer ajudar outros a encontrar cura.
No túmulo vazio
Maria estava na cruz e, na manhã da ressurreição, foi a primeira a chegar ao túmulo. Ao ver a pedra removida, pensou que tinham levado o corpo e correu para avisar Pedro e João. Os dois foram, viram, e voltaram para casa. Maria ficou do lado de fora, chorando (Jo 20:11).
Jesus a encontra exatamente ali, no meio do choro. Ela se vira, vê alguém e não o reconhece. Ele faz duas perguntas: “Mulher, por que choras? A quem buscas?” (Jo 20:15, ARA). Jesus sabe o que nos deixa tristes e entende o nosso medo e a nossa ansiedade. Ele nem sempre tira as lágrimas, mas está ali, no terreno da ressurreição, como resposta à nossa agonia, e promete um dia em que enxugará toda lágrima (Ap 21:4). Repare também na segunda pergunta. Ele não pergunta “o que” ela procura, mas “a quem”. Todo mundo anda procurando alguém, mesmo sem saber. Tem gente que passa a vida atrás de alguma coisa quando devia estar procurando Alguém.
Pensando que era o jardineiro, ela pede que lhe diga onde pôs o corpo. Jesus responde com uma palavra só: “Maria!” (Jo 20:16). Ela se vira e responde em hebraico: “Raboni”, que quer dizer Mestre. Ele a chamou pelo nome. Você já parou pra pensar que Jesus sabe tudo sobre você e gosta de você do mesmo jeito? O Cristo ressuscitado fala o seu nome hoje, também. Você consegue ouvir? E vai segui-lo?
Maria agarra os pés dele, e Jesus a corrige com gentileza: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai” (Jo 20:17, ARA). A amizade com ele continuaria, até mais profunda e rica depois que ele subisse ao céu. E então vem a missão: “Vai ter com os meus irmãos e dize-lhes que subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Maria obedeceu e foi anunciar: “Vi o Senhor!” (Jo 20:18, ARA). Também nós recebemos uma mensagem para dar.
Três desafios
Primeiro, honrar as mulheres como Jesus honrou. Maridos, não rebaixem as esposas. Homens, não menosprezem as mulheres. Quando as mulheres voltaram do túmulo contando que Jesus estava vivo, os discípulos acharam que aquilo era delírio (Lc 24:11), e eram os homens que estavam errados.
Segundo, ser mãe espiritual de alguém. Paulo usou a imagem de uma mãe para descrever como cuidou dos tessalonicenses (1Ts 2:7), e orientou as mulheres mais velhas a ensinar as mais novas (Tt 2:3-4). Mulheres, existem outras mulheres ao seu redor que adorariam aprender com você. Quantos de nós tivemos uma mãe espiritual? Uma senhora que orou por nós, nos ouviu, nos deu um prato de comida, nos aconselhou e chorou junto. Gente assim é Jesus em carne e osso para muita gente.
Terceiro, usar o que você tem para servir onde puder. Se você é mãe, use a sua posição para impactar a próxima geração. Se não é, entregue o que recebeu a serviço do Salvador. Dizem que a americana Emily Tubman, viúva rica do século XIX, libertou os escravos que possuía, em 1844, oferecendo a eles a chance de viver livres na Libéria. Aos que preferiram ficar, ela deu terras, roupas e provisões para se sustentarem. Ela via o próprio dinheiro como algo confiado a ela pelo Senhor.
As duas Marias cumpriram o seu papel: uma como mãe, outra como mulher libertada que serviu com tudo o que tinha. Tomara que a gente também cumpra o nosso, e que um dia ouça o que o senhor diz aos servos fiéis na parábola dos talentos: “Muito bem, servo bom e fiel” (Mt 25:21).
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