
Quem foi Acazias? O rei que consultou Baal-Zebube
O rei que caiu da sacada e consultou os demônios (2 Reis 1)
Receber o trono de uma nação rica costuma ser o sonho de muitos príncipes, mas herdar uma dinastia corrompida na fé é o começo de um desastre anunciado. Acazias, filho do rei Acabe e da rainha Jezabel, assumiu o governo de Israel logo após a morte violenta do pai na batalha de Ramote-Gileade.
O seu reinado em Samaria durou pouco menos de dois anos (por volta de 853 a 852 a.C.). Foi um intervalo curtíssimo, mas tempo suficiente para mostrar que a arrogância, a cegueira moral e o vício idolátrico dos pais tinham passado intactos para o coração do filho.
O texto de 1 Reis 22:51-53 e 2 Reis 1 narra a trajetória desse rei por meio de um episódio que beira o absurdo e expõe a insensatez de quem prefere buscar respostas nos ídolos a se humilhar diante do Deus vivo.
A herança de Acabe e o culto a Baal
O autor bíblico resume o perfil espiritual de Acazias em três linhas:
“E fez o que era mau aos olhos do SENHOR, e andou no caminho de seu pai, e no caminho de sua mãe, e no caminho de Jeroboão filho de Nebate, que fez pecar a Israel: porque serviu a Baal, e o adorou, e provocou à ira o SENHOR Deus de Israel, conforme todas as coisas que seu pai havia feito.”
(1 Reis 22:52-53, Bíblia Livre)
Acazias juntou o pior de dois mundos. Ele manteve a falsa religião de Estado criada por Jeroboão (os bezerros de ouro em Dã e Betel, que pretendiam adorar o Senhor por meio de imagens a serviço da política) e abraçou com fervor o culto importado da Fenícia por sua mãe Jezabel (Baal e Aserá).
Politicamente, o governo foi fraco desde o primeiro dia. Ao perceber a fraqueza do novo rei, Moabe se rebelou contra Israel (2 Reis 1:1) e deixou de pagar o tributo anual de cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros (2 Reis 3:4). Acazias perdeu o controle das fronteiras e a autoridade sobre os povos vizinhos.
O acidente no terraço e a consulta aos ídolos
No meio dessa crise, aconteceu um acidente humilhante. O palácio de Samaria tinha um aposento superior com uma sacada fechada por uma treliça de madeira (2 Reis 1:2). Acazias se apoiou na grade, a estrutura cedeu e ele despencou lá de cima, ficando de cama, gravemente ferido.
Na dor e no risco de morte, o que se esperaria de alguém lúcido é parar, rever a própria vida, arrepender-se e clamar pela misericórdia do Deus Criador. Acazias fez o oposto. Enviou mensageiros para a cidade filisteia de Ecrom, bem longe, na planície do litoral, com esta ordem:
“Vão consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, para saber se vou me recuperar desta doença.”(2 Reis 1:2)
O nome Baal-Zebube parece ser uma zombaria dos autores bíblicos. Entre os cananeus, o deus era provavelmente chamado de Baal-Zebul (“Baal, o príncipe”). Ao que tudo indica, os israelitas mudaram a pronúncia para Baal-Zebube, que quer dizer “senhor das moscas”, uma ironia sobre um ídolo que não passava de carniça. Séculos depois, no Novo Testamento, a forma Belzebu aparece como nome do chefe dos demônios (Mateus 12:24).
A interceptação profética e a pergunta cortante
Antes que a comitiva de Acazias conseguisse alcançar a planície litorânea dos filisteus, o anjo do Senhor mandou o profeta Elias interceptar os mensageiros na estrada (2 Reis 1:3). A pergunta de Elias denunciou a consciência de Israel inteira:
“Acaso não há Deus em Israel, para que vades a consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom? Portanto assim disse o SENHOR: Do leito em que subiste não descerás, antes certamente morrerás.”
(2 Reis 1:3-4, Bíblia Livre)
Os mensageiros ficaram tão impressionados com a autoridade de Elias que deram meia-volta e retornaram a Samaria. Quando o rei perguntou por que tinham voltado tão rápido, repetiram a mensagem daquele homem desconhecido (2 Reis 1:5-6).
Acazias perguntou: “Qual era a roupa daquele homem?”. Eles responderam: “Um homem vestido de pelos, com um cinto de couro na cintura”. O rei logo disse: “É Elias, o tisbita” (2 Reis 1:7-8). Ele conhecia bem aquela descrição: era o profeta que tinha enfrentado seu pai durante anos.
O fogo do céu e a teimosia no leito de morte
Em vez de rasgar as vestes em arrependimento diante da sentença de morte, Acazias reagiu com a truculência dos tiranos. Enviou um capitão com cinquenta soldados para prender o profeta, sentado no alto de um monte (2 Reis 1:9).
O capitão subiu e deu uma ordem prepotente: “Homem de Deus, o rei disse: Desça!”. Elias respondeu: “Se sou homem de Deus, que desça fogo do céu e consuma você e os seus cinquenta soldados!”. O fogo caiu e consumiu o capitão e seus cinquenta. Acazias, cego de raiva e teimosia, enviou um segundo capitão com outros cinquenta homens, que repetiu a arrogância e teve o mesmo fim (2 Reis 1:10-12).
Só o terceiro capitão mostrou temor a Deus. Ele subiu o monte, ajoelhou-se diante de Elias e suplicou: “Homem de Deus, peço que a minha vida e a vida destes cinquenta servos seja preciosa aos teus olhos!”. O anjo do Senhor mandou Elias descer com ele, sem medo (2 Reis 1:13-15). A humildade encontra misericórdia onde a soberba encontra juízo (Tiago 4:6).
Elias entrou nos aposentos reais, parou ao lado do leito de Acazias e repetiu a sentença diante do rei: você desprezou o Deus vivo de Israel para buscar conselho em um ídolo, e da cama onde se deitou não se levantará. Acazias morreu, conforme a palavra do Senhor dita por Elias. Como não tinha filho, o trono passou para o irmão, Jorão (2 Reis 1:16-17).
O perigo da busca equivocada de socorro
A curta e trágica história de Acazias nos deixa três advertências práticas:
- A crise revela onde está a nossa confiança: Quando o corpo adoece, quando os negócios quebram ou quando os planos desmoronam, a nossa primeira atitude mostra quem é o nosso Deus. Correr atrás de superstições, de artifícios escusos ou de atalhos mundanos é confessar, na prática, que não cremos na soberania do Criador. Ele mesmo convida: “E clama a mim no dia da angústia; e eu te farei livre, e tu me glorificarás” (Salmos 50:15, Bíblia Livre).
- A teimosia contra os avisos divinos: Deus deu a Acazias advertências claras, e isso já era graça: Deus chamou o rei antes que ele pedisse, e o rei resistiu. A vaidade e o orgulho o impediram de dobrar os joelhos. Quem endurece o pescoço contra a repreensão da Palavra caminha para a ruína repentina (Provérbios 29:1).
- Deus não reparte a Sua glória (Isaías 42:8): Buscar a orientação dos ídolos e dar as costas ao Senhor é o insulto máximo à Sua aliança. O Deus vivo está sempre pronto a acolher o clamor do coração quebrantado, mas não tolera ser tratado como opção secundária. Em Cristo, o nosso único Mediador (1 Timóteo 2:5), temos acesso ao Pai sem atalho nenhum.
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