
SermõesSermões em Gênesis8 de 10
Gênesis 1Deus cria, dá forma e preenche o vazio
O Arquiteto da Glória
Texto-base: Gn 1:1-25
Imagina que você vai ver o filme mais aclamado do ano, de três horas, que todo mundo está comentando. Por causa do trânsito, chega quinze minutos atrasado. Entra na sala escura, tropeça em algumas pessoas, senta e olha para a tela. O filme já está rolando. Tem gente rindo, gente chorando, uma batalha, drama, comédia, música e muita emoção. Pra piorar, meia hora depois você precisa sair para resolver uma situação e perde mais uma hora de filme.
Quando volta, assiste ao resto e fica muito confuso. Não sabe quem é o herói, quem é o vilão, por que eles estão lutando, nem por que estão dançando. Por quê? Porque perdeu o começo. Perdeu o contexto.
Infelizmente, é assim que muita gente vive. Acorda, trabalha, paga conta, ama, sofre, envelhece e morre como se tivesse chegado no meio do filme. Vive o “meio” da história sem conhecer o início, e quem não conhece o início não consegue entender o propósito do fim.
Então vamos voltar para a primeira cena, antes de existir trânsito, antes de existir choro, antes de existir o tempo. Gênesis 1:
No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.
(Gn 1:1-2)
Esses versículos não são só uma introdução antiga. São o alicerce da sua vida. Se esse primeiro versículo for mentira, podemos fechar a igreja e ir para casa, porque somos apenas um acidente biológico vagando no espaço. Mas, se for verdade, minha gente, cada segundo da sua vida tem um propósito eterno. Neste texto vemos três coisas sobre o nosso Deus: ele é anterior, ele ordena e ele preenche.
O Deus que é anterior
Em português, a primeira frase é “No princípio, criou Deus os céus e a terra”. No hebraico original são apenas sete palavras, sete palavras que sustentam o universo. O que nos choca primeiro é o sujeito da frase. A Bíblia não começa tentando provar que Deus existe, nem com argumentos filosóficos. Ela simplesmente declara: no princípio, Deus.
Gênesis é o livro das origens de tudo: do mundo, do homem, do pecado, da família, exceto de uma pessoa. Gênesis não é a origem de Deus, porque ele já estava lá. Os teólogos chamam isso de asseidade de Deus. A palavra é difícil, mas o significado é simples e lindo: Deus é de si mesmo. Não depende de ninguém. Não precisa de bateria para funcionar. Não foi criado. Antes de o relógio do universo começar a fazer “tic-tac”, Deus já existia em perfeita glória, amor e comunhão entre Pai, Filho e Espírito Santo.
Por que Gênesis 1 importa tanto? Porque os vizinhos de Israel, na Babilônia e no Egito, tinham histórias de criação muito estranhas. Numa delas, o Enuma Elish, o mundo surge de uma briga entre deuses: o deus Marduk mata um monstro chamado Tiamat, e da carcaça do monstro faz o mundo. Era uma criação feita de violência, esforço e sangue. Agora olhe para a sua Bíblia. Deus está suando? Está lutando? Está cansado? Não.
A Bíblia diz, em Hb 11:3, que o que se vê não foi feito do que é visível. A tradição cristã chama isso de criação ex nihilo, “a partir do nada”. Imagine um marceneiro. Para fazer uma cadeira, ele precisa de madeira, prego e cola, precisa de material que já existe. Deus não. Não havia blocos de montar cósmicos boiando no espaço. Não havia nada. E Deus, com o poder da sua vontade, disse “exista”, e passou a existir.
Isso muda tudo. Se o mundo fosse fruto do acaso, ninguém seria dono de nada. Mas, se Deus criou tudo do nada, ele é o dono legítimo de tudo: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl 24:1). Isso significa que a sua vida não pertence a você. O ar que você respira é emprestado dele. O chão que você pisa é propriedade dele. Ele é o proprietário absoluto, e nós somos inquilinos e mordomos.
O Deus que ordena
O versículo 2 nos mostra uma cena misteriosa: “A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo”. No hebraico, a expressão é tohu wa-bohu, que soa quase como uma bagunça. Quer dizer “sem forma e vazio”. Um deserto, um lugar inabitável.
Tem gente que lê isso e pensa: será que Deus errou? Será que fez um rascunho malfeito? Não. Imagine um oleiro com um bloco de argila sobre a mesa. A argila é real, foi criada, mas ainda não tem forma de vaso. Ou um arquiteto construindo uma casa: primeiro levanta a estrutura, mas a casa ainda está vazia, sem móvel e sem pintura. É isso que Deus está fazendo. Nos seis dias da criação, ele age como um engenheiro supremo resolvendo dois problemas: a falta de forma e o vazio.
Repare na simetria da semana da criação. Nos dias 1, 2 e 3, Deus resolve o problema do “sem forma” e cria a estrutura. No dia 1 separa a luz das trevas, e cria o tempo. No dia 2 separa as águas de baixo das águas de cima, e cria o espaço, o céu. No dia 3 separa a terra seca do mar, e cria a geografia. Deus traça limites, desenha as paredes da casa e transforma o caos em cosmos, que quer dizer ordem. O nosso Deus não é um Deus de confusão. É um Deus de ordem, de distinção, de propósito.
Talvez você esteja aqui hoje e a sua vida pareça o versículo 2: tohu wa-bohu, sem forma e vazia. A mente é um caos. Os sentimentos são um abismo escuro. Você não vê propósito no dia a dia. A boa notícia de Gênesis 1 é que Deus é especialista em pegar o caos e transformar em jardim. O texto diz que o Espírito de Deus pairava sobre as águas, pronto para trazer vida. Se ele fez isso com o universo físico, pode fazer com a sua vida, a sua família e o seu coração desordenado.
O Deus que preenche
Deus não apenas forma a casa, ele a mobília. Os três primeiros dias deram forma, e os dias 4, 5 e 6 preenchem o vazio. O dia 1 criou a luz, e o dia 4 a preenche com o sol, a lua e as estrelas. O dia 2 criou o céu e o mar, e o dia 5 os preenche com pássaros e peixes. O dia 3 criou a terra seca, e o dia 6 a preenche com os animais e, por fim, o homem.
Quero focar um instante no dia 4, porque aqui vemos o tamanho do nosso Deus. O versículo 16 diz algo quase engraçado de tão simples. Descreve a criação dos grandes luminares e, no final da frase, Moisés escreve só: “e fez também as estrelas”. Em português são cinco palavras. Em hebraico, apenas duas: ve’et hakokhavim. Como se fosse um detalhe, a cobertura do bolo.
Pense no que a ciência moderna nos mostra hoje. O telescópio Hubble enviou imagens de “berçários estelares”, lugares onde estrelas nascem. Algumas dessas nebulosas são tão grandes que, mesmo viajando na velocidade da luz, que é de uns 300 mil quilômetros por segundo, você levaria séculos, e em alguns casos mais de mil anos, só para atravessar uma delas. E isso é um pontinho na nossa galáxia, que é uma entre bilhões. A Bíblia diz que Deus fez tudo isso “também”, sem esforço, com uma palavra. E Isaías diz que ele chama cada estrela pelo nome e não perde a conta (Is 40:26).
Hoje em dia muita gente lê horóscopo. Olha para as estrelas procurando direção para a vida: “Ah, Mercúrio está retrógrado, então meu dia vai ser ruim”. Gênesis 1 é uma afronta a isso. Diz: não adore as estrelas, elas são apenas lâmpadas que Deus pendurou no teto. Não consulte a criação, consulte o Criador. O sol não é um deus, como pensavam os egípcios. É um servo de Deus para marcar o tempo.
Isso toca fundo na nossa cultura brasileira. Vivemos num país onde, historicamente, muita gente busca conexão com o divino nas forças da natureza. Vemos pessoas prestando culto ao mar, acreditando que ali mora uma divindade, uma “mãe das águas”. Vemos pessoas cultuando o trovão, as matas, o ferro e os ventos, dando nomes e personalidades a essas forças e chamando-as de orixás ou guias.
Mas olhe o que a Bíblia diz aqui. O mar não é uma divindade, é água que Deus juntou num lugar e mandou ficar ali. Não tem poder espiritual próprio, obedece à gravidade que Deus criou. O trovão e a tempestade não são deuses, são fenômenos atmosféricos que obedecem à voz do Criador. As matas e as ervas não têm poder místico, são vegetais que Deus fez brotar da terra no terceiro dia. Gênesis 1 é um ato de “desmitificação”. Moisés está dizendo: a natureza não é divina, a natureza é criatura. Quando atribuímos divindade à água, ao sol ou à terra, cometemos o erro que Paulo denuncia: “Honraram e serviram mais a criatura do que o Criador” (Rm 1:25).
Não precisamos agradar o espírito do mar nem temer o espírito das tempestades. Adoramos aquele que anda sobre o mar e acalma a tempestade. Só existe um Senhor no universo, e ele não divide a sua glória com a natureza que ele mesmo criou.
A pergunta que o texto nos faz é: qual é o tamanho do seu Deus? Às vezes os problemas parecem gigantes. O desemprego parece uma montanha, a doença parece invencível, a crise no casamento parece o fim do mundo. Sabe por que ficamos desesperados? Porque, na nossa imaginação, achamos que o nosso Deus ficou pequeno demais para nos ajudar. Mas, se Deus tem poder para falar e surgir uma galáxia, será que não tem poder para cuidar da sua vida? Se organizou o caos do universo com precisão matemática, será que não consegue guiar os seus passos?
O convite do Criador
Olhe agora para o quadro completo. Deus criou tudo, formou tudo, preencheu tudo. No fim do capítulo 1, olhou e disse que era “muito bom”. Mas a história não parou ali. O pecado entrou no mundo e trouxe o caos de volta, o tohu wa-bohu para dentro do coração humano.
A Bíblia, porém, não termina em Gênesis. João começa o seu Evangelho da mesma forma:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. […] Todas as coisas foram feitas por intermédio dele.
(Jo 1:1-3)
Quem é esse Verbo? Jesus Cristo. E Paulo escreve: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo” (2Co 4:6). Aquele que estava em Gênesis 1 dizendo “haja luz” é o mesmo que veio ao mundo, morreu na cruz e disse: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8:12). Gênesis 1 nos apresenta o Deus Criador. O evangelho nos apresenta o Deus Redentor.
O Deus que fez você é o mesmo que quer salvar você. Quer pegar o caos do seu pecado e trazer a ordem do perdão. Quer pegar o vazio da sua alma e preencher com o Espírito Santo. Você não é um acidente cósmico nem fruto do acaso. Você é ideia de Deus. Foi planejado. E esse Deus grande e poderoso, arquiteto do universo, convida você hoje a confiar nele.
Não tente viver o filme da sua vida sem conhecer o autor do roteiro. Entregue o caos nas mãos dele e veja o que ele faz de melhor: criar algo belo e novo.
Senhor, Deus Todo-Poderoso, Arquiteto da criação, nós ficamos pequenos diante da tua grandeza. Quando olhamos para os céus, obra das tuas mãos, perguntamos: quem somos nós? Mas tu nos amas. Obrigado por não nos deixares no caos. Obrigado por trazeres luz. Eu oro agora por cada pessoa que se sente vazia e sem forma. Que o teu Espírito paire sobre nós e traga a vida nova que só existe em Jesus Cristo. Em nome dele nós oramos. Amém.
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