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Gênesis 12Abraão partiu sem mapa, mas sabia quem o chamava
Fé e crença: o chamado de Abrão em Harã
Quase ninguém sai de viagem hoje sem ligar o GPS. A gente quer saber a rota inteira, o tempo de chegada e onde vai ter posto de gasolina antes de girar a chave. Abraão recebeu uma ordem bem menos detalhada:
O SENHOR disse a Abrão: “Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei.”
(Gn 12:1, NVI)
Sem endereço, sem mapa, sem garantia de conforto. Abrão deixa Harã, a terra, a parentela e a casa do pai, e parte porque a voz de Deus lhe falou e ele a escutou. Ele não sabe o papel que vai ter na história da salvação. Não tem como saber. Tudo o que tem é o chamado, e o chamado basta, porque quem ordena é Deus, e se Deus ordena, o futuro está nas mãos dele.
Sem mapa, mas não sem certeza
Hebreus diz que Abraão partiu sem saber para onde ia (Hb 11:8). Talvez seja exatamente isso que falta pra gente: a coragem de partir sem ter o roteiro completo na mão.
Mas repare no que Abraão sabia. Não sabia o caminho, só que sabia quem falava. A Bíblia diz que a fé é “a certeza daquilo que esperamos” (Hb 11:1), então fé não é viver sem nenhuma certeza. É ter certeza da pessoa, mesmo sem certeza da rota. Abraão também fez perguntas pelo caminho, e Deus respondeu com uma aliança (Gn 15:8-18). A diferença é que ele perguntava andando.
Zacarias, no Novo Testamento, é o contraste. Diante da promessa do anjo, ele quis prova antes de ceder: “Como posso ter certeza disso?” (Lc 1:18). Ficou mudo até o filho nascer (Lc 1:20). Pedir garantia antes de dar o primeiro passo é o que a gente faz o tempo todo, e é o que Jesus responde com um “Não tenha medo; apenas creia” (Mc 5:36).
Ficar em Harã
Nós também ouvimos chamados, e muitas vezes ficamos. Ficamos porque as nossas crenças são como muletas: nos sustentam e evitam que a gente se lance no abismo da fé.
Abraão não nasceu num lar de fé. A família dele servia a outros deuses (Js 24:2). Quando Deus o chama, ele larga o que lhe era familiar e se apoia na voz que o chamou. Aquilo que parecia sólido ficou para trás, e sobrou a promessa.
Aqui vale distinguir crença de fé. Crença é o que a gente herda: as práticas, as doutrinas e o jeito de ser igreja que recebemos dos pais e da comunidade. Isso tem valor, e a fé cristã se apoia em verdades bem definidas. O problema é quando a crença fica sozinha. Fé é a experiência viva de Cristo, aquilo que nos transforma de dentro para fora. Sem ela, a crença vira palavra vazia, e o nosso testemunho fica opaco como uma chama prestes a se apagar. Tiago diz sem rodeios que a fé sem obras é morta (Tg 2:17).
Friedrich Nietzsche criticou os cristãos porque, segundo ele, não pareciam redimidos o bastante para que acreditasse no seu Redentor. A crítica dói porque às vezes acerta. Onde está o fogo de Pedro e o espírito de Paulo? A gente prefere ler o mapa a visitar o lugar, prefere explicar a experiência em vez de viver. Fala de amor, mas nem sempre ama. Fala de compaixão, mas nem sempre pratica. E o mundo vê isso.
Muitas vezes nos agarramos a um Deus contabilista, que vê tudo e cobra tudo, ao medo de errar que paralisa, às listas de certo e errado que dão ilusão de controle. É a religião dos fariseus, que Jesus confrontou porque cuidava de pequenas regras e deixava de lado a justiça, a misericórdia e a fé (Mt 23:23). Queremos um Deus que abençoe, mas não desafie, que console, mas não nos tire do lugar seguro. Só que isso não é fé. É negociação.
A fé que cresce na prova
Isso não significa que a fé de Abraão nasceu pronta. Ela foi se construindo aos poucos, no meio das provas. Quando Deus pediu que ele oferecesse Isaque (Gn 22), Abraão confiou que Deus era capaz até de ressuscitar o filho (Hb 11:17-19), e ali aprendeu que o Deus dele é o Deus da vida. A fé é isso: confiar que Deus quer o nosso bem, mesmo quando tudo ao redor parece dizer o contrário (Rm 8:28).
O mesmo vale pra mim. A minha fé já vacilou e ainda vacila. Também já quis saber de antemão tudo o que Deus tinha reservado, antes de dar o passo. Só que a fé que resiste às tempestades é a que sabe que Deus está no controle, mesmo quando tudo parece fora de controle.
Quem é Jesus para você
“E vocês, quem dizem que eu sou?”, perguntou Jesus aos discípulos (Mt 16:15). Ninguém responde por nós. Ninguém pode nos poupar da decisão pessoal sobre quem é Jesus. E é a partir dele que revisamos as ideias que a gente fazia de Deus. Em Jesus, vemos um Deus que é amor, que perdoa e acolhe, e que também é santo e nos chama a uma vida nova. Quando deixamos a crença tomar o lugar da fé, ou a religião se interpor entre nós e o Senhor, perdemos o essencial: a capacidade de amar, de perdoar e de acolher o outro como ele é.
Abrão deixou Harã e seguiu para Canaã. Talvez a gente também precise atravessar o abismo entre crença e fé, deixar para trás o medo e o conforto das seguranças humanas e se entregar ao Deus que nos chama. A cruz é o sinal dessa fé: nos desafia a viver como Jesus viveu, a confiar como ele confiou, a amar como ele amou. Porque fé não é só o que a gente acredita, é o jeito como vive. É amar sem esperar nada em troca, perdoar mesmo quando não há arrependimento, servir mesmo quando ninguém reconhece.
Tomara que a gente tenha a coragem de sussurrar, todos os dias, o pedido dos discípulos: “Aumenta a nossa fé!” (Lc 17:5). Que a nossa fé não seja eco distante de crenças antigas, mas uma experiência viva, um passo em direção ao amor de Deus, o mesmo amor que chamou Abrão a deixar tudo para trás.
Senhor, aumenta a nossa fé e nos dá coragem para seguir o teu chamado, mesmo sem ver o caminho todo. Que a gente confie plenamente em ti e viva o teu amor. Amém.
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