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Morte de Sara em Gênesis 23: Abraão e a promessa de Deus

O dia certo para amar: Abraão, Sara e a caverna de Macpela

Diego Gonçalves13 min de leitura2.611 palavras

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Neste texto

Às vezes, a vida nos sufoca. O peso das responsabilidades, os prazos que nunca cessam, as demandas de todos ao nosso redor. É fácil esquecer o que realmente importa. Se você for honesto consigo mesmo, vai ver que não é difícil a gente se perder no meio da própria rotina.

Cuidamos dos nossos afazeres, corremos de um lado para o outro, mas, à noite, quando deitamos a cabeça no travesseiro, há sempre uma inquietação, um sussurro: “Para quem eu realmente estou vivendo? Será que estou amando o suficiente?”

Abraão conheceu bem essas incertezas. Ele teve a coragem de sair de onde estava confortável e deixou para trás tudo o que conhecia porque ouviu uma voz que dizia “vá”. Eu creio que a maioria de nós começou assim. Em algum momento da vida, ouvimos um chamado de Deus. Às vezes é um sussurro suave, outras vezes é um grito na alma que não conseguimos ignorar. Então nos lançamos às promessas de Deus, esperando que, de alguma forma, dê certo. A fé tem um pouco de tiro no escuro, mas ao mesmo tempo é uma confiança visceral de que é Deus quem está chamando.

Só que Abraão também viveu a vida comum, aquela que ninguém narra em livros de história. Cuidou dos rebanhos, sentou-se ao redor da fogueira com Sara e Isaque, e provavelmente riu, chorou, esperou. Uma vida comum, como a minha e a sua.

Abraão chora por Sara

E então Sara morreu. O que vemos em Gênesis 23 é um homem de coração partido, chorando a perda da amada esposa. Não há vergonha nenhuma nisso. Abraão chorou porque amou.

Talvez a primeira lição do texto seja que amar significa arriscar. Significa permitir que o nosso coração seja partido, porque, cedo ou tarde, todos nós vamos perder alguém que amamos. É inevitável, mas é também o que dá sentido à nossa existência.

Será que Abraão, naquele dia, ficou pensando: “Eu poderia ter só que eu poderia ter feito aquilo”? Não dá pra saber. Mas muita gente fica olhando para trás, desejando ter tido mais tempo, ter amado mais, ter dito palavras mais carinhosas e mais generosas. A verdade é que a vida não tem replay. Não dá pra voltar o vídeo e refazer os dias que já se foram. O tempo que temos é agora. Não é o ontem, não é o amanhã, mas agora.

Você deve ter conhecido, como eu, tantas pessoas que viviam esperando o dia certo, a ocasião perfeita para demonstrar amor, para dizer “eu te amo”, para perdoar. Às vezes esse dia nunca chega, e a vida vai escapando pelas mãos.

O Taj Mahal e o amor que fala tarde demais

Existe uma história real, do início do século XVII, em que Shah Jahan, imperador da Índia, parecia ter tudo o que o mundo poderia oferecer: riquezas, poder e um vasto império. Nada disso, porém, impediu a dor quando a sua amada esposa, Mumtaz Mahal, morreu ao dar à luz, depois de quase vinte anos de casamento.

Dizem que ele era profundamente apaixonado por ela e que, tomado pelo desespero, decidiu imortalizar esse amor. Assim nasceu o Taj Mahal, um mausoléu enorme, hoje patrimônio da humanidade e uma das sete maravilhas do mundo moderno. Dizem que foram precisos cerca de vinte e dois anos de trabalho árduo, com mais de vinte mil artesãos, usando o mármore mais puro e pedras preciosas. Tudo para declarar ao mundo o que ele sentia por ela. E ele ficou ali, ao lado daquele mausoléu gigantesco, falando palavras que jamais poderiam ser ouvidas.

A caverna de Macpela

O texto de Gênesis 23 também nos leva a uma história parecida, mas muito mais antiga, de uns quatro mil anos atrás. É de novo a história de um homem que enfrentou a perda da sua amada, só que de uma maneira completamente diferente.

Abraão estava comprando mais do que um pedaço de terra. Estava comprando um símbolo, um pequeno pedaço da promessa que Deus tinha feito a ele. Deus já havia dito: “À tua descendência darei esta terra” (Gn 12:7). E de novo: “Olha para o norte e para o sul, para o leste e para o oeste; toda a terra que vês, eu darei a ti e à tua descendência para sempre” (Gn 13:14-15).

Curiosamente, até o fim da vida Abraão não recebeu nem um palmo dessa terra. Tudo o que ele tinha era essa caverna, que comprou para sepultar Sara (Gn 23:19). Ele mesmo diz aos hititas: “Sou estrangeiro e peregrino entre vocês” (Gn 23:4). Abraão sabia que aquela terra não era a sua casa definitiva, mas ainda assim queria uma pequena parte dela como sinal da promessa. O autor de Hebreus nos lembra que, “pela fé, ele viveu como estrangeiro na terra da promessa, habitando em tendas” (Hb 11:9). Abraão era estrangeiro na própria terra que Deus havia prometido, mas sabia que a verdadeira herança era maior do que o que ele podia ver. E, mesmo sem ver tudo se cumprir, confiou.

Hebreus nos dá um vislumbre do que Abraão, Sara e todos os que confiaram nas promessas de Deus estavam realmente buscando: “todos esses morreram na fé, sem ter recebido as promessas, mas vendo-as de longe e saudando-as” (Hb 11:13). Eles sabiam que não pertenciam a este mundo e se viam como peregrinos e estrangeiros. Por que isso importa? Porque, mesmo sem ver tudo o que Deus prometeu se cumprir, eles escolheram acreditar. Desejavam uma “pátria melhor”, um lugar que só poderia ser encontrado além deste mundo (Hb 11:14-16).

Abraão poderia ter voltado para Ur, para a terra onde nasceu. Poderia ter levado Sara de volta para a família e a enterrado lá, onde tinha raízes. Mas não fez isso. Insistiu em enterrá-la na terra que Deus havia prometido, mesmo que ainda não fosse sua. Para Abraão, o verdadeiro lar estava no centro da promessa de Deus, e não num lugar que ele já havia deixado para trás.

É impressionante que Hebreus 11 diga que essas pessoas “morreram na fé” sem ver todas as promessas realizadas. A maioria de nós espera ver as promessas de Deus se cumprirem nesta vida. Mas a fé brilha mais forte à beira da sepultura, quando tudo o que temos é a esperança de que Deus é fiel, mesmo quando não conseguimos ver. Ao comprar aquela caverna para enterrar Sara, Abraão estava dizendo: “Um dia, tudo isso será nosso.” Segurava firme nas promessas de Deus, mesmo quando tudo à sua volta parecia dizer o contrário.

Há, então, uma lição aqui: as promessas de Deus não se esgotam nesta vida. Aqueles que confiaram em Deus buscavam uma “pátria melhor, a saber, a celestial” (Hb 11:16). Olhavam além do que este mundo pode oferecer. Abraão, ao comprar aquele pequeno pedaço de terra, apontava para algo maior.

A nossa esperança não está nas coisas que vemos agora, mas no que Deus prometeu para além desta vida. Como fez com Abraão, Deus também nos promete uma cidade, uma nova Jerusalém, onde não haverá mais dor, luto ou morte (Ap 21:2-4). A pequena caverna de Macpela se torna um símbolo de que o melhor ainda está por vir. Para quem crê, a vida não termina no túmulo, ela apenas começa.

Amar hoje

A morte, para nós, é um fim, sim. Mas o que mais importa é o que fazemos com o tempo que nos foi dado antes que esse fim chegue. Você não precisa ser um herói nem conquistar o mundo. Tudo o que Deus nos pede é que amemos uns aos outros, que vivamos de forma autêntica e que sejamos corajosos o bastante para arriscar o coração, mesmo sabendo que amar dói e que o coração pode ser partido.

Por isso, hoje, agora, eu te desafio a deixar o amor falar mais alto. Perdoe quem precisa ser perdoado, ame sem medo, ria alto, chore se precisar. O amor é a única coisa que realmente vai importar quando tudo mais desaparecer, o único tesouro que levaremos conosco. E quando nos encontrarmos com o Pai, no fim de tudo, o que será lembrado não é o quanto fizemos, mas o quanto amamos.

Se você me perguntar qual é o maior ato de fé que dá pra fazer hoje, eu diria que não é um gesto grandioso nem uma demonstração espetacular. É simplesmente isso: ame. Ame como se não houvesse amanhã, porque, na verdade, o amanhã é um presente que não temos certeza de que receberemos. Ame hoje, ame agora, ame como Jesus amou, sem reservas, sem medo, sem medidas.

A esquina e o amigo que nunca foi visitado

Há um poema do americano Charles Hanson Towne, “Around the Corner” (em português, algo como “Virando a esquina”), que conta de alguém que tinha um amigo e sempre dizia que iria visitá-lo. Pensava: “Um dia desses eu vou, assim que tiver um tempinho.” Os dias viraram semanas, as semanas viraram meses, até que alguém chegou e disse: “Você se lembra daquele seu amigo? Pois é, ele faleceu.” E ali, naquele momento, ele percebeu que nunca mais poderia dar aquele abraço, nunca mais teria aquela conversa que sempre adiava. Já era tarde demais.

A vida é assim, um sopro. Como o vento de primavera que vem e vai, tão leve que mal percebemos, até que já se foi. A Bíblia nos lembra disso tantas vezes: somos como uma neblina que logo se dissipa (Tg 4:14), como uma flor que floresce pela manhã e murcha à tarde. Mesmo sabendo disso, quantas vezes dizemos: “Amanhã eu faço, amanhã eu vou, amanhã eu digo que amo.” O dia certo é hoje. Não o amanhã que nunca chega, mas o agora, este exato momento em que respiramos e vivemos.

Jesus nunca se atrasou nem se adiantou, mas sempre esteve presente no momento certo. Em Lc 9:57-62, ele chama pessoas para segui-lo, e elas tinham boas desculpas: queriam enterrar o pai, se despedir da família. Coisas importantes. Mas Jesus, com aquela firmeza amorosa que só ele tem, disse: “Quem coloca a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9:62). O que ele estava dizendo? Que às vezes adiamos o que é essencial, que priorizamos o urgente em vez do eterno. E, ao fazer isso, acabamos perdendo o que mais importa.

O pastor e escritor Charles Swindoll escreveu uma vez sobre a vida com crianças. No meio do caos, desejamos o momento em que a casa vai ficar em silêncio, quando as crianças crescerem. Mas, quando esse dia chega e o silêncio se instala, percebemos que era o barulho, aquela bagunça alegre, que nos preenchia de verdade. E então começamos a desejar que os netos apareçam para trazer de volta um pouco do caos que um dia achávamos que nos incomodava.

Eu e a Ale estamos juntos há mais de 22 anos. Nos casamos com 18 anos. Lembro que, lá pelos dez anos de casados, ainda tínhamos guardadas no armário as louças que ganhamos no casamento. Acho que a gente esperava um momento perfeito para usar, um momento que nunca chega. Um dia me deu uma louca e comecei a usar aquelas louças caras no nosso dia a dia. Ela ficou brava, mas consegui convencê-la de que aquele era o momento certo.

É isso que Deus nos ensina: o momento certo é agora. Não amanhã, não daqui a um mês. Hoje é o dia para dizer “eu te amo”, para pedir perdão, para se reconciliar, para abraçar quem precisa ser abraçado. Porque o amanhã é um sonho que pode nunca se realizar.

Onde está o seu tesouro

Abraão, com toda a sua riqueza e todos os seus bens, sabia que não pertencia a esta terra. Era um peregrino, um viajante, como eu e você. Compreendeu que, no fim das contas, não são as posses nem as coisas materiais que nos dão paz, mas o amor que damos e recebemos e o tempo que passamos com aqueles que amamos.

Onde está o seu tesouro? Porque onde o seu tesouro estiver, ali estará também o seu coração (Mt 6:21). Deus não nos pede para renunciar às coisas que nos deu, mas quer que entendamos que o que permanece são as pessoas que amamos, os momentos que compartilhamos e as memórias que criamos. Porque, no fim de tudo, quando o último suspiro se aproximar, não é o saldo da conta bancária que vai nos trazer consolo.

Por duas vezes estive no vale da sombra da morte (Sl 23:4). Da última vez, fiquei ali por 13 dias, totalmente acordado. Vi muita gente morrer. Cada dia morria pelo menos duas pessoas à minha volta. A sensação que eu tive é que ali ninguém quer saber se a inflação subiu ou desceu, se o dólar caiu ou subiu, como ganhar mais dinheiro, comprar uma casa maior ou um carro mais bonito. O que as pessoas queriam, no fim das contas, era um pouco mais de tempo, um pouco mais de amor, um pouco mais de oportunidade.

Imagina alguém, no fim da vida, olhando nos olhos de quem está ao lado e dizendo: “Se eu pudesse voltar atrás, teria amado mais, perdoado mais, me importado menos com coisas que hoje não significam nada.” É a verdade, e dói ouvir. No fim, o que importa não são os prêmios que acumulamos, mas o amor que damos.

Quantas famílias estão quebradas não porque faltou dinheiro, mas porque faltou presença? Pais tão ocupados tentando garantir o melhor para os filhos, quando o que os filhos realmente queriam era o pai por perto, a mãe por perto, alguém que se sentasse ao lado deles no sofá, desligasse o telefone e perguntasse: “Como foi seu dia?” A gente corre tanto, tentando alcançar alguma coisa, e quando finalmente chega lá percebe que deixou para trás o que realmente importava.

Não estou dizendo que é errado ter posses. Abraão era um homem rico, mas nunca deixou que a riqueza definisse quem ele era ou onde estava o seu coração. Viveu como estrangeiro, como peregrino, porque sabia que esta terra nunca seria seu lar permanente. É isso que a gente esquece. Nos apegamos tanto a este mundo, às suas pequenas distrações e promessas vazias, que nos esquecemos de que estamos aqui só de passagem.

Abraão perdeu Sara, a amada, a parceira de toda uma vida. Quando se levantou para enterrá-la, não foi com pompa nem ostentação. Pagou o preço justo pela caverna de Macpela porque sabia que nada que lhe fosse dado pelos homens teria o mesmo valor que a promessa de Deus. A sua verdadeira herança estava além desta terra, e essa é a lição que precisamos aprender.

Jesus nos mostrou isso de tantas maneiras. Quem tenta salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem a perde por amor a ele vai encontrá-la. Porque o que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma (Mt 16:25-26)? Ou perder a família, os amigos, o que realmente importa? É tentador colocar a esperança nas coisas que podemos tocar e ver. Mas o verdadeiro tesouro está lá, onde nem a traça, nem a ferrugem, nem os ladrões podem alcançar (Mt 6:19-20).

Até lá, enquanto andamos por esta terra, que a gente viva com propósito. Que possamos dizer hoje as palavras que precisam ser ditas, amar mais profundamente, perdoar mais rápido. Não deixe para amanhã, porque o amanhã não está garantido. Hoje é o dia de viver como se fosse o último, de dar aquele abraço, de dizer aquele “eu te amo” que está preso na garganta.

E quando finalmente cruzarmos o limiar desta vida para a próxima, tomara que a gente possa ouvir do nosso Senhor o “Muito bem, servo bom e fiel” (Mt 25:21). Que ele diga: “Você amou bem, você viveu bem. Bem-vindo para casa.”