
Medrosos e furiosos: assim eram os apóstolos de Cristo
Pedro, André, Tiago, João e os demais: homens comuns que Jesus chamou e o Espírito transformou
Se imaginamos os doze apóstolos como vitrais de catedral, perfeitos, solenes e olhando para o céu, estamos começando errado. A verdade é que o grupo original que Jesus escolheu era… complicado. Um deles negou Jesus publicamente três vezes. Outro exigiu provas físicas da ressurreição. Dois deles tentaram pedir posições de poder no futuro reino. Eram homens comuns, pescadores rudes, um coletor de impostos desprezado, até um nacionalista radical. E é exatamente por isso que a história deles é tão poderosa: não é sobre a capacidade deles, mas sobre quem os chamou.
Jesus não os chamou de um seminário. Ele os tirou de seus barcos de pesca, de suas mesas de impostos e de outras ocupações. Escolheu doze entre os seus discípulos e deu a eles o nome de apóstolos (Lucas 6:13), que significa “enviados” ou “mensageiros”. As listas nos evangelhos e em Atos nos dão seus nomes, mas é nas entrelinhas que vemos quem eles realmente eram: homens que caminharam com Deus encarnado, e que, apesar de suas fraquezas, levaram a mensagem dele ao mundo.
Pedro e André
Vamos olhar primeiro para o círculo mais próximo. Simão Pedro, talvez o mais famoso. Um pescador de Betsaida, impulsivo, que falava antes de pensar. Ele é o retrato do seguidor cheio de conflitos. Num momento, ele anda sobre as águas; no seguinte, afunda em medo. Ele corta a orelha de um servo do sumo sacerdote em Getsêmani e, horas depois, nega Jesus três vezes. Ele chegou a ser repreendido por Jesus: “Para trás de mim, Satanás!”, quando tentou impedir o caminho da cruz. Mas esse mesmo Pedro foi quem declarou em Cesareia de Filipe que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mateus 16:16).
E foi ali que Jesus falou do nome que lhe dera desde o primeiro encontro, Pedro, a “Rocha” (João 1:42). O livro de Atos mostra como o Espírito Santo transformou esse homem instável no líder da igreja primitiva. A tradição diz que seu ministério terminou em Roma, onde foi martirizado. Junto com ele estava seu irmão, André. André também era pescador e, curiosamente, tinha sido discípulo de João Batista. É provável que ele tenha sido o primeiro discípulo a seguir Jesus. A tradição bizantina o chama de Protokletos, “o primeiro chamado”.
É André quem aponta o menino com os pães e peixes antes da multiplicação, e é ele quem, junto com Filipe, facilita o encontro de alguns gregos com Jesus. Sua história missionária, segundo a tradição, o levou para a região da Cítia, ao redor do Mar Negro, antes de seu martírio na Grécia.
Os Filhos do Trovão
Depois, temos os “Filhos do Trovão”. Jesus apelidou Tiago e João, filhos de Zebedeu, dessa forma. Dá para imaginar o temperamento. Eram pescadores, e parecem ter tido um certo ímpeto. Eles sugeriram que Jesus pedisse fogo do céu para consumir uma vila samaritana que não os recebeu. E foram eles que, sem cerimônia, pediram para sentar um à direita e outro à esquerda de Jesus na glória. Apesar dessa ambição crua, eles foram transformados. Tiago, provavelmente o mais velho, foi o primeiro dos doze a morrer por sua fé, executado por Herodes, como lemos em Atos.
Já seu irmão, João, parece ter sido o “discípulo a quem Jesus amava”, autor do quarto evangelho. Ele foi uma coluna da igreja, como Paulo menciona em Gálatas 2:9, e viveu o suficiente para ser exilado na ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. A tradição diz que ele foi o único a morrer de velhice, em Éfeso.
Filipe, Bartolomeu e Tomé
O círculo se alarga, mas as histórias continuam reveladoras. Temos Filipe, também de Betsaida. Ele parece ser o homem prático do grupo. Foi a ele que Jesus perguntou onde comprariam pão para alimentar a multidão, e ele respondeu com as contas do que faltava (João 6:5-7). E foi ele quem, na Última Ceia, pediu: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (João 14:8). A tradição diz que ele teve um ministério extenso e foi crucificado em Hierápolis, na atual Turquia. Foi Filipe quem chamou Bartolomeu, que muito provavelmente é o Natanael mencionado no evangelho de João.
A reação inicial de Natanael é clássica: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa?” Uma resposta cética, que só mudou quando Jesus o viu “debaixo da figueira”. A tradição conecta Bartolomeu a um ministério que pode ter chegado até a Índia, mas sua influência mais forte é ligada à Armênia, onde teria sido martirizado. E claro, não podemos esquecer de Tomé. Para sempre lembrado como “Tomé, o incrédulo”. Ele não estava presente quando Jesus apareceu no domingo de Páscoa. Sua resposta foi direta: só creria se visse as marcas dos pregos nas mãos de Jesus e pusesse o dedo nelas (João 20:25).
Mas essa dúvida não foi o fim da história. Quando ele finalmente vê Jesus, sua resposta é uma das maiores confissões de fé da Bíblia: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28). A tradição cristã nos dá um legado incrível de Tomé, ligando-o à fundação da igreja na Índia, onde milhões de cristãos até hoje se identificam com ele.
Mateus e os menos conhecidos
Havia também Mateus. Um publicano. Um coletor de impostos. Para seus conterrâneos judeus, ele era um traidor, trabalhando para Roma. Jesus o encontrou em sua coletoria e disse apenas duas palavras: “Siga-me”. E Mateus largou tudo. A tradição da igreja primitiva atribui a ele a autoria do primeiro evangelho. Finalmente, temos um grupo sobre o qual a Bíblia fala muito pouco. Tiago, filho de Alfeu, às vezes chamado de “o Menor”, para diferenciá-lo do irmão de João. Judas, também chamado de Tadeu, que na Última Ceia perguntou a Jesus por que ele se revelaria a eles e não ao mundo. E Simão, o Zelote.
O título “Zelote” pode indicar uma afiliação política anterior, um grupo nacionalista que resistia a Roma, ou simplesmente que ele era “zeloso” em sua fé. A Bíblia não nos dá detalhes de seus ministérios, mas a tradição da igreja sim. Ela frequentemente coloca Simão e Judas juntos, ministrando na Síria e na Pérsia, onde teriam sido martirizados.
Matias, o décimo segundo
E, claro, não podemos esquecer de Matias. Após a traição e morte de Judas Iscariotes, os onze apóstolos precisavam completar o número doze. O critério estabelecido em Atos capítulo um era claro: precisava ser alguém “que nos acompanhou todo o tempo em que o Senhor Jesus vivia entre nós” (Atos 1:21). Matias foi escolhido. Ele não estava no grupo original, mas era um discípulo presente desde o início.
Uma transformação coletiva
A identidade individual desses homens é interessante. Mas o que marca o legado deles é a transformação coletiva. Eles eram homens comuns, cheios de dúvidas, medos e ambições erradas. Mas eles viram o Cristo ressurreto. Eles receberam o Espírito Santo. E esses doze homens, pescadores, céticos, coletores de impostos, se tornaram as testemunhas que levaram o evangelho “até os confins da terra” (Atos 1:8). A história deles não é sobre a grandeza humana. É sobre a fidelidade de Deus em usar pessoas improváveis.
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