
EstudosEstudos em João13 de 14
Oração sacerdotal de Jesus em João 17: Pelo que ele pediu
O que Jesus pediu antes de morrer (João 17:1–26)
Os teólogos costumam chamar o capítulo 17 de João de “a oração sacerdotal de Jesus”, e o nome é justo. Depois de capítulos inteiros em que instruiu, consolou e preparou os discípulos para a sua partida, Jesus deixa de falar com os homens, ergue os olhos ao céu e fala diretamente com o Pai.
Estamos a poucas horas do Getsêmani, da traição de Judas e da cruz. Quem está à beira da morte costuma se agarrar ao que é essencial. Naquele momento supremo, Jesus não pede livramento da dor. Ele deixa registrada uma intercessão em três partes: por si mesmo, pelos onze apóstolos que estavam ali (Judas já tinha saído, João 13:30) e por todos os que viriam a crer ao longo dos séculos.
O pedido pela própria glória (vv. 1-5)
1 Jesus falou estas coisas, levantou seus olhos ao céu, e disse: Pai, chegada é a hora; glorifica a teu Filho, para que também teu Filho glorifique a ti. 2 Assim como lhe deste poder sobre toda carne, para que a todos quantos lhe deste, lhes dê a vida eterna. 3 E esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tens enviado. 4 Eu já te glorifiquei na terra; consumado tenho a obra que me deste para eu fazer. 5 E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que o mundo existisse.
(João 17:1-5, Bíblia Livre)
Jesus começa dizendo que “é chegada a hora”. No Evangelho de João, a “hora” aponta para a cruz e a ressurreição (João 2:4; 12:23-27). Para a mentalidade humana, a cruz é lugar de vergonha, fracasso e maldição. No plano eterno da redenção, porém, ela é o ápice da revelação do caráter de Deus: a justiça perfeita e o amor infinito se encontrando no mesmo sacrifício, em que Cristo carrega o pecado em nosso lugar (Romanos 3:25-26). Jesus pede para ser glorificado não por vaidade, mas para cumprir a missão que recebeu e voltar à comunhão com o Pai que tinha antes da fundação do mundo. O texto afirma também, sem rodeios, a divindade eterna do Filho: ele já tinha glória junto do Pai “antes que o mundo existisse” (v. 5; João 1:1-2).
No versículo 3, Jesus dá uma das definições mais precisas de vida eterna em toda a Bíblia. Vida eterna não é apenas tempo sem fim no calendário. É a qualidade de existência que começa no conhecimento pessoal e íntimo do Pai por meio do Filho. Esse “conhecer” não é só informação: é relacionamento, e é dom da graça, pois alcança aqueles que o Pai deu ao Filho (v. 2).
A proteção dos discípulos no mundo (vv. 6-19)
15 Não suplico que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno. 16 Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. 17 Santifica-os em tua verdade; tua palavra é a verdade. 18 Assim como tu me enviaste, eu os enviei ao mundo. 19 E por eles a mim mesmo me santifico, para que também eles sejam santificados em verdade.
(João 17:15-19, Bíblia Livre)
Na segunda parte, o foco de Jesus se volta para os onze. Ele sabe o que espera esses homens nas horas e nos anos seguintes: perseguição violenta, hostilidade cultural e a tentação constante do desânimo (João 15:18-21; 16:33). Antes do pedido de proteção, ele lembra o que já lhes deu: o nome do Pai e a palavra do Pai, que eles receberam e guardaram (vv. 6-8).
Sobre o mundo em que os discípulos viveriam, Jesus é preciso: “Não suplico que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno”. O plano de Deus para a sua igreja nunca foi a fuga da realidade, o isolamento monástico ou a criação de guetos culturais fechados. Os cristãos continuam vivendo, trabalhando e se relacionando no mesmo mundo que rejeitou a Cristo. Não são “do mundo” e, ainda assim, são “enviados ao mundo” (vv. 16 e 18).
Como permanecer no mundo sem ser moldado por ele? Jesus responde no pedido do versículo 17: “Santifica-os em tua verdade”. Santificar quer dizer separar para Deus e tornar semelhante a ele. A santificação bíblica não é um distanciamento físico da sociedade, mas uma mente e um coração formados pela Palavra de Deus, pela ação do Espírito. Wesley chamava isso de santidade do coração e da vida, o amor a Deus e ao próximo tomando conta de tudo, e a via sustentada pelos meios de graça, entre eles a leitura atenta das Escrituras (Os meios de graça, Sermão 16). O versículo 19 mostra o fundamento: Jesus se consagra (“me santifico”) para que os seus sejam santificados. A nossa santidade depende da obra dele, e não da nossa força.
A oração por nós e o chamado à unidade (vv. 20-26)
20 E não suplico somente por estes, mas também por aqueles que crerão em mim, por sua palavra. 21 Para que todos sejam um; como tu, Pai, em mim, e eu em ti, que também eles em nós sejam um; para que o mundo creia que tu tens me enviado. 22 E eu tenho lhes dado a glória que tu me deste, para que sejam um, tal como nós somos um. 23 Eu neles, e tu em mim; para que sejam completos em um; e para que o mundo conheça que tu me enviaste, e que tu os amaste, assim como me amaste.
(João 17:20-23, Bíblia Livre)
A partir do versículo 20, a oração alcança um horizonte enorme. Naquela noite escura em Jerusalém, Jesus já tinha em mente cada pessoa que viria a crer no evangelho, pela palavra dos apóstolos, até o fim dos tempos. Quem hoje confia em Cristo está entre aqueles por quem ele orou.
O pedido central para essas gerações futuras é direto: “Para que todos sejam um, como tu, Pai, em mim, e eu em ti”. A medida da unidade é a comunhão do Pai com o Filho, e o fim dela é missionário: “para que o mundo creia”.
Essa unidade não é um acordo burocrático entre denominações nem um ecumenismo frouxo que negocia a doutrina para agradar a todos. Jesus liga a unidade à verdade, porque acabou de pedir que os discípulos fossem santificados “em tua verdade” (v. 17). Trata-se de uma unidade espiritual e relacional, de quem compartilha o mesmo Pai, o mesmo Cristo e a mesma Palavra, e se ama por causa disso.
24 Pai, aqueles que tens me dado, quero que onde eu estiver, eles também estejam comigo; para que vejam minha glória, que tens me dado, pois tu me amaste desde antes da fundação do mundo. 25 Pai justo, o mundo também não tem te conhecido, e estes têm conhecido que tu me enviaste. 26 E eu fiz teu nome ser conhecido por eles, e eu farei com que seja conhecido, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles.
(João 17:24-26, Bíblia Livre)
A oração termina com o destino e com o amor. Jesus quer os seus com ele, vendo a sua glória, e quer que o amor do Pai ao Filho esteja neles. A unidade da igreja nasce desse amor recebido.
A grande tragédia das divisões e das brigas no meio do povo de Deus é o estrago que elas fazem no testemunho público da fé. Quando os que se dizem seguidores de Cristo se mordem e se destroem por disputas de poder ou por vaidades secundárias, o mundo do lado de fora perde a razão para crer que o evangelho tem poder de transformar vidas. O amor e a unidade entre os irmãos são a credencial visível de que Jesus foi enviado pelo Pai (v. 23).
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