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HistóriaDeuteronômio

Reunião na sinagoga vs. culto cristão

Do rolo de Isaías em Nazaré ao domingo descrito por Justino: o que o culto cristão herdou da sinagoga

Diego Gonçalvesatualizado 10 min de leitura2.086 palavras

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Num sábado, na sinagoga de Nazaré, um homem ficou de pé, leu o rolo do profeta Isaías, enrolou-o e sentou-se, com os olhos de todos fixos nele. O culto cristão nasceu na sinagoga?

O homem era Jesus, e da explicação dele restou uma frase só. Ele tinha entrado ali, diz Lucas, “segundo o seu costume”, expressão que o Novo Testamento só repete para Paulo, em Tessalônica. Como vimos no episódio sobre o cetro de Judá, os escribas que Herodes consultou sabiam onde estava escrito que o Cristo nasceria, mas quem foi a Belém foram os magos. Agora o menino daquela história está adulto, de pé diante de um rolo, e é ele quem acha o lugar onde está escrito.

Uma leitura mais antiga que a sinagoga

Ler diante do povo é mais antigo que a sinagoga. No Sinai, conta o Êxodo, Moisés “tomou o livro da aliança e leu-o aos ouvidos do povo”, e a Lei mandou repetir o gesto a cada sete anos, na festa das Tendas, ou das Cabanas. Está em Deuteronômio 31, o único mandamento escrito de leitura pública da Lei: “Reúne o povo, os homens, as mulheres e as crianças, e o estrangeiro que está dentro das tuas portas, para que ouçam e para que aprendam.” No episódio sobre a pedra do Templo, vimos o santuário marcar até onde o estrangeiro podia ir. Na leitura da Lei, ele está entre os que ouvem.

Séculos depois, na volta do exílio, o livro de Neemias mostra o povo de pé e o livro aberto “diante dos olhos de todo o povo”. Neemias 8:8: “E leram no livro, na Lei de Deus, de modo claro, e deram o sentido, e entenderam a leitura.” Ler e dar o sentido são os dois tempos desta história, e, entre Deuteronômio e Nazaré, o costume de sete em sete anos virou costume de todo sábado.

No fim do século primeiro, o historiador judeu Flávio Josefo escreveu, no Contra Ápion, que Moisés mandou que, “a cada semana, deixando os outros trabalhos, se reunissem para ouvir a Lei e aprendê-la com exatidão”. A Torá não manda isso: Josefo defendia o seu povo diante de leitores gregos. Mas o costume era antigo, e Tiago, no concílio de Jerusalém, o resume em Atos: “Pois Moisés, desde gerações antigas, tem em cada cidade quem o pregue, sendo lido nas sinagogas todo sábado.”

A sinagoga no tempo de Jesus

Em Alexandria, no Egito, viveu Fílon, um judeu que escrevia em grego, de uns 20 anos antes de Cristo a uns 50 depois. No tratado Todo homem bom é livre, ele conta que os essênios, o terceiro grupo que vimos no episódio sobre fariseus e saduceus, iam a lugares sagrados “que se chamam sinagogas”. “Então um toma os livros e lê, e outro, dos mais experientes, adiantando-se, ensina o que não se entende.” O retrato é idealizado, mas é o mais parecido com Nazaré: um lê, outro explica, e em Nazaré um homem só faz as duas coisas.

Entre 1913 e 1914, numa escavação ao sul do monte do Templo, em Jerusalém, apareceu numa cisterna cheia de entulho um bloco de calcário com dez linhas em grego. Nele se lê que um sacerdote chamado Teódoto, filho e neto de chefes de sinagoga, “construiu a sinagoga para a leitura da Lei e para o ensino dos mandamentos”. A pedra não fala de oração nem de sacrifício, que estava a poucos passos dali, no Templo. A maioria dos estudiosos a data de antes do ano 70, mas houve quem a datasse bem mais tarde, e a data antiga não está provada.

Por volta do ano 200, num judaísmo já sem Templo, os rabinos puseram por escrito a Mishná. Uma regra dela parece feita para o salto que Lucas registra em Nazaré, de um capítulo de Isaías a outro: “Salta-se no Profeta, e não se salta na Torá.” Mas é regra de mais de um século e meio depois daquele sábado, e Lucas não fala dos sete leitores nem do tradutor para o aramaico que a Mishná prevê. Nem há prova, no século primeiro, de um calendário fixo de leituras, e Lucas não diz que Jesus leu a porção do dia. A sinagoga de calcário branco que os turistas visitam em Cafarnaum é do fim do século quarto ou do quinto, e a de Nazaré não é conhecida pela arqueologia. E a fonte mais antiga de que os Profetas eram lidos depois da Lei, no sábado, é o próprio Lucas.

O que Jesus leu em Nazaré

De pé diante do rolo, Jesus achou o lugar, e Lucas não diz se a passagem foi escolha dele. Registra o que foi lido, o começo de Isaías 61, em Lucas 4:18-19: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar boa notícia aos pobres; enviou-me para proclamar aos cativos libertação e aos cegos recuperação da vista, para enviar os oprimidos em libertação, para proclamar o ano aceitável do Senhor.”

Ao lado do hebraico, aparecem as marcas de Lucas. “Aos cegos, recuperação da vista” vem da Bíblia grega; o hebraico diz “aos presos, abertura”. E a linha dos oprimidos vem de Isaías 58:6, costurada pela palavra grega áfesis, libertação, que está nas duas passagens gregas. No hebraico, as palavras são outras: a costura só funciona em grego. E Lucas para no meio do verso, antes das palavras “e o dia de vingança do nosso Deus”. Se Jesus leu exatamente essa combinação ou se Lucas resume a leitura, não sabemos. O juízo não desaparece do Evangelho, mas o hoje de Nazaré é o da graça.

Então vêm os gestos, em Lucas 4:20-21: “E, enrolando o rolo e devolvendo-o ao servidor, sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele. E começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos.’” Em Neemias, os olhos do povo estavam no livro aberto; em Nazaré, o rolo já foi enrolado, e os olhos se fixam no leitor. A comparação é nossa, e não de Lucas. Houve mais palavras, porque os ouvintes logo se admiram delas, mas Lucas guardou só esta, que não explica o texto: aponta para quem o leu. E “aos vossos ouvidos” é a língua da leitura pública, a de Moisés lendo “aos ouvidos do povo”.

O reformador João Calvino escreveu, na Harmonia dos Evangelhos: “Cumpriu-se nos ouvidos deles, e não nos olhos, porque a simples vista do fato pouco valeria se a doutrina não tivesse o lugar principal.”

A admiração virou suspeita: “não é este o filho de José?”. Jesus tinha lido o “ano dektós, aceitável, do Senhor”, e logo depois disse que “nenhum profeta é dektós, aceito, na sua pátria”. O ano é aceitável; o profeta não é aceito.

Da sinagoga ao domingo cristão

No segundo livro de Lucas, os Atos, o mesmo padrão aparece num sábado em Antioquia da Pisídia, longe da terra de Israel. Atos 13:15: “Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: ‘Irmãos, se há entre vós alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a.’” E o sermão de Paulo chega à palavra de Nazaré: “por meio dele vos é anunciado o perdão dos pecados”. Perdão, ali, é áfesis, a libertação que Jesus tinha lido em Isaías.

A sinagoga de Nazaré, que logo depois quis lançar Jesus do alto do monte, tinha posto nas mãos dele o rolo de Isaías. Calvino, no mesmo comentário, escreveu: “Embora os judeus estivessem muito degenerados, uma coisa boa ainda restava: liam as Escrituras publicamente e tomavam ocasião delas para ensinar e admoestar o povo.” O tom é do século dezesseis, e a tese é a continuidade.

As primeiras igrejas eram assembleias que ouviam, e a Timóteo Paulo escreveu, em 1 Timóteo 4:13: “Até que eu chegue, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino.” Leitura e exortação são as palavras de Antioquia, embora se discuta se, na carta, é leitura em público ou estudo.

Mas o dia mudou cedo. Em Trôade, conta Atos, “no primeiro dia da semana, estando reunidos para partir o pão, Paulo lhes falava”. E a Didaqué, um manual cristão do primeiro século ou do começo do segundo, manda: “No dia do Senhor, o do Senhor, reunidos, parti o pão e dai graças”, sem mencionar leitura. O silêncio não prova que não houvesse leitura, mas mostra que, cedo, a refeição era o que marcava o domingo.

Por volta de 155, Justino, o cristão que ouvimos no episódio sobre o cetro de Judá, descreveu ao imperador, na mesma Primeira Apologia, um domingo da Igreja. Naquele dia, “leem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, enquanto o tempo permite. Depois, quando o leitor para, o que preside faz, pela palavra, a advertência e o convite à imitação dessas coisas belas.” Leitor e presidente são pessoas diferentes, como entre os essênios de Fílon, e as memórias são os escritos “que se chamam evangelhos”. Depois, “traz-se pão, vinho e água”, e o dia é o domingo, o primeiro, em que, escreve Justino, Deus fez o mundo e Cristo ressuscitou dos mortos.

Naquele domingo, muita coisa vinha da sinagoga: a reunião semanal, alguém que lê, alguém que explica e exorta, a oração. Mas mudou o dia, por causa da ressurreição, e mudou o que se lê, com os apóstolos ao lado dos profetas.

Em 1523, Martinho Lutero escreveu Da ordem do culto na congregação: “onde não se prega a palavra de Deus, é melhor que não se cante, nem se leia, nem se reúna”. Depois da lição, o pregador “deve adiantar-se e expor um trecho dessa mesma lição, para que todos os outros entendam, aprendam e sejam exortados”. É o esquema de Antioquia, mas, nesse texto, Lutero não o liga à sinagoga: funda-o num salmo, em 1 Coríntios 14 e no “tempo dos apóstolos”.

Em 1963, o Concílio Vaticano II aprovou a Sacrosanctum Concilium, a constituição sobre a liturgia. Sobre Cristo, ela diz: “Está presente na sua palavra, pois é ele mesmo quem fala quando as Sagradas Escrituras são lidas na Igreja.” O concílio deu princípios, e não a ordem das leituras da missa, que veio depois, com o Missal reformado.

De Nazaré a Emaús

No dia da ressurreição, dois discípulos tristes caminham para Emaús com um desconhecido. Lucas 24:27: “E, começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que dizia respeito a ele mesmo.” Naquela noite, em Jerusalém, Jesus disse aos discípulos reunidos: “É preciso que se cumpra tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.”

Em Nazaré, ele leu um profeta; agora interpreta todas as Escrituras. Em Nazaré, leu que vinha proclamar libertação aos cativos; agora diz que em seu nome “se havia de proclamar arrependimento e perdão dos pecados a todas as nações”, com a mesma palavra, áfesis. Em Nazaré, “hoje se cumpriu”; agora, “é preciso que se cumpra tudo”.

O que veio da sinagoga

O culto cristão nasceu, em parte, na sinagoga. O gesto de ler a Escritura diante da assembleia e depois explicá-la e exortar veio de Israel e passou às igrejas desde o começo. Mas não se herdou uma liturgia pronta: mudaram o dia, os livros e o centro, porque o texto passou a ser lido como palavra sobre Cristo. E a Ceia do Senhor não veio da sinagoga.

Volte à sinagoga de Nazaré, ao rolo enrolado e aos olhos fixos. O texto que Jesus leu fala na primeira pessoa: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu”. Quem lia Isaías em voz alta emprestava a voz a esse mim sem ser ele, mas naquele sábado o leitor era o Ungido de quem o livro falava, e Ungido, em grego, é Cristo.

A sinagoga deu à Igreja o hábito de ler e explicar. Cristo deu a esse hábito o seu assunto. Que nós, cada vez que a Escritura for lida, saibamos ouvir de novo a homilia mais curta do Evangelho: “Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos.”

Publicado em 22 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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