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EstudosEstudos em 1 João2 de 4

1 João 1Por que ninguém vive a fé sozinho

A Palavra da vida, a luz de Deus e a comunhão que sustenta a fé

Diego Gonçalves7 min de leitura1.436 palavras

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Neste estudo

Vivemos na época mais conectada de toda a história humana. Você manda uma mensagem e alguém do outro lado do planeta responde em três segundos. Entra numa chamada de vídeo com várias pessoas ao mesmo tempo e acompanha, pelos stories do celular, a rotina de amigos e de desconhecidos. Nunca foi tão fácil falar com tanta gente ao mesmo tempo.

A grande ironia é que poucas vezes as pessoas se sentiram tão sozinhas, isoladas e desamparadas por dentro como hoje.

O apóstolo João, na ilha de Patmos, com um livro aberto sobre os joelhos e o olhar voltado para o alto, em pintura de Velázquez
Diego Velázquez, São João Evangelista na ilha de Patmos, c. 1618-1619. National Gallery, Londres. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Costumamos confundir a quantidade de contatos com a profundidade dos laços. Criamos uma cultura de independência em que pedir ajuda parece fraqueza e admitir uma dor íntima soa perigoso. A regra invisível do dia a dia é mostrar que você dá conta de tudo sozinho, que a sua vida vai muito bem e que a sua espiritualidade não depende de ninguém.

Só que a fé bíblica nunca foi pensada para ser vivida por heróis isolados.

Existe uma história conhecida sobre Charles Plumb, piloto da Marinha americana na Guerra do Vietnã. Depois de dezenas de missões de combate, o caça dele foi atingido por um míssil e começou a cair em chamas. Plumb acionou o assento ejetável, o paraquedas abriu perfeitamente e ele chegou vivo ao chão, embora tenha passado anos como prisioneiro de guerra antes de voltar para casa.

Muito tempo depois, num restaurante, um homem veio até a mesa dele e perguntou: “Você é o piloto Plumb, que foi abatido no Vietnã, não é?”. Surpreso, Plumb quis saber como aquele desconhecido sabia daquilo. O homem sorriu e respondeu: “Fui eu quem dobrou o seu paraquedas no convés do porta-aviões”. Plumb contou depois que passou a noite em claro, pensando nas vezes em que aquele marinheiro anônimo tinha ficado horas numa mesa de trabalho, dobrando com paciência os fios e o tecido para que, na hora da emergência, o equipamento funcionasse.

A história deixa uma pergunta para a nossa própria caminhada: quem dobra o seu paraquedas todos os dias? O primeiro capítulo de 1 João responde que ninguém vive a fé sozinho, e dá três razões para isso.

A fé chega até nós pelo testemunho de outros (vv. 1-4)

João não abre a carta com teorias acadêmicas nem com uma lista de proibições frias. Ele começa pelo que viu e tocou:

O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e nossas mãos tocaram, quanto à Palavra da vida (pois a vida já foi manifesta, e nós a vimos, demos testemunho, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e a nós foi manifesta), o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai, e com o seu Filho Jesus Cristo.

(1 João 1:1-3, Bíblia Livre)

“O que era desde o princípio” lembra a abertura do Evangelho de João (João 1:1). A Palavra eterna, que estava com o Pai, entrou na história com um corpo de verdade: foi ouvida, vista, contemplada e tocada (João 1:14). João insiste nos sentidos porque as igrejas que recebiam a carta eram pressionadas por mestres que negavam que Jesus Cristo tivesse vindo em carne (1 João 4:2-3; 2 João 7). A resposta dele é o testemunho de quem esteve lá.

Isso já diz algo sobre a nossa pergunta. Ninguém inventa a própria fé. Cremos porque os apóstolos viram, ouviram e anunciaram, e porque esse anúncio chegou até nós pelas Escrituras e pela boca de outros cristãos (Romanos 10:14-17). O primeiro paraquedas que alguém dobrou por você foi o anúncio do evangelho.

O alvo desse anúncio também está no texto: “para que também vós tenhais comunhão conosco”. João escreve para trazer o leitor para dentro de uma comunhão que já existe, e acrescenta: “Estas coisas escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1 João 1:4). A alegria do apóstolo só fica completa quando os irmãos estão juntos na mesma fé.

A comunhão com Deus aparece na comunhão com os irmãos (vv. 5-7)

A palavra grega para comunhão, koinonia, vem de koinos, “comum”. Ela não se resume a encontros sociais rápidos, mas quer dizer ter parte na mesma vida, colocar a vida na mesma mesa. É a palavra que Lucas usa para a igreja de Jerusalém, que perseverava na comunhão (Atos 2:42).

João dá a essa comunhão uma raiz e uma direção. A raiz está no versículo 3: “a nossa comunhão é com o Pai, e com o seu Filho Jesus Cristo”. A comunhão entre os irmãos não nasce da afinidade nem do esforço, mas da graça que primeiro nos une a Deus. A direção aparece logo adiante:

E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele nada de trevas. Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Porém, se andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.

(1 João 1:5-7, Bíblia Livre)

Repare no versículo 7. Depois de falar da comunhão com Deus, seria natural João concluir “temos comunhão com ele”. Ele escreve “temos comunhão uns com os outros”. Para o apóstolo, andar na luz diante de Deus e andar junto com os irmãos são uma coisa só. Mais adiante a carta dirá isso sem rodeio: quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus, que não vê (1 João 4:20).

O versículo termina na cruz. A comunhão na luz não reúne gente que já chegou lá, mas pecadores perdoados que continuam sendo purificados pelo sangue de Cristo. John Wesley via nesse “todo pecado” a promessa de uma graça que não para no perdão e segue santificando o crente por inteiro (1 Tessalonicenses 5:23). Ele também entendeu que essa graça se recebe em comunhão: num dos sermões sobre o Sermão do Monte, afirmou que o cristianismo é essencialmente uma religião social, e que transformá-lo numa religião solitária é destruí-lo (Sermão 24). Por isso os primeiros metodistas se reuniam toda semana em classes pequenas, onde cada um contava como andava a sua fé e orava pelos outros.

A confissão nos mantém juntos (vv. 8-10)

O capítulo termina no assunto que mais nos assusta na vida em comunidade: o pecado que preferimos esconder.

Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não pecamos, nós o fazemos de mentiroso, e a palavra dele não está em nós.

(1 João 1:8-10, Bíblia Livre)

A fantasia da autossuficiência tem uma versão religiosa: fingir que estamos sempre bem e que não temos nada a confessar. João chama isso de autoengano. A saída que ele aponta é a confissão, e ela se apoia no caráter de Deus. Deus é fiel e justo para perdoar porque o pecado já foi tratado na cruz: Jesus Cristo, o justo, é o nosso advogado junto ao Pai e a propiciação pelos nossos pecados (1 João 2:1-2). O perdão não depende do tamanho da nossa culpa nem da força do nosso arrependimento, mas da obra de Cristo.

A confissão é dirigida a Deus, mas não fica trancada no quarto. Tiago manda confessar os pecados uns aos outros e orar uns pelos outros para sermos curados (Tiago 5:16), e foi com esse versículo que Wesley abriu, em 1738, as regras das bandas metodistas, os pequenos grupos de confissão mútua. Uma igreja em que ninguém pode admitir fraqueza vira uma vitrine de gente fingindo. Uma igreja que anda na luz vira um lugar de cura.

Quem dobra o seu paraquedas

Na prática, koinonia é ter ouvidos para escutar o desabafo do outro sem dar respostas prontas. É ter a humildade de admitir as próprias fraquezas e pedir oração quando o ânimo acaba. É estender a mão para firmar quem tropeçou na caminhada, sabendo que amanhã quem vai precisar de socorro pode ser qualquer um de nós (Eclesiastes 4:9-10; Gálatas 6:2).

Até Jesus, sendo o Filho de Deus, escolheu viver a Sua jornada na terra acompanhado de amigos imperfeitos. Chamou os doze para que estivessem com Ele (Marcos 3:14) e, na noite do Getsêmani, pediu a Pedro, Tiago e João que vigiassem com Ele (Mateus 26:37-38).

A ilusão de que bastamos a nós mesmos é o orgulho tentando nos convencer de uma mentira. A vida com Deus ganha peso e significado quando abandonamos a fantasia da autossuficiência e aprendemos a andar na luz junto com quem o Senhor colocou ao nosso lado. Alguém dobra o nosso paraquedas todos os dias, e nós aprendemos a dobrar o paraquedas de alguém.