
EstudosEstudos em João18 de 18
João 21:24-25O mundo não conteria os livros
O mundo inteiro não conteria os livros (João 21:24–25)
O Evangelho de João termina de um jeito incomum. Em vez de uma despedida solene ou de uma fórmula teológica, o apóstolo fecha o relato com uma assinatura pessoal e com um exagero poético que fica na memória de qualquer leitor. Leiamos as duas últimas frases do livro.
“Este é o discípulo que dá testemunho a respeito destas coisas e que as escreveu; e sabemos que o testemunho dele é verdadeiro. Há, porém, também muitas outras coisas que Jesus fez; se fossem escritas uma a uma, penso que nem o próprio mundo caberia nos livros que se escreveriam.”
(João 21:24-25, tradução livre do grego)
Esse fecho revela muito sobre a natureza dos evangelhos e sobre o propósito pelo qual a Bíblia chegou até nós.
A assinatura da testemunha ocular (v. 24)
Observação. O versículo 24 muda o sujeito do livro. Até aqui o narrador falava de “ele” e do “discípulo”, e agora aparece um “nós”: “sabemos que o testemunho dele é verdadeiro”. Há quem escreve (o discípulo) e há quem confirma (os que o conheciam e recebem o texto). O verbo de testemunho está no presente, “dá testemunho”, como se o livro continuasse falando.
Interpretação. Esse discípulo é o “discípulo amado” que aparece no próprio Evangelho: reclinado ao lado de Jesus na ceia (João 13:23), junto à cruz (João 19:26-27) e na corrida até o sepulcro vazio (João 20:2-8). A tradição da Igreja o identifica com o apóstolo João. Ele já havia dito, ao narrar a cruz, que quem viu deu testemunho, “e o seu testemunho é verdadeiro” (João 19:35). A mesma ideia abre a primeira carta que leva o seu nome:
“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e nossas mãos tocaram, quanto à Palavra da vida”
(1 João 1:1, Bíblia Livre)
O autor não se apoia em lendas de terceira mão nem em tradições orais que se distorceram com as décadas. Ele fala como testemunha, e a comunidade que recebeu o texto confirma que reconhece naquelas páginas o que viu e ouviu.
Aplicação. A fé cristã brota de fatos ocorridos no tempo e no espaço: um carpinteiro da Galileia que pregou, curou, foi morto sob Pôncio Pilatos e ressuscitou ao terceiro dia. Não nos sustentamos em mitologias abstratas nem em especulações descoladas da realidade. Quando a fé vacila, voltamos ao testemunho, e é por isso que lemos a Escritura em comunidade: o “sabemos” do versículo 24 continua sendo dito pela Igreja.
Por que os evangelhos não contam tudo? (v. 25a)
Observação. O versículo 25 começa dizendo que Jesus fez “muitas outras coisas”, e que o que está escrito é uma seleção. Muitos leitores estranham o fato de os evangelhos serem curtos, lidos do começo ao fim em poucas horas. Por que não temos um diário de cada dia da vida de Jesus? O que ele fez na adolescência? O que conversou em cada viagem a pé pela Judeia?
Interpretação. Os evangelistas nunca quiseram escrever biografias exaustivas. O próprio João já havia explicado o critério da sua seleção no capítulo anterior:
“Jesus fez também ainda muitos outros sinais ainda em presença de seus discípulos, que neste livro não estão escritos; porém estes estão escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em seu nome.”
(João 20:30-31, Bíblia Livre)
Cada milagre, cada discurso e cada diálogo registrado por João cumpre uma finalidade: levar o leitor a crer em Cristo e, crendo, ter vida. A Bíblia é uma revelação com propósito de salvação, e não um arquivo com todas as minúcias históricas possíveis. A tradição cristã sempre confessou que o Espírito Santo conduziu essa seleção, de modo que o que temos basta para o fim a que foi escrito.
Aplicação. Quando sentimos falta de detalhes que o texto não dá, convém perguntar o que o texto quer de nós. A pergunta de João 20:31 serve de medida para todo o Evangelho: cremos em Jesus como o Cristo, o Filho de Deus, e temos vida em seu nome?
A biblioteca pequena para um Deus infinito (v. 25b)
Observação. A frase final é uma hipérbole: nem o mundo inteiro caberia nos livros que se escrevessem sobre as obras de Jesus. João diz “penso”, e escreve como quem reconhece o limite de quem escreve.
Interpretação. Isso não é exagero ingênuo, mas o reconhecimento humilde da grandeza de Cristo, o Verbo que “estava com Deus” e “era Deus” (João 1:1). Se registrássemos cada pessoa que Jesus consolou num olhar rápido na estrada, cada oração feita nas madrugadas solitárias nos montes e cada ensino dado em vilarejos esquecidos, o vocabulário humano se esgotaria depressa. A tinta acabaria antes que a história chegasse à metade.
Essa conclusão de João protege a igreja de dois erros opostos.
De um lado, protege do racionalismo arrogante de quem pensa que esgotou Deus por ter lido alguns comentários teológicos. O que sabemos de Cristo pelas Escrituras é verdadeiro, mas não esgota o ser de Deus. O Verbo encarnado é infinito, e passaremos a eternidade conhecendo-o sem chegar ao fim.
Do outro lado, confirma a suficiência das Escrituras. Não precisamos correr atrás de evangelhos apócrifos, de mensagens secretas ou de revelações de gabinete para saber o que agrada a Deus. Os artigos de religião herdados por John Wesley dizem que a Escritura contém tudo o que é necessário para a salvação, e o próprio Wesley se dizia “homem de um só livro” (homo unius libri), no prefácio de seus Sermões. Nas páginas do Novo Testamento está tudo o que precisamos para a salvação, a fé e a santificação: a graça de Deus que nos alcança antes de O buscarmos, o arrependimento, a fé em Cristo e o amor que Ele vai aperfeiçoando em nós.
Aplicação. O relato de João termina, mas abre diante de nós o oceano inesgotável da glória de Jesus. Quem o lê com fé não fecha o livro satisfeito, e volta a ele para conhecer melhor a quem já ama.
- Estudos
- Estudo Indutivo
- João
- Evangelhos