
EstudosEstudos em João15 de 16
Tristeza que vira alegria em João 16:16-33: Dores de parto
A dor do parto e o bom ânimo nas aflições (João 16:16-33)
Poucas frases de Jesus são tão citadas em momentos de dor quanto a conclusão de João 16: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” Só que, de tanto aparecer em quadros decorativos e em mensagens de consolo rápido, a frase perdeu o peso do lugar onde foi dita.
Jesus não estava encerrando uma palestra motivacional com uma dose barata de otimismo. Ele caminhava para o Getsêmani com um punhado de homens que, em poucas horas, sairiam correndo para salvar a própria pele. O discurso de João 16 é um choque de realismo contra qualquer ilusão de fé fácil.
O enigma do “um pouco” (vv. 16-19)
O diálogo começa com uma charada que deixou os discípulos cochichando uns com os outros, sem entender nada:
Um pouco, e não me vereis; e mais um pouco, e me vereis.
(João 16:16, Bíblia Livre)
Observe o que o texto mostra. A expressão “um pouco” aparece repetida, e os discípulos a repetem entre si, perplexos: “Que é isto que ele diz? Um pouco? Não sabemos o que diz” (João 16:18). Jesus percebe que queriam perguntar e responde antes que perguntem (v. 19). Ele conhece o coração deles, e esse conhecimento volta no fim do capítulo.
Para quem estava ali, a conta não fechava. Eles ainda esperavam um reinado político de Jesus em Jerusalém. Como assim “não me vereis” e logo depois “me vereis”? Jesus falava do intervalo que começaria naquela mesma noite: a prisão, o julgamento injusto, a crucificação e o silêncio do sábado. Durante esse “pouco” de tempo, o mundo celebraria a eliminação de um pregador incômodo, enquanto os discípulos chorariam trancados num quarto (João 20:19). Só que esse luto duraria pouco. No domingo de manhã o túmulo estaria vazio, e a tristeza deles viraria uma alegria que ninguém conseguiria tirar.
A metáfora das dores de parto (vv. 20-24)
Para explicar essa reviravolta, Jesus recorre a uma das imagens mais universais da experiência humana:
Em verdade, em verdade vos digo, que vós chorareis, e lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes; mas vossa tristeza se tornará em alegria. A mulher quando está no parto tem tristeza, porque sua hora é vinda; mas havendo nascido a criança, já não se lembra da aflição, pela alegria de um homem ter nascido no mundo. Assim também vós agora na verdade tendes tristeza; mas novamente vos verei, e vosso coração se alegrará, e ninguém tirará vossa alegria de vós.
(João 16:20-22, Bíblia Livre)
Repare na palavra “tornará”. Jesus não diz que a alegria virá depois de a tristeza passar, como quem troca uma coisa por outra. Ele diz que a própria tristeza se torna alegria. A dor do parto não é jogada fora: é por causa dela que a criança nasce. Enquanto as contrações duram, a aflição é intensa e parece interminável. Mas assim que o bebê chora nos braços da mãe, a lembrança do sofrimento se dissolve diante da alegria de uma vida nova.
No Antigo Testamento, os profetas já usavam a dor de parto para falar do sofrimento de Israel que antecede a libertação de Deus (Isaías 26:17-19; Miqueias 4:9-10). Paulo faz o mesmo quando diz que toda a criação geme como em dores de parto, esperando a redenção (Romanos 8:18-23). Jesus ensinava que a cruz e as perseguições que a igreja enfrentaria não eram o ponto final de uma tragédia sem sentido, mas o parto da redenção. O sofrimento do cristão não é a dor de quem caminha para a morte; é a dor que precede a vida ressurreta da nova criação.
Os versículos seguintes mostram o que essa alegria produz:
Naquele dia nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo, que tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, ele vos dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que vossa alegria seja completa.
(João 16:23-24, Bíblia Livre)
Depois da cruz e da ressurreição, os discípulos terão acesso ao Pai em nome do Filho. Pedir “em meu nome” quer dizer pedir apoiados na pessoa e na obra de Cristo, e não nos nossos méritos. É a oração, um dos meios de graça de que a tradição wesleyana fala, nascida da comunhão com o Pai. E o alvo do pedido é uma alegria completa (compare com 1 João 1:4).
O Pai nos ama antes de qualquer bravura nossa (vv. 25-28)
Antes de chegar à reação dos discípulos, Jesus faz uma promessa:
Naquele dia pedireis em meu nome; e não vos digo, que eu suplicarei ao Pai por vós. Pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes, e crestes que eu saí de Deus. Saí do Pai, e vim ao mundo; novamente deixo o mundo, e vou ao Pai.
(João 16:26-28, Bíblia Livre)
Jesus resume em poucas palavras toda a sua história: saiu do Pai, veio ao mundo, deixa o mundo e volta ao Pai. A cruz está no meio desse movimento. O amor do Pai pelos discípulos também não é prêmio pela fidelidade deles. O amor deles por Cristo e a fé deles são resposta à graça que os alcançou primeiro (1 João 4:19).
A ilusão da bravura humana (vv. 29-32)
Ao ouvirem essas palavras, os discípulos tiveram um surto de autoconfiança:
Eis que agora falas abertamente, e nenhuma parábola dizes. Agora sabemos que sabes todas as coisas; e não necessitas que ninguém te pergunte. Por isso cremos que saíste de Deus.
(João 16:29-30, Bíblia Livre)
A empolgação deles parecia sincera, mas era ingênua. Jesus não comprou a pose de coragem do grupo e respondeu com frieza pastoral:
Respondeu-lhes Jesus: Agora credes? Eis que a hora vem, e já é chegada, quando sereis dispersos, cada um por si, e me deixareis só. Porém não estou só, porque o Pai está comigo.
(João 16:31-32, Bíblia Livre)
Jesus sabia exatamente com quem estava lidando. Conhecia a fragilidade do coração humano e não se iludia com juras de fidelidade feitas à mesa de jantar. Quando as espadas e as tochas apareceram no escuro do horto, a valentia deles virou fumaça (Mateus 26:31, 56; Zacarias 13:7). Pedro, que tinha jurado ir até a morte, negou o Mestre três vezes (João 13:37-38; 18:15-27).
Mesmo prevendo o abandono dos amigos mais próximos, Jesus acrescenta: “Porém não estou só, porque o Pai está comigo”. A comunhão inabalável com o Pai era a âncora de Jesus no momento mais solitário de sua missão. E aqui há uma lição para nós: ninguém sustenta a própria fé na força do braço. Quem segura é o Senhor, que depois da fuga foi buscar os dispersos e os restaurou (João 21:15-17).
A vitória que já foi decidida (v. 33)
O capítulo termina amarrando todo o ensino de despedida:
Estas coisas tenho vos dito para que tenhais paz em mim; no mundo tereis aflição; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.
(João 16:33, Bíblia Livre)
Repare na honestidade das palavras de Cristo. Ele não prometeu uma vida imune a perdas, doenças, crises financeiras ou injustiças. O verbo não é condicional: Jesus não disse “se tiverdes aflições”, disse “no mundo tereis aflição”. A dor faz parte de viver numa criação caída e corrompida pelo pecado.
A paz cristã não nasce da fantasia de que nada de ruim vai nos acontecer. Ela é “paz em mim”, paz que vem de uma pessoa, a mesma que prometeu deixar a sua paz e não a dar como o mundo dá (João 14:27). Brota da convicção de que o poder do mundo sobre o nosso destino final foi quebrado na raiz. Jesus enfrentou o pior que este mundo tinha a oferecer, o ódio, a mentira, a condenação injusta e a própria morte, e saiu do outro lado vitorioso. Por isso o discípulo encara as tempestades da vida não como quem torce por um resultado incerto, mas como quem descansa na vitória que o seu Senhor já conquistou (1 João 5:4-5; Romanos 8:37).
Quando a nossa dor parecer sem sentido, voltemos ao quarto trancado daquele sábado. O luto dos discípulos era real, e a alegria da manhã de domingo também. Tomara que aprendamos a chorar sem desespero, porque sabemos que o parto não foi em vão.
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