AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

EstudosEstudos em João15 de 16

Tristeza que vira alegria em João 16:16-33: Dores de parto

A dor do parto e o bom ânimo nas aflições (João 16:16-33)

Diego Gonçalves7 min de leitura1.389 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste estudo

Poucas frases de Jesus são tão citadas em momentos de dor quanto a conclusão de João 16: “No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” Só que, de tanto aparecer em quadros decorativos e em mensagens de consolo rápido, a frase perdeu o peso do lugar onde foi dita.

Jesus não estava encerrando uma palestra motivacional com uma dose barata de otimismo. Ele caminhava para o Getsêmani com um punhado de homens que, em poucas horas, sairiam correndo para salvar a própria pele. O discurso de João 16 é um choque de realismo contra qualquer ilusão de fé fácil.

Jesus ajoelhado em oração no Getsêmani, de rosto erguido, em pintura de Heinrich Hofmann
Heinrich Hofmann, Cristo no Getsêmani, 1886. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O enigma do “um pouco” (vv. 16-19)

O diálogo começa com uma charada que deixou os discípulos cochichando uns com os outros, sem entender nada:

Um pouco, e não me vereis; e mais um pouco, e me vereis.

(João 16:16, Bíblia Livre)

Observe o que o texto mostra. A expressão “um pouco” aparece repetida, e os discípulos a repetem entre si, perplexos: “Que é isto que ele diz? Um pouco? Não sabemos o que diz” (João 16:18). Jesus percebe que queriam perguntar e responde antes que perguntem (v. 19). Ele conhece o coração deles, e esse conhecimento volta no fim do capítulo.

Para quem estava ali, a conta não fechava. Eles ainda esperavam um reinado político de Jesus em Jerusalém. Como assim “não me vereis” e logo depois “me vereis”? Jesus falava do intervalo que começaria naquela mesma noite: a prisão, o julgamento injusto, a crucificação e o silêncio do sábado. Durante esse “pouco” de tempo, o mundo celebraria a eliminação de um pregador incômodo, enquanto os discípulos chorariam trancados num quarto (João 20:19). Só que esse luto duraria pouco. No domingo de manhã o túmulo estaria vazio, e a tristeza deles viraria uma alegria que ninguém conseguiria tirar.

A metáfora das dores de parto (vv. 20-24)

Para explicar essa reviravolta, Jesus recorre a uma das imagens mais universais da experiência humana:

Em verdade, em verdade vos digo, que vós chorareis, e lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes; mas vossa tristeza se tornará em alegria. A mulher quando está no parto tem tristeza, porque sua hora é vinda; mas havendo nascido a criança, já não se lembra da aflição, pela alegria de um homem ter nascido no mundo. Assim também vós agora na verdade tendes tristeza; mas novamente vos verei, e vosso coração se alegrará, e ninguém tirará vossa alegria de vós.

(João 16:20-22, Bíblia Livre)

Repare na palavra “tornará”. Jesus não diz que a alegria virá depois de a tristeza passar, como quem troca uma coisa por outra. Ele diz que a própria tristeza se torna alegria. A dor do parto não é jogada fora: é por causa dela que a criança nasce. Enquanto as contrações duram, a aflição é intensa e parece interminável. Mas assim que o bebê chora nos braços da mãe, a lembrança do sofrimento se dissolve diante da alegria de uma vida nova.

No Antigo Testamento, os profetas já usavam a dor de parto para falar do sofrimento de Israel que antecede a libertação de Deus (Isaías 26:17-19; Miqueias 4:9-10). Paulo faz o mesmo quando diz que toda a criação geme como em dores de parto, esperando a redenção (Romanos 8:18-23). Jesus ensinava que a cruz e as perseguições que a igreja enfrentaria não eram o ponto final de uma tragédia sem sentido, mas o parto da redenção. O sofrimento do cristão não é a dor de quem caminha para a morte; é a dor que precede a vida ressurreta da nova criação.

Os versículos seguintes mostram o que essa alegria produz:

Naquele dia nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo, que tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, ele vos dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que vossa alegria seja completa.

(João 16:23-24, Bíblia Livre)

Depois da cruz e da ressurreição, os discípulos terão acesso ao Pai em nome do Filho. Pedir “em meu nome” quer dizer pedir apoiados na pessoa e na obra de Cristo, e não nos nossos méritos. É a oração, um dos meios de graça de que a tradição wesleyana fala, nascida da comunhão com o Pai. E o alvo do pedido é uma alegria completa (compare com 1 João 1:4).

O Pai nos ama antes de qualquer bravura nossa (vv. 25-28)

Antes de chegar à reação dos discípulos, Jesus faz uma promessa:

Naquele dia pedireis em meu nome; e não vos digo, que eu suplicarei ao Pai por vós. Pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes, e crestes que eu saí de Deus. Saí do Pai, e vim ao mundo; novamente deixo o mundo, e vou ao Pai.

(João 16:26-28, Bíblia Livre)

Jesus resume em poucas palavras toda a sua história: saiu do Pai, veio ao mundo, deixa o mundo e volta ao Pai. A cruz está no meio desse movimento. O amor do Pai pelos discípulos também não é prêmio pela fidelidade deles. O amor deles por Cristo e a fé deles são resposta à graça que os alcançou primeiro (1 João 4:19).

A ilusão da bravura humana (vv. 29-32)

Ao ouvirem essas palavras, os discípulos tiveram um surto de autoconfiança:

Eis que agora falas abertamente, e nenhuma parábola dizes. Agora sabemos que sabes todas as coisas; e não necessitas que ninguém te pergunte. Por isso cremos que saíste de Deus.

(João 16:29-30, Bíblia Livre)

A empolgação deles parecia sincera, mas era ingênua. Jesus não comprou a pose de coragem do grupo e respondeu com frieza pastoral:

Respondeu-lhes Jesus: Agora credes? Eis que a hora vem, e já é chegada, quando sereis dispersos, cada um por si, e me deixareis só. Porém não estou só, porque o Pai está comigo.

(João 16:31-32, Bíblia Livre)

Jesus sabia exatamente com quem estava lidando. Conhecia a fragilidade do coração humano e não se iludia com juras de fidelidade feitas à mesa de jantar. Quando as espadas e as tochas apareceram no escuro do horto, a valentia deles virou fumaça (Mateus 26:31, 56; Zacarias 13:7). Pedro, que tinha jurado ir até a morte, negou o Mestre três vezes (João 13:37-38; 18:15-27).

Mesmo prevendo o abandono dos amigos mais próximos, Jesus acrescenta: “Porém não estou só, porque o Pai está comigo”. A comunhão inabalável com o Pai era a âncora de Jesus no momento mais solitário de sua missão. E aqui há uma lição para nós: ninguém sustenta a própria fé na força do braço. Quem segura é o Senhor, que depois da fuga foi buscar os dispersos e os restaurou (João 21:15-17).

A vitória que já foi decidida (v. 33)

O capítulo termina amarrando todo o ensino de despedida:

Estas coisas tenho vos dito para que tenhais paz em mim; no mundo tereis aflição; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.

(João 16:33, Bíblia Livre)

Repare na honestidade das palavras de Cristo. Ele não prometeu uma vida imune a perdas, doenças, crises financeiras ou injustiças. O verbo não é condicional: Jesus não disse “se tiverdes aflições”, disse “no mundo tereis aflição”. A dor faz parte de viver numa criação caída e corrompida pelo pecado.

A paz cristã não nasce da fantasia de que nada de ruim vai nos acontecer. Ela é “paz em mim”, paz que vem de uma pessoa, a mesma que prometeu deixar a sua paz e não a dar como o mundo dá (João 14:27). Brota da convicção de que o poder do mundo sobre o nosso destino final foi quebrado na raiz. Jesus enfrentou o pior que este mundo tinha a oferecer, o ódio, a mentira, a condenação injusta e a própria morte, e saiu do outro lado vitorioso. Por isso o discípulo encara as tempestades da vida não como quem torce por um resultado incerto, mas como quem descansa na vitória que o seu Senhor já conquistou (1 João 5:4-5; Romanos 8:37).

Quando a nossa dor parecer sem sentido, voltemos ao quarto trancado daquele sábado. O luto dos discípulos era real, e a alegria da manhã de domingo também. Tomara que aprendamos a chorar sem desespero, porque sabemos que o parto não foi em vão.

140pal/min