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HistóriaJosué

O pai de Abraão servia outros deuses. E o próprio Abraão?

Josué 24:2 e as três leituras de Abraão em Ur: lenda judaica, Agostinho e a Reforma

Diego Gonçalvesatualizado 12 min de leitura2.377 palavras

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Quem foi Abraão antes de Deus chamá-lo, quando ainda morava em Ur dos caldeus? A resposta mais incômoda vem da própria Escritura, em Josué 24:2: a família de Abraão prestava culto a outros deuses. E a história de Abraão quebrando os ídolos do pai, você sabe se ela está na Bíblia?

Em volta desse versículo se sentam vozes de séculos diferentes. O midrash de Gênesis Rabá coloca Abraão numa loja de ídolos, com um porrete na mão e uma fornalha pela frente, e Rashi (1040–1105), séculos depois, reconta a história deixando claro de onde ela vem. Agostinho, em A Cidade de Deus, vê na casa de Terá o último abrigo da adoração verdadeira num mundo inundado de superstição. Calvino lê o mesmo versículo e enxerga Abraão preso à idolatria, levantado dali como de um abismo. Spurgeon, pregando sobre Isaías 51, insiste que olhar para Abraão é olhar, antes de tudo, para quem o chamou. E Gênesis, entre todas essas vozes, guarda silêncio sobre o que Abraão fazia em Ur. Se ele saiu de uma casa que servia outros deuses, o que havia nele para Deus chamá-lo?

O que Josué diz em Siquém

Estamos em Siquém, no coração de Canaã, e Josué já está velho e perto do fim da vida. Ele reúne as tribos de Israel diante de Deus. O discurso começa por onde ninguém gostaria de começar: “Há muito tempo, os seus antepassados, inclusive Terá, pai de Abraão e de Naor, viviam além do Eufrates e prestavam culto a outros deuses”. Logo em seguida, o Senhor diz o que fez com um daqueles homens: “Mas eu tirei seu pai Abraão da terra que fica além do Eufrates e o conduzi por toda a Canaã e lhe dei muitos descendentes”. São as palavras de Josué 24:2-3, e o Eufrates era o grande rio do leste. Em Gênesis, nessa fase, ele ainda se chama Abrão, e só recebe o nome de Abraão em Gênesis 17:5.

Josué faz o que o parente mais velho às vezes faz no almoço de domingo: abre a gaveta e tira a foto antiga da casa onde todos começaram, aquela que ninguém pendura na parede da sala. Ele não mostra a foto para envergonhar a família, mas para lembrar de onde ela veio e de quem recebeu tudo o que tem. A intenção aparece no versículo 14: “Joguem fora os deuses que os seus antepassados adoraram além do Eufrates e no Egito e sirvam ao Senhor”.

O versículo diz muito sobre a casa e pouco sobre o próprio Abraão. Ele põe a família inteira do outro lado do rio, no culto a outros deuses, sem abrir exceção para Abraão e sem descrever nenhum gesto dele, nem de adoração, nem de recusa. O que o texto registra em seguida é uma ação do Senhor, resumida em duas palavras: eu tirei.

O silêncio de Gênesis

Em Gênesis 11:27-32, Terá tem três filhos, Abrão, Naor e Harã, e Harã morre em Ur dos caldeus, onde nasceu, enquanto o pai ainda vive. Depois Terá parte com Abrão, Sarai e o neto Ló rumo a Canaã, mas a família se estabelece em Harã. Gênesis não conta por que Terá partiu nem o que Abraão fazia em Ur, e é nesse espaço em branco que as leituras vão se encontrar. A maioria dos estudiosos identifica Ur com Tell el-Muqayyar, no sul do atual Iraque, embora a questão não esteja encerrada, e a arqueologia de Abraão fica para outro estudo.

A Bíblia mostra que tipo de deuses essa família guardava: Labão, neto de Naor, tinha em casa o que a Nova Versão Internacional chama de “ídolos do clã”. Quando Raquel os leva escondidos, Labão persegue Jacó e o acusa de ter roubado os seus deuses, em Gênesis 31:30. No hebraico a palavra é terafim, isto é, pequenas imagens da família, que Raquel escondeu na sela do camelo. Como reconstrução, você pode pensar numa casa daquele mundo com imagens assim recebendo oferta, sem que o texto nos dê nomes nem datas.

Um silêncio desse tamanho sobre o pai da fé não ficaria sem resposta por muito tempo.

Primeira leitura: o Abraão que já rejeitava os ídolos

Como a tradição judaica preencheu esse silêncio? Judeus e cristãos honram Abraão como pai, e foi por reverência a ele que se quis saber de onde ele veio. A primeira leitura responde que Abraão já era diferente antes do chamado, e essa resposta é antiga. No Livro dos Jubileus, que os estudiosos costumam situar no século 2 antes de Cristo, Abrão já põe fogo de noite na casa dos ídolos.

A versão mais conhecida está em Gênesis Rabá, coletânea de comentários rabínicos organizada na terra de Israel e geralmente datada do século 5 depois de Cristo, com material mais antigo dentro dela. Ali Terá vende ídolos, Abraão quebra as imagens da loja com um porrete, e o pai o entrega ao rei Nimrode, que o lança numa fornalha. Abraão sai salvo, e Harã, que esperava para ver quem venceria, morre no fogo diante de Terá. Midrash é uma explicação que busca sentido em cada detalhe do texto, e a sua parte narrativa, a agadá, ensina contando histórias.

Rashi, o comentarista judeu do século 11, na França, faz uma distinção preciosa ao comentar Gênesis 11:28. Primeiro dá o sentido simples, que Harã morreu em vida do pai, e só depois diz que um midrash agadá conta a história da fornalha, ligando Ur ao fogo dos caldeus. É bonito ver o leitor judeu mais respeitado separar o texto da história. Na melhor forma dessa leitura, Abraão também não se salva sozinho: na mesma coletânea, ele é como um viajante que vê um palácio iluminado e pergunta se não tem dono, até que o dono aparece. Nessa primeira leitura, herdada pelo judaísmo rabínico, o chamado responde a alguém que já tinha rompido com os ídolos.

A pergunta dos ídolos quebrados, então, tem resposta clara: essa história não está em Josué, nem em Gênesis, nem em nenhum livro da Bíblia hebraica ou do Novo Testamento. Só a tradição ortodoxa etíope recebe Jubileus como Escritura, e a fornalha de Nimrode não aparece em nenhuma Bíblia.

Segunda leitura: a casa de Terá como resto fiel

A segunda leitura vem de um pai da Igreja do século 5, Agostinho, bispo de Hipona, e não repete a lenda. Em A Cidade de Deus, ele diz que a casa de Terá foi a única em que sobreviveu a adoração do Deus verdadeiro. Ele reconhece que Josué põe essa família no culto a outros deuses, mas compara: como a de Noé no dilúvio de água, a casa de Terá foi preservada no dilúvio de superstição. Depois recorre ao livro de Judite, onde os antepassados de Israel são expulsos da Caldeia por recusar seus deuses, e conclui que a casa de Terá foi perseguida por adorar o Deus verdadeiro.

Judite está nas Bíblias de católicos e ortodoxos, mas judeus e protestantes não incluem esse livro no cânon, isto é, na lista dos livros da Escritura. Diante do midrash, essa leitura troca o herói solitário por uma família fiel e encontra lugar natural nas igrejas que recebem Judite.

Terceira leitura: Calvino e Spurgeon

E os leitores da Reforma, o que fizeram com o mesmo versículo? A terceira leitura vai na direção contrária de Agostinho, e quem a abre é João Calvino (1509–1564), no Comentário sobre Josué, escrito em Genebra no século 16. Ele diz que Josué começa pela adoção gratuita, pela qual Deus se antecipou a qualquer esforço do povo, para que ninguém se gloriasse de mérito próprio. Por isso Abraão, preso à idolatria, foi levantado como de um abismo, e onde Agostinho vê um resto fiel, Calvino vê a misericórdia livre de Deus já na origem do povo.

Três séculos depois, Charles Spurgeon (1834–1892) pregou em Londres sobre Isaías 51, onde Deus diz: “Quando eu o chamei, ele era apenas um, e eu o abençoei e o tornei muitos”. Ele chama esse chamado de misericordioso e pede que, ao olhar para Abraão, se pense antes no Senhor que o chamou. Essa leitura é herança comum de reformados, batistas, metodistas e de boa parte do mundo evangélico, embora alguns comentaristas prefiram não afirmar, como Calvino, a idolatria pessoal de Abraão.

Pesando as três leituras pelo texto

A objeção mais forte vem de mais de um lado da mesa. A parábola do palácio lembra que foi Deus quem se mostrou, e a busca de Abraão não anula a graça, apenas a recebe. Agostinho tem a seu favor o próprio Gênesis, que não mostra Abraão adorando ídolo nenhum. E você pode estar pensando: “se Hebreus elogia a fé de Abraão, a fé não seria justamente o mérito que o distinguiu?”

Aqui o método pede honestidade: sobre a vida de Abraão em Ur, a Bíblia nos dá poucas linhas, e nenhuma leitura pode provar o que ela não registra. Mas Estêvão, em Atos 7:2-4, diz que o Deus glorioso apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, antes de ele morar em Harã. Então pesemos as três leituras pelo próprio texto.

Em Josué 24:3, a frase decisiva começa com “mas eu tirei”, e quem diz “eu” é o Senhor. O mesmo verbo volta em Gênesis 15:7 e em Neemias 9:7, e Isaías lembra que Abraão era apenas um quando foi chamado; em nenhum desses textos aparece uma virtude anterior que explique a escolha. O argumento de Josué depende disso: ele fala a um povo que, pelo versículo 23, ainda guardava deuses estrangeiros, e mostra que o pai de todos saiu do mesmo lugar, levado pela mão de Deus.

A história dos ídolos quebrados, bela como ensino, não se sustenta como leitura de Josué nem de Gênesis, porque transfere o verbo decisivo de Deus para Abraão. O próprio Rashi a apresenta como midrash, e não como o sentido simples do texto. A leitura de Agostinho também não se sustenta por este texto: a fidelidade que ela vê na casa de Terá vem de Judite, e Josué só registra o culto a outros deuses. Agostinho acertou ao ver ali a semente da cidade de Deus, mas ela não estava guardada pela piedade daquela casa, e sim pela mão de quem a tirou de lá. Quanto ao próprio Abraão, o texto o põe entre os antepassados além do Eufrates e não o separa deles, e mesmo o leitor mais cauteloso precisa admitir que ele saiu daquela casa sem nenhum mérito registrado.

A leitura que o texto sustenta melhor é a terceira: Abraão não foi chamado por ter rompido com os ídolos, mas deixou a casa dos ídolos porque foi chamado. E esse texto confronta também a nossa casa: quantas vezes nós contamos a nossa conversão começando pelo que havia de bom em nós, como se Deus tivesse encontrado ali um Abraão quebrando ídolos?

Primeiro o chamado, depois a obediência

Hebreus 11:8 confirma a ordem: “Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo”. Primeiro vem o chamado, depois a obediência. Paulo explica em Romanos 4:4-5 que a fé não funciona como salário: “àquele que não trabalha, mas confia em Deus, que justifica o ímpio, sua fé lhe é creditada como justiça”. A graça vem antes, alcança quem estava dentro da casa dos ídolos e desperta nele uma fé que responde e obedece. Entre cristãos fiéis à Escritura, a conversa continua sobre como essa graça se relaciona com a resposta humana, se age de modo irresistível ou se capacita uma resposta que pode ser recusada, e nesse ponto seguimos como irmãos.

Abraão nos leva a Cristo

E aqui Abraão nos leva a Cristo, porque em Romanos 4 Paulo o chama de pai de todos nós e diz que aquela justiça foi escrita também por nossa causa. Ela é creditada a quem crê naquele que ressuscitou Jesus, entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação. Em Gálatas 3, Paulo diz que o descendente prometido a Abraão é Cristo, o Filho eterno que se fez homem. Na cruz, Deus fez pelo mundo o que tinha feito em Ur: foi buscar o ímpio onde ele estava, sem esperar que ele quebrasse primeiro os próprios ídolos. Por isso Paulo escreve em Efésios 2:8-9: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie”. E Jesus anunciou que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão no Reino dos céus, gente que, como ele, veio de longe.

Josué 24 põe a casa de Abraão no culto a outros deuses e se cala sobre os gestos dele em Ur. Dos Jubileus a Rashi, passando por Gênesis Rabá, a tradição judaica preencheu esse silêncio com um Abraão que já rejeitava os ídolos. Agostinho viu na família de Terá um resto fiel, perseguido por adorar o Deus verdadeiro. A Reforma e o avivamento, com Calvino e Spurgeon, encontraram no mesmo texto um homem tirado do fundo da idolatria pela iniciativa da graça. A objeção lembrou que a fé de Abraão é elogiada. E o próprio texto mostrou que o verbo decisivo é de Deus e que a fé veio como resposta ao chamado.

E você, quando olha para trás, o que Deus encontrou na sua casa quando chamou você? Josué não escondeu a foto antiga da família de Israel, e o evangelho também não pede que você esconda a sua. Ninguém precisa de um passado limpo para ser chamado por Deus: Abraão veio de uma casa que servia outros deuses e se tornou o pai da fé. O mesmo Senhor que o tirou de lá continua, em Cristo, chamando o ímpio pelo nome e fazendo dele um filho de Abraão.

Publicado em 8 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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Fontes para aprofundar

  • Que não há três deuses (a Ablábio)Gregório de Nissa · c. 335–c. 395

    Por que crer em três pessoas não é crer em três deuses: um texto curto e central para entender a teologia trinitária dos Capadócios.

Ver todas as fontes da História da Igreja →

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