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Jesus fundou a Igreja? Roma, o liberalismo e os reformados

Jesus fundou a Igreja? A visão católica, a liberal e a protestante clássica

Diego Gonçalves12 min de leitura2.409 palavras

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Neste estudo

Você já parou pra pensar se a Igreja foi mesmo ideia de Jesus? Ou se tudo o que chamamos de cristianismo não passa, na verdade, de uma construção posterior dos discípulos, desesperados, tentando salvar o que sobrou de um ministério fracassado?

Essa é a pergunta que, se feita com honestidade, abala o chão da fé cristã. Porque tudo depende disso: se Jesus de Nazaré é o mesmo Cristo que adoramos, então a Igreja não é apenas uma instituição religiosa. É o corpo vivo de Cristo na Terra. Mas se essa ligação entre Jesus e a Igreja não é sólida, ou pior, se foi inventada, então talvez a fé cristã seja só mais uma tentativa humana de dar sentido ao absurdo da morte. O tema é pesado. Mas é também inadiável.

A boa notícia é que essa pergunta já foi feita por gente muito mais preparada do que a gente. A má notícia é que eles também não chegaram a um consenso. Dois extremos se destacam na história do pensamento cristão: de um lado, a visão católica tradicional; de outro, o liberalismo protestante. No meio, a maioria de nós tentando entender o que, afinal, significa dizer que Jesus “fundou” a Igreja.

A visão católica clássica

Para o pensamento católico tradicional, aquele que se formou nos concílios, na patrística e atravessou os séculos até o Vaticano II, Jesus de fato veio ao mundo com a intenção de formar uma comunidade. Mas não qualquer comunidade: uma extensão do seu próprio corpo, uma presença real e contínua da encarnação entre os homens.

Essa visão está ancorada em textos como Mt 16:18, quando Jesus diz a Pedro: “sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Para essa leitura, não há ambiguidade. A Igreja começa ali e se manifesta plenamente após a ressurreição, sob a liderança apostólica, especialmente com Pedro, o portador das chaves do Reino.

O evento fundador, porém, não é apenas a cruz ou a ressurreição. É a encarnação, o momento em que o Verbo se fez carne (Jo 1:14). “Emanuel”, Deus conosco. É essa presença real, encarnada, que define a identidade da Igreja. O nascimento de Jesus não é só um milagre biológico. É o início da nova criação. A festa do Natal, com toda a sua carga simbólica, ainda ocupa o centro do imaginário cristão ocidental justamente por causa disso.

A encarnação é o fundamento da teologia sacramental, especialmente da Eucaristia. Para a teologia católica, quando o pão e o vinho se tornam corpo e sangue de Cristo, não se trata de uma lembrança. É a mesma presença de Cristo, tornada acessível à igreja por meio do milagre da transubstanciação. O altar é o prolongamento da manjedoura.

É por isso que a Igreja é vista como o corpo de Cristo. E, como todo corpo, ela pode adoecer, ser ferida, enfrentar tempos sombrios, mas nunca deixa de ser o que é. As promessas de Jesus em Mt 16:18 sustentam essa identidade: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.

O protestantismo liberal

O outro extremo da discussão está no que chamamos de protestantismo liberal. Essa linha de pensamento começou a se consolidar no século XIX, especialmente na Alemanha, com teólogos como David Strauss, Ernest Renan e, mais tarde, Albert Schweitzer. Eles não partem da fé, mas da história. E, ao tentar reconstruir o que chamam de “Jesus histórico”, acabam por separar radicalmente o Jesus da história do Cristo da fé.

A ideia básica é que Jesus era um mestre judeu, um pregador carismático, talvez apocalíptico, mas nunca passou pela cabeça dele fundar uma religião nova, muito menos uma igreja. Ele teria vivido e morrido dentro do horizonte do judaísmo. Seus ensinamentos, como o Sermão do Monte, seriam interpretações morais da Lei: profundas, exigentes, até revolucionárias, mas ainda assim judaicas.

Essa visão se apoia em passagens como Mt 5:27-28, quando Jesus diz: “ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se ira contra seu irmão já é réu de juízo”. Ou seja, ele não está anulando a Lei, mas aprofundando a sua interpretação.

O problema é que, nessa leitura, a morte de Jesus teria sido um acidente, um erro de cálculo. Jesus teria sido mal interpretado pelas autoridades, condenado injustamente e crucificado como tantos outros. Os discípulos, desiludidos, teriam então criado a ideia da ressurreição como forma de manter viva a sua mensagem. E a Igreja teria nascido não da intenção de Jesus, mas da necessidade de seus seguidores de seguir em frente.

Albert Schweitzer foi quem deu o golpe final nessa leitura romântica de Jesus. Em A Busca pelo Jesus Histórico, publicado em 1906, ele desmascara os teólogos liberais de sua época ao mostrar que todos haviam projetado seus próprios ideais sobre Jesus. Para ele, o Jesus histórico não era um mestre ético nem um reformador social. Era um profeta apocalíptico, um homem que cria que o fim estava próximo e que o seu sofrimento inauguraria o Reino de Deus.

Só que, segundo Schweitzer, esse fim não veio. E os discípulos, mais uma vez, adaptaram a mensagem. Criaram um Cristo mais palatável, mais aceitável, mais divino. Schweitzer chamou isso de “domesticação” de Jesus. O resultado seria uma Igreja nascida de um erro de expectativa, uma espécie de mudança de marca religiosa.

O que as duas visões têm em comum

Essas duas visões, a católica tradicional e a liberal protestante, têm algo em comum: ambas reconhecem que há uma diferença entre o Jesus terreno e a Igreja visível. A divergência está em como entender essa diferença. Para a tradição católica, a diferença é funcional, não essencial. O Cristo glorificado é o mesmo Jesus histórico, agora exaltado, presente na Igreja por meio dos sacramentos. Já para o liberalismo, a diferença é radical: o Cristo da fé foi construído sobre as ruínas do fracasso de Jesus de Nazaré.

A chave da ascensão

Há uma chave que muda tudo nessa discussão, e essa chave é a ascensão. Pouco valorizada hoje, a ascensão é o momento decisivo que une o Jesus histórico ao Cristo glorificado. Nos evangelhos, especialmente em Lucas 24 e Atos 1, ela é o ato final da missão terrena de Jesus. É a transição da presença física para a presença espiritual, mediada pelo Espírito Santo.

Paulo, em Ef 4:8, citando o Sl 68:18, diz: “Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens”. Jesus não apenas ressuscita. Ele sobe aos céus, entra no Santo dos Santos celeste e ali apresenta o seu próprio sangue como sacrifício definitivo. Essa imagem, retomada em Hebreus 9 e 10, é central para entender o que é a Igreja: não apenas uma comunidade humana, mas uma realidade espiritual unida a Cristo no céu.

É por isso que a Ceia do Senhor não é uma repetição do sacrifício, mas uma lembrança da obra já consumada. Hb 7:25 afirma: “Ele vive para interceder por nós”. E é dessa intercessão, no céu, que nasce a verdadeira comunhão da Igreja. Sem a ascensão, a Igreja vira museu. Com a ascensão, a Igreja se torna o corpo unido à cabeça, que está no céu.

O nascimento da Igreja em Pentecostes

Aqui entra um segundo ponto crucial: o nascimento da Igreja não acontece no Natal, nem na cruz. Acontece em Pentecostes. É ali, depois da ascensão, que o Espírito é derramado e os apóstolos recebem poder para anunciar o evangelho a todas as nações. O Espírito é o elo entre Cristo glorificado e a Igreja militante. Sem o Espírito, não há corpo, não há comunhão, não há fé.

Isso desmonta duas simplificações comuns. A primeira é que Jesus fundou a Igreja como uma instituição humana, política, desde o início. A segunda é que a Igreja nasceu como uma invenção dos apóstolos. O que vemos no Novo Testamento é mais complexo: Jesus prepara os discípulos, mas é só depois da ressurreição que eles entendem, e é só com o Espírito que eles anunciam.

Os evangelhos deixam isso claro. Durante o ministério terreno, os discípulos não entendem quase nada. Estão confusos, medrosos, perdidos. Judas trai, Pedro nega, Tomé duvida. Só depois da ressurreição Jesus “abre-lhes o entendimento”, como diz Lc 24:45. E mesmo assim manda esperar: “Ficai em Jerusalém até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24:49). Pentecostes, então, não é só uma experiência emocional. É a oficialização da Igreja como povo de Deus. Mas um povo novo.

A relação com o judaísmo

Isso cria outro problema teológico: a relação com o judaísmo. Se todos os primeiros cristãos eram judeus, por que a separação aconteceu? Por que não ficou tudo junto, como mais uma seita do judaísmo? A resposta está no próprio sacrifício de Cristo.

O templo, com seu sacrifício anual, seu sumo sacerdote e seu Santo dos Santos, perde o sentido quando Jesus morre na cruz. Ele é o verdadeiro cordeiro. O véu se rasga (Mt 27:51). A separação acaba. Jo 2:19 registra: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”. Os judeus pensaram que ele falava do prédio, mas ele falava do seu corpo. Jesus é o novo templo, a nova arca, o novo acesso.

Isso significa que, para quem crê em Cristo, o judaísmo deixa de ser suficiente. Não porque perdeu valor, mas porque foi cumprido. A Lei era sombra, Cristo é a realidade. A promessa feita a Abraão se cumpre em Jesus. E, como Paulo afirma em Gl 3:26-29, “todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus […] E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão”.

Mas isso não foi entendido de imediato. No começo, os apóstolos ainda viam a fé cristã como uma continuidade do judaísmo. Pedro teve que ser convencido, por uma visão divina, a pregar aos gentios (At 10), e mesmo assim resistiu. O concílio de Jerusalém, em Atos 15, mostra como foi difícil aceitar que os gentios podiam entrar na aliança sem se tornarem judeus.

Essa tensão continua viva, porque toca em perguntas que a fé cristã precisa enfrentar com coragem. Qual é o lugar do Antigo Testamento na vida da Igreja? Qual a relação com o povo judeu que não aceitou Jesus como Messias? E, sobretudo: a Igreja de hoje está continuando a missão de Cristo ou está repetindo os erros de quem rejeitou o evangelho?

Como os protestantes clássicos respondem

O pensamento católico romano responde a isso com um sistema robusto, mas que, aos olhos da fé reformada, se torna problemático justamente porque confunde a Igreja com Cristo. Ao afirmar que a Igreja é a continuação da encarnação e que o Papa é o vigário de Cristo, corre-se o risco de atribuir à instituição uma autoridade que não lhe pertence. O Novo Testamento não aponta para uma sucessão petrina com poder infalível. Ele aponta para a centralidade do evangelho, para a pregação apostólica, para a Palavra de Deus como norma suprema.

A Igreja não é a fonte da verdade, ela é serva da verdade. Cristo é o cabeça, o Espírito é o guia e a Palavra é a regra de fé e prática. Por isso, mesmo reconhecendo que Deus usou e ainda pode usar a Igreja de Roma para testemunhar verdades do evangelho, o protestantismo clássico denuncia os desvios: a confusão entre tradição e revelação, a ideia de repetição do sacrifício de Cristo na Eucaristia e a transferência da mediação de Cristo a figuras humanas.

O problema não é honrar a encarnação. O problema é ignorar a ascensão. Cristo está vivo, mas não confinado ao altar. Ele reina nos céus, intercede por nós junto ao Pai e governa a sua Igreja por meio da Palavra e do Espírito.

Já o protestantismo liberal incorre no erro oposto: ao separar o Jesus da história do Cristo da fé, esvazia a autoridade do evangelho. Quando se reduz Jesus a um mestre moral ou a um líder apocalíptico fracassado, nega-se o coração da fé cristã: que Deus se fez homem, morreu pelos nossos pecados, ressuscitou e está vivo. A Igreja, então, vira apenas uma herança cultural, uma comunidade ética, um espaço de memória afetiva, mas não o povo redimido pelo sangue do Cordeiro.

O protestantismo reformado, o que chamamos aqui de protestantismo clássico, caminha por outro trilho, estreito mas seguro. Ele afirma com convicção que Jesus veio, sim, com a intenção de reunir um povo para si, não pela força de uma instituição visível, mas pelo poder da sua Palavra, da sua morte vicária e da sua ressurreição. A Igreja é o corpo dos que foram chamados para fora do mundo (ekklesia), não para formar um império terreno, mas para viver sob o senhorio de Cristo, até que ele volte.

Essa Igreja não é visível apenas nos prédios, nas tradições ou nos sacramentos. Ela é visível na fé genuína, na obediência ao evangelho, na comunhão dos santos, na pregação fiel da Palavra e na celebração correta dos sacramentos. Esse foi o critério de Lutero, Calvino, Bucer e tantos outros que, em vez de reinventarem a Igreja, quiseram purificá-la.

O coração da fé reformada está aqui: Cristo é suficiente. Sua obra é completa. Sua Palavra é final. A Igreja é santa não porque seus líderes são santos, mas porque está unida ao Santo. A Igreja é verdadeira quando confessa que não há outro mediador entre Deus e os homens senão Jesus Cristo (1Tm 2:5). A Igreja é viva quando crê, prega, canta e ora com a certeza de que “o justo viverá pela fé” (Rm 1:17).

Então, Jesus fundou a Igreja?

Voltamos à pergunta inicial: Jesus fundou a Igreja? Sim. Mas não do jeito que o liberalismo minimiza, nem do jeito que Roma absolutiza. Ele fundou a Igreja com sangue, não com cimento; com Palavra, não com coroas; com cruz, não com tronos. E essa Igreja, invisível aos olhos do mundo mas real na comunhão dos salvos, é a noiva que aguarda o noivo, pronta, pura, sustentada pela graça.

Por isso, ser cristão é mais do que imitar Jesus. Não é só perguntar “o que Jesus faria?”, como se ele fosse só um exemplo ético. É perguntar: “O que Jesus já fez por mim?”. E depois: “O que o Espírito quer fazer em mim agora?”.

Jesus não veio apenas ensinar. Veio morrer e ressuscitar. A Igreja não é o plano B, é o plano A. Mas só nasceu quando a cruz foi entendida, quando o túmulo foi vencido e quando o céu foi aberto.

Perguntas para reflexão

  1. Você entende o que é ser parte disso tudo?
  2. Você vive como quem foi unido ao Cristo que reina no céu, ou como quem ainda acha que tudo depende da sua própria religião, moral ou tradição?