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SermõesTito

Tito 3cinco exercícios de trabalho em equipe na igreja

Trabalho em equipe em Tito 3:12-15

Diego Gonçalves9 min de leitura1.756 palavras

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Neste texto

Um fotógrafo de jornal queria registrar imagens de um grande incêndio florestal, e o jornal concordou em fretar um avião para ele. Ao chegar ao aeroporto, ele correu para a pista, pulou no avião e gritou: “Decole!” Já no ar, instruiu o piloto a fazer duas ou três passagens baixas sobre o fogo. O piloto perguntou: “Por que exatamente?” Orgulhoso, o fotógrafo respondeu em voz alta: “Porque sou fotojornalista e preciso tirar fotos do incêndio. Chegue o mais perto que puder!” O piloto, com a voz trêmula, disse: “Você quer dizer… que não é o instrutor de voo?”

A moral da história é que as expectativas de cada um não foram correspondidas. Tanto o piloto quanto o fotógrafo fizeram suposições perigosas, e mesmo assim precisaram trabalhar em equipe para cumprir a tarefa e pousar em segurança.

Ao encerrar a carta a Tito, Paulo conclui com lições práticas sobre trabalho em equipe. Como parceiros de equipe, nunca devemos presumir que as coisas serão fáceis. Às vezes as nossas expectativas em relação aos outros são frustradas e a gente fica desanimado. E como somos egoístas por natureza, tendemos a não pensar o melhor dos outros. Por isso precisamos da ajuda de Deus para funcionar como a família de Deus.

Vamos olhar os versículos finais de Tito, em Tt 3:12-15. Vejo ali cinco exercícios de trabalho em equipe que podem beneficiar cada um de nós.

1. Não caminhe sozinho

Quando eu enviar Ártemas ou Tíquico, faça o possível para vir ao meu encontro em Nicópolis, pois decidi passar o inverno ali.

(Tt 3:12, NVI)

Com a proximidade do inverno, as viagens marítimas ficavam perigosas. Paulo queria garantir que Tito pudesse se juntar a ele. A expressão “faça o possível” é um comando com senso de urgência, como se dissesse, em bom português brasileiro: “Dá seus pulos, se vira e vem me ver.” Para isso, Paulo planejava enviar um de dois homens para assumir as tarefas de Tito em Creta. Dá pra tirar algumas observações disso.

Discipulado pessoal. Paulo praticava o cuidado pessoal. Tito estava sob estresse com a situação conturbada em Creta, e Paulo o chama para um tempo de restauração. Nisso ele segue o exemplo de Jesus, que, ao ver os discípulos cansados, convidou: “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco” (Mc 6:31). Imagino que Paulo tenha analisado a situação de Creta com Tito e o preparado para a próxima missão. Faz um apelo parecido a Timóteo: “Procure vir antes do inverno” (2Tm 4:21).

Parceria, não individualismo. Paulo não era um lobo solitário. Nas cartas dele aparecem dezenas de pessoas citadas pelo nome. Valorizava profundamente o trabalho em equipe e firmava parcerias com crentes de todas as classes. Aos filipenses, celebra a “cooperação que vocês têm demonstrado no evangelho, desde o primeiro dia até agora” (Fp 1:5).

Amizades que fortalecem. Amizades com seguidores fiéis nos ajudam a crescer. A igreja é uma comunidade interdependente: “em Cristo nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros” (Rm 12:5). Eu preciso de você e você precisa de mim. “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro” (Pv 27:17).

Relacionamentos forjados no serviço. As melhores amizades se desenvolvem em experiências compartilhadas. Muitos relacionamentos de Paulo foram forjados no calor do ministério, e alguns dos melhores amigos que você vai fazer são aqueles com quem serve lado a lado.

Pessoas acima de programas. Paulo se importa com os relacionamentos. Não manda a igreja manter os programas funcionando a qualquer custo, e sim cultivar amizades. Admiro como ele abre o coração: “Não quero vê-los apenas de passagem; espero ficar algum tempo com vocês, se o Senhor o permitir” (1Co 16:7).

Diversidade e autenticidade. É bom ter amigos diferentes de nós. Paulo foi amigo de um médico, de um dono de escravos, de um escravo fugitivo, de judeus e de gentios. E era autêntico. A Bíblia não caiu do céu pronta: contém cartas reais, de uma pessoa real para pessoas reais, cheias de calor e emoção.

Deus usa a todos. Dos homens citados em Tt 3:12, Tíquico tem um currículo espiritual impressionante, enquanto de Ártemas nada sabemos. Deus usa tanto os notáveis quanto os anônimos. Tíquico era uma escolha óbvia para substituir Tito, pois, como vemos em At 20:4, Ef 6:21, Cl 4:7 e 2Tm 4:12, era um colaborador experiente. Suas qualidades eram claras:

  • Mensageiro de confiança. Entregou cartas importantes e era o portador de confiança de Paulo.
  • Relator fiel. Levava notícias de Paulo às igrejas e trazia relatórios de volta.
  • Encorajador. Buscava oportunidades de animar os desanimados. Precisamos de mais encorajadores, pois a Bíblia nos adverte: “Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias… de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3:13). Você constrói os outros com suas palavras ou os derruba?
  • Substituto. Foi enviado para render Timóteo em Éfeso, chegando como reforço descansado e pronto para a missão.

O maior elogio ao caráter dele vem de Paulo: “Tíquico informará vocês de todas as coisas a meu respeito. Ele é o irmão amado, ministro fiel e cooperador no serviço do Senhor” (Cl 4:7). Irmão amado: Paulo não hesitava em ser afetuoso e mostrar seu carinho. Ministro fiel: Paulo contava com ele, e Deus não nos pede para sermos famosos, mas fiéis, nem brilhantes, mas disponíveis. Cooperador no serviço: Paulo não se via como superior, e sim como parceiro na mesma missão. Eram colegas de equipe.

Imagine se a igreja dependesse de um único indivíduo incrivelmente talentoso, carismático e magnético. Ela certamente teria entrado em colapso. O que os discípulos descobriram foi que nenhum deles tinha o pacote completo, mas cada um tinha um papel significativo a desempenhar.

2. Apoie os que vão

Ajude zelosamente Zenas, o perito na lei, e Apolo, em sua viagem, para que não lhes falte nada.

(Tt 3:13, NVI)

Zenas era especialista na Lei, e Apolo, um pregador eloquente e profundo conhecedor das Escrituras (At 18:24-28). Eram missionários itinerantes que precisavam de apoio para continuar. “Zelosamente” indica urgência e generosidade. A ideia era enviá-los em sua jornada de modo digno, como vemos em 3 João:

Amado, você é fiel no que está fazendo pelos irmãos… Você fará bem se os encaminhar em sua viagem de modo digno de Deus… É nosso dever, portanto, acolher esses irmãos, para que nos tornemos cooperadores em favor da verdade.

(3Jo 1:5-8)

Minha esposa Ale e eu já estivemos dos dois lados. Como missionários, ficamos maravilhados com a generosidade do povo de Deus, mesmo lutando com o estereótipo de que missionários estão sempre pedindo dinheiro. Recebemos orações e uma generosidade santa da nossa igreja para a nossa ida. Eu sempre vejo o esforço dos irmãos em suprir as necessidades dos jovens da igreja, e sempre agradeço a Deus pela vida de vocês. E, além daqui, vi também o cuidado de Deus lá no Amazonas, quando recebemos um quarto pra dormir, uma moto pra ir e vir, uma carona no barco da polícia e o carro de um pastor quando voltamos.

Hoje vemos como é desafiador ser missionário. Muitos não têm o sustento completo, e podem levar de um a três anos só levantando apoio antes de poder ir ao campo. Conheço missionários e projetos que enfrentam lutas financeiras. Fico feliz com o quanto a nossa igreja apoia, mas espero que continuemos a fazer mais. Encorajo você a apoiar os que vão. Alguns vão, outros ofertam, e todos nós oramos.

3. Faça o que é bom

Quanto aos nossos, que aprendam a dedicar-se à prática de boas obras, a fim de que supram as necessidades diárias e não sejam improdutivos.

(Tt 3:14, NVI)

É a sexta vez que Paulo insiste nisso numa carta tão curta. Meu palpite é que a gente não pratica o bem naturalmente: somos preguiçosos ou focados em nós mesmos. Precisamos de lembretes constantes pra, por meio das boas obras, nos destacarmos na nossa cultura. Repare que temos de “aprender a nos dedicar” a isso.

A última parte do versículo tem duplo sentido: quando fazemos o bem, tanto as nossas necessidades são supridas (Mt 6:33) quanto suprimos as necessidades urgentes dos outros. As duas coisas são verdadeiras. Quando damos, recebemos. E quando damos, outros podem ir. Isso nos impede de ser improdutivos. Ef 4:28 diz que trabalhamos para ter o que compartilhar com os necessitados.

Com a aproximação do Dia das Crianças, penso em duas coisas que gostaria de fazer em outubro: uma grande festa com as crianças da comunidade e mais uma visita ao instituto Luz do Amanhã, uma casa que hospeda pacientes com câncer. Como disse Andrew Murray: “Quanto mais profunda for a nossa convicção de que fomos salvos pela graça, e não por obras, mais forte será a prova, manifestada em boas obras, de que realmente fomos salvos.”

4. Cumprimente a todos

Todos os que estão comigo lhe enviam saudações. Saúde os que nos amam na fé.

(Tt 3:15, NVI)

A paixão de Paulo pelas pessoas transparece neste versículo. Ele ansiava por conexão e queria que soubessem que a equipe dele estava com elas. A ordem de saudar, no plural, sugere que a carta deveria circular. Isso se parece bastante com a cultura brasileira, não é? Brasileiro ama se cumprimentar com calor, com abraço em todo mundo na chegada e na saída. Nos tempos bíblicos, usava-se o “ósculo santo”, o beijo santo.

O ponto é que devemos ser calorosos, reconhecer os outros, nos conectar. E isso é muito importante. Spurgeon escreveu que a igreja está cheia de sofredores silenciosos. O primeiro passo é sair da nossa concha e cumprimentar alguém.

5. Demonstre graça

Paulo encerra com a sua frase favorita: “A graça seja com todos vocês.” Nunca se cansou do favor imerecido de Deus. A graça é a palavra final em todas as suas cartas e em quase todo o Novo Testamento, até a última frase da Bíblia:

A graça do Senhor Jesus seja com todos os santos. Amém.

(Ap 22:21)

Resumo e conclusão

Somos colegas de equipe. Vamos praticar juntos:

  • Não caminhe sozinho
  • Apoie os que vão
  • Faça o que é bom
  • Cumprimente a todos
  • Demonstre graça

Pra terminar: em 2010, 33 mineiros chilenos ficaram presos por 69 dias a 700 metros de profundidade. Depois do resgate, contaram que decidiram desde o início que viveriam ou morreriam como um grupo. No escuro e no frio, eles se aqueciam uns aos outros. Quando um desanimava, os outros o cercavam, repartiam o pouco que tinham e o animavam. “Foi um esforço de equipe”, disse um deles. “Essa era a única maneira.”

Que imagem poderosa do corpo de Cristo! Fomos criados para a comunidade, e a nossa única saída é nos apoiar em Deus e nos outros.