
EstudosEstudos em Êxodo3 de 5
Êxodo 1As parteiras, o cesto e o clamor
Estudo indutivo de Êxodo 1 e 2: o povo que cresce sob opressão, as mulheres que temem a Deus e o menino que Deus guarda para libertar
Neste estudo
- Um povo que Deus fez crescer (1:1-7)
- Um rei que não conhecia José (1:8-14)
- Duas parteiras que temeram a Deus (1:15-22)
- Uma mãe esconde o filho (2:1-4)
- O menino que a filha do faraó criou (2:5-10)
- Um libertador que se adiantou (2:11-14)
- Um fugitivo em Midiã (2:15-22)
- Deus ouviu, lembrou, viu e conheceu (2:23-25)
- O cesto que Deus guardou
Esconder um presente de aniversário dentro de casa dura dois ou três dias. Alguém abre o armário errado, e a surpresa acaba. Imagine esconder uma criança durante três meses onde a ordem do governo é matar.
Gênesis terminou com a família de Jacó a salvo no Egito. Êxodo abre com essa família transformada em povo e, ao mesmo tempo, em escrava. Os dois primeiros capítulos respondem a uma pergunta que muitas pessoas fazem em tempo de aperto: onde está Deus quando tudo parece dar errado?
Um povo que Deus fez crescer (1:1-7)
1 Estes são os nomes dos filhos de Israel que entraram em Egito com Jacó; cada um entrou com sua família: 2 Rúben, Simeão, Levi e Judá; 3 Issacar, Zebulom e Benjamim; 4 Dã e Naftali, Gade e Aser. 5 Assim, todas as pessoas que descenderam do corpo de Jacó foram setenta. Porém José estava no Egito. 6 Depois que morreram José, todos os seus irmãos, e toda aquela geração, 7 os filhos de Israel cresceram e multiplicaram, e foram aumentados e fortalecidos grandemente; de maneira que a terra encheu-se deles.
(Êxodo 1:1-7, Bíblia Livre)
Observação. O livro abre com nomes e um número exato: setenta pessoas. Depois uma geração passa em uma frase, e os verbos se acumulam: “cresceram”, “multiplicaram”, “fortalecidos”.
Interpretação. A lista liga Êxodo a Gênesis: a história continua. A multiplicação cumpre a promessa feita a Abraão. O Egito não foi desvio de rota: a Jacó, que hesitava em descer, Deus disse “eu te farei ali em grande nação” (Gênesis 46:3). Na saída, eram “como seiscentos mil homens a pé” (Êxodo 12:37).
Aplicação. Deus cumpre as promessas por caminhos que não escolheríamos. Só entendemos o lugar onde estamos olhando para trás, como se entende uma estrada de serra ao ver a curva lá embaixo.
Perguntas para discussão
- Por que o autor volta aos nomes dos filhos de Jacó?
- Qual “Egito” você vive, onde Deus talvez esteja agindo sem você ver?
Um rei que não conhecia José (1:8-14)
8 Levantou-se, entretanto, um novo rei sobre o Egito, que não conhecia José. 9 Ele disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é maior e mais forte que nós; 10 Agora, pois, sejamos astutos para com ele, a fim de que não se multiplique, e aconteça que caso venha guerra, ele se alie aos nossos inimigos, lute contra nós, e saia desta terra. 11 Então puseram sobre o povo de Israel capatazes para os oprimirem com trabalhos forçados; e edificaram a Faraó as cidades de armazenamento, Pitom e Ramessés. 12 Porém, quanto mais os oprimiam, mais se multiplicavam e cresciam. Por isso eles detestavam os filhos de Israel. […]
(Êxodo 1:8-12, Bíblia Livre)
Observação. O novo rei vê nos israelitas uma ameaça: são muitos e, em caso de guerra, podem passar para o lado inimigo. A resposta vem em etapas: capatazes, trabalho forçado, obras para o faraó. Mas, quanto mais oprimidos, mais eles cresciam (v. 12).
Interpretação. “Não conhecia José” quer dizer mais do que ignorar um nome: o rei não reconhecia dívida com quem salvara o país da fome. O medo dele é só uma hipótese (“caso venha guerra”), e perseguição quase sempre nasce de um perigo imaginado.
O versículo 12 mostra um padrão bíblico: em Jerusalém, a perseguição dispersou a igreja, e os dispersos “passavam anunciando a palavra” (Atos 8:4). Deus não chama a opressão de boa, e avisara que julgaria a nação opressora (Gênesis 15:14).
Aplicação. Sofrer não é sinal de abandono. Precisamos também guardar a memória do bem que recebemos, para não virar o rei que esqueceu José.
Perguntas para discussão
- Por que a perseguição, na história da igreja, tantas vezes produz o contrário do que pretendia?
- Que bem recebido de Deus ou de outras pessoas você deixou esfriar na memória?
Duas parteiras que temeram a Deus (1:15-22)
15 E o rei do Egito falou às parteiras das hebreias, uma das quais se chamava Sifrá, e outra Puá, e disse-lhes: 16 Quando fizerdes o parto das hebreias, e olhardes os assentos, se for filho, matai-o; e se for filha, então viva. 17 Mas as parteiras temeram a Deus, e não fizeram como o rei do Egito lhes mandara; em vez disso, preservaram a vida dos meninos. 18 E o rei do Egito mandou chamar às parteiras e lhes perguntou: Por que fizestes isto, que preservastes a vida dos meninos? 19 As parteiras responderam a Faraó: As mulheres hebreias não são como as egípcias; pois são fortes, de maneira que dão à luz antes que a parteira chegue a elas. 20 E Deus fez bem às parteiras. E o povo se multiplicou, e se fortaleceu muito. 21 E por as parteiras terem temido a Deus, ele constituiu famílias a elas. 22 Então Faraó deu a todo o seu povo a seguinte ordem: Lançai no rio todo filho que nascer, e a toda filha preservai a vida.
(Êxodo 1:15-22, Bíblia Livre)
Observação. Falhou a opressão, e o rei passa a matar. O texto guarda os nomes das duas parteiras, Sifrá e Puá, e deixa sem nome o faraó. Elas “temeram a Deus”, poupam os meninos e, chamadas ao palácio, dão uma explicação. Deus “fez bem” a elas, e o faraó estende a ordem a todo o povo dele.
Interpretação. O rei quis fazer de gente humilde cúmplice de um crime, e elas recusaram. O motivo está em três palavras: “temeram a Deus”. Esse temor pesa mais que o de um rei. Os apóstolos disseram o mesmo: “Maior obrigação é obedecer a Deus do que às pessoas” (Atos 5:29). A autoridade é serva de Deus para o bem (Romanos 13:4), e por isso a obediência a ela tem limite: quando manda matar inocentes, trai o próprio fundamento (Êxodo 20:13).
A resposta ao faraó soa como meia verdade. O texto não a aprova nem a condena, e o que Deus recompensa é o temor (v. 21). Com Raabe é igual (Josué 2:4-6): louva-se a fé, sem fazer da mentira uma regra.
Aplicação. A vida vem de Deus: “tu és dono do meu ser, e me cobriste no ventre da minha mãe” (Salmos 139:13). Por isso protegemos a vida desde o começo, o que passa por acolher gestantes assustadas e aconselhar com paciência, e não só por discutir leis.
Perguntas para discussão
- Quando desobedecer a uma autoridade é fidelidade a Deus, e quando é só rebeldia?
- Que gesto concreto a sua igreja pode fazer para proteger vidas vulneráveis na sua cidade?
Uma mãe esconde o filho (2:1-4)
1 Um homem da família de Levi foi, e tomou por mulher uma filha de Levi: 2 A qual concebeu, e deu à luz um filho: e vendo-o que era belo, teve-lhe escondido três meses. 3 Porém não podendo ocultar-lhe mais tempo, tomou uma cesta de juncos, e vedou-a com piche e betume, e colocou nela ao menino, e o pôs entre os juncos à beira do rio: 4 E ficou parada uma irmã sua ao longe, para ver o que lhe aconteceria.
(Êxodo 2:1-4, Bíblia Livre)
Observação. A cena é pequena. Um casal levita tem um filho, e a mãe o esconde por três meses. Quando já não dá, veda um cesto de juncos com piche e betume e o deixa entre as plantas da margem, com a irmã do menino vigiando de longe.
Interpretação. O faraó mandou jogar os meninos no rio, e a mãe de Moisés também põe o filho no rio, mas dentro de um cesto vedado como um barco. A palavra hebraica para “cesta” é a mesma da arca de Noé: nas duas histórias, uma pequena embarcação que Deus guarda atravessa a água da morte. Hebreus diz que foi “pela fé” que os pais o esconderam e “não se intimidaram com o mandamento do rei” (Hebreus 11:23). Eles fizeram o que podiam e entregaram o resto a Deus.
Aplicação. Tem coisa que amamos e precisa sair das nossas mãos. A mãe de Moisés mostra que fé não dispensa cuidado, mas reconhece onde o cuidado termina. Também nós precisamos deixar o cesto na água.
Perguntas para discussão
- O que os pais de Moisés fizeram por conta própria, e o que só Deus podia fazer?
- A que pessoa ou situação você precisa dizer “agora é com Deus”, depois de ter feito a sua parte?
O menino que a filha do faraó criou (2:5-10)
5 E a filha de Faraó desceu a lavar-se ao rio, e passeando suas virgens pela beira do rio, viu ela a cesta entre os juncos, e enviou uma criada sua a que a tomasse. 6 E quando a abriu, viu ao menino; e eis que o menino chorava. E tendo compaixão dele, disse: Dos meninos dos hebreus é este. 7 Então sua irmã disse à filha de Faraó: Irei a chamar-te uma ama das hebreias, para que te crie este menino? 8 E a filha de Faraó respondeu: Vai. Então foi a virgem, e chamou à mãe do menino; 9 À qual disse a filha de Faraó: Leva este menino, e cria-o para mim, e eu te o pagarei. E a mulher tomou ao menino, e o criou. 10 E quando cresceu o menino, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou, e pôs-lhe por nome Moisés, dizendo: Porque das águas o tirei.
(Êxodo 2:5-10, Bíblia Livre)
Observação. A filha do faraó abre o cesto, vê um bebê chorando e sente compaixão, mesmo sabendo que é hebreu. A irmã oferece uma ama, e a própria mãe do menino é contratada e paga para criá-lo. Crescido, ele vai para o palácio e recebe o nome de Moisés.
Interpretação. O texto não usa a palavra “providência”, mas a cena inteira a ensina. Quem estava no rio? A filha do homem que mandou matar os meninos. Quem a comoveu? O choro de um bebê. O libertador foi criado na casa do faraó, e a mãe recebeu salário do governo para criar o próprio filho. Como disse José: “Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem” (Gênesis 50:20). O nome Moisés lembra o verbo “tirar”, e quem foi tirado das águas tiraria um povo do mar. No palácio, ele “foi instruído em toda a sabedoria dos egípcios” (Atos 7:22): o libertador se formou dentro do império que o povo precisava deixar.
Aplicação. Deus coloca pessoas nos lugares certos, e a compaixão de quem ainda não o conhece pode ser instrumento nas mãos dele. Também nós podemos ser usados onde estamos. Talvez não mudemos a política de um país, mas podemos ajudar uma pessoa. Estamos dispostos, mesmo com algum risco?
Perguntas para discussão
- Foi coincidência a princesa estar no rio na hora certa? O que o texto diz sobre o modo como Deus age?
- Onde Deus colocou você hoje, e quem está ao seu alcance para receber ajuda?
Um libertador que se adiantou (2:11-14)
11 E naqueles dias aconteceu que, crescido já Moisés, saiu a seus irmãos, e viu suas cargas: e observou a um egípcio que feria a um dos hebreus, seus irmãos. 12 E olhou a todas as partes, e vendo que não parecia ninguém, matou ao egípcio, e escondeu-o na areia. 13 E saiu ao dia seguinte, e vendo a dois hebreus que brigavam, disse ao que fazia a injúria: Por que feres a teu próximo? 14 E ele respondeu: Quem te pôs a ti por príncipe e juiz sobre nós? Pensas matar-me como mataste ao egípcio? Então Moisés teve medo, e disse: Certamente esta coisa é descoberta.
(Êxodo 2:11-14, Bíblia Livre)
Observação. Já adulto, Moisés sai para ver “seus irmãos”, e o texto mostra de que lado ele se sente. Vê um egípcio batendo num hebreu, olha ao redor, mata o egípcio e o esconde na areia. No dia seguinte tenta apartar dois hebreus em briga,, e o agressor o desafia com um “quem te pôs por juiz?”. Moisés tem medo.
Interpretação. O coração dele estava no lugar certo, pois sofreu com o sofrimento do seu povo, mas o método estava errado. Estêvão resume: ele “pensava que seus irmãos tivessem entendido que Deus ia lhes dar liberdade por meio da mão dele; mas eles não entenderam” (Atos 7:25). Moisés se adiantou ao tempo e ao modo de Deus: o libertador precisava primeiro ser formado. Rejeitado pelos dois lados, o privilegiado do palácio era um homem sem povo, embora Hebreus diga que ele “preferiu ser maltratado com o povo de Deus” (Hebreus 11:25). A fé era sincera, e o ato foi errado.
Aplicação. Boa intenção não torna certa uma ação. Fazer justiça com as próprias mãos continua errado, por mais nobre que seja a causa: Deus quer o motivo e também o caminho. Confesso que reconheço em mim essa pressa de resolver antes de perguntar a Deus como ele quer fazer.
Perguntas para discussão
- O que as ações de Moisés revelam sobre o seu coração e os seus limites?
- Em que situação você já agiu com pressa, por uma boa causa, e depois lamentou o método?
Um fugitivo em Midiã (2:15-22)
15 E ouvindo Faraó este negócio, procurou matar a Moisés: mas Moisés fugiu de diante de Faraó, e habitou na terra de Midiã; e sentou-se junto a um poço. 16 Tinha o sacerdote de Midiã sete filhas, as quais vieram a tirar água, para encher os bebedouros e dar de beber as ovelhas de seu pai. 17 Mas os pastores vieram, e expulsaram-nas: Então Moisés se levantou e defendeu-as, e deu de beber às suas ovelhas. 18-20 […] 21 E Moisés concordou em morar com aquele homem; e ele deu a Moisés a sua filha Zípora: 22 A qual lhe deu à luz um filho, e ele lhe pôs por nome Gérson: porque disse: Peregrino sou em terra alheia.
(Êxodo 2:15-22, Bíblia Livre)
Observação. O faraó quer matar Moisés, que foge para Midiã e se senta junto a um poço. Ali defende as sete filhas do sacerdote contra os pastores. O pai delas o convida para comer, e Moisés fica, casa com Zípora e dá ao filho o nome de Gérson, “peregrino”.
Interpretação. O homem que fugira depois da violência volta a defender os fracos, agora do jeito certo, com coragem e cuidado. Os quarenta anos em Midiã (Atos 7:30) foram uma escola: quem se adiantou aprendeu a esperar e a cuidar de um rebanho antes de cuidar de um povo. O sacerdote, Reuel aqui e Jetro em Êxodo 3:1, descendia de Abraão por Quetura (Gênesis 25:1-2) e conhecia o Deus verdadeiro. O nome Gérson diz o ânimo de Moisés, e o do segundo filho, Eliézer, “o Deus de meu pai me ajudou” (Êxodo 18:4), muda a dor em gratidão.
Aplicação. Há fases em que a vida nos tira do lugar e nos deixa esperando: demissão, doença, mudança de cidade. Parece tempo perdido, mas Deus pode usar o deserto para nos formar, e podemos servir com fidelidade nas tarefas pequenas, como Moisés serviu às filhas de Jetro.
Perguntas para discussão
- O que o episódio do poço revela sobre o caráter de Moisés?
- Que “tempo de deserto” você vive ou já viveu, e o que Deus pode estar ensinando nele?
Deus ouviu, lembrou, viu e conheceu (2:23-25)
23 E aconteceu que depois de muitos dias morreu o rei do Egito, e os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram: e subiu a Deus o clamor deles com motivo de sua servidão. 24 E ouviu Deus o gemido deles, e lembrou-se de seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó. 25 Deus olhou os filhos de Israel, e Deus os reconheceu.
(Êxodo 2:23-25, Bíblia Livre)
Observação. Passam-se muitos dias, o rei morre, e a opressão continua. O povo suspira e clama, e o clamor sobe. A resposta traz quatro verbos com Deus por sujeito: ele ouviu, lembrou-se, olhou e reconheceu.
Interpretação. “Lembrar-se”, na Bíblia, quer dizer agir por causa de uma promessa. Deus não esquecera a aliança, e chega a hora de cumpri-la. O verbo do versículo 25 vem da palavra hebraica para “conhecer”: Deus tomou o povo como seu. Ele dirá a Moisés: “conheço suas angústias” (Êxodo 3:7). A ação de Deus começou antes do clamor: o cesto, a princesa, o palácio e Midiã já estavam no plano quando o povo gemeu.
Aplicação. O silêncio de Deus não é ausência. Quem espera uma resposta há muito tempo pode se agarrar ao que o texto afirma: Deus ouve, lembra, olha e conhece.
Perguntas para discussão
- O que cada um dos quatro verbos acrescenta à resposta de Deus?
- Quando começou a resposta de Deus, segundo o que vimos nos capítulos 1 e 2?
O cesto que Deus guardou
A mãe de Moisés escondeu o filho por três meses e o deixou num cesto sem saber o fim. O plano de Deus incluía o cesto, o rio, a princesa, o palácio e até o salário dela.
Êxodo 1 e 2 mostram um povo que sofre e um Deus que parece calado, mas trabalha em cada detalhe: parteiras que obedeceram a Deus, uma mãe que fez o possível e confiou o resto, e um homem que precisou de quarenta anos para aprender a esperar.
Senhor, nós também já nos sentimos no Egito, esperando uma resposta que não chegava. Ensina-nos a temer a ti mais do que aos poderosos, a fazer a nossa parte e a entregar o resto em tuas mãos. Livra-nos da pressa de Moisés. Ouve o nosso clamor e lembra-te de nós. Amém.
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