AssineApoie

EstudosEstudos em 1 Samuel4 de 15

1 Samuel 2Samuel e os filhos de Eli em contraste

Um estudo em contrastes

Diego Gonçalves7 min de leitura1.339 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste estudo

Dois meninos crescem na mesma casa, comem da mesma comida, ouvem as mesmas histórias e frequentam o mesmo lugar. Um deles vira um homem de Deus. O outro vira motivo de vergonha. Quem tem filhos, sobrinhos ou alunos sabe que isso acontece. Em 1Sm 2:11-26 a gente vê a mesma coisa acontecendo em Siló, e o texto vai alternando de propósito entre Samuel e os filhos de Eli, como quem coloca duas fotos lado a lado.

Até aqui, vimos o nascimento de Samuel e a dedicação dele ao Senhor. Agora ele começa a servir em Siló, sob os cuidados do sacerdote Eli. Todos eles ali, Samuel e os filhos de Eli, cresceram perto da tenda do encontro e serviram nela. A diferença está no coração. E o pano de fundo é uma verdade que atravessa a Bíblia de Gênesis a Apocalipse: Deus abençoa os justos e julga os ímpios. Aqui, ele está prestes a tirar Eli e seus filhos do sacerdócio, e Samuel será peça-chave nessa transição.

Dois jeitos de servir

Quando Elcana voltou pra casa, em Ramá, o menino Samuel ficou em Siló, ministrando diante do Senhor sob a supervisão de Eli (1Sm 2:11). Repare na expressão: ele não serve só a Eli, ministra diante do Senhor. A palavra hebraica não é a de um empregado qualquer. Fala do serviço pessoal prestado a alguém de alta importância, especialmente na casa de Deus. Samuel ainda era criança, mas já servia com fidelidade.

Do outro lado estavam os filhos de Eli. O texto os chama de “filhos de Belial” e diz que não conheciam o Senhor (1Sm 2:12). “Belial” quer dizer “sem valor”, e a palavra aparece em outro lugar do mesmo livro, quando Eli achou que Ana estava bêbada e ela respondeu que não era uma mulher “sem valor” (1Sm 1:16). Há uma ironia ali: Eli confundiu Ana com uma mulher má enquanto os próprios filhos dele é que mereciam o nome. Séculos depois, “Belial” virou um nome pra Satanás (2Co 6:15).

“Não conheciam o Senhor” é grave pra qualquer um. Pra quem era sacerdote, é pior ainda. Eles deviam representar Deus diante do povo e não davam a ele o lugar de Deus na própria vida.

Dá pra ver isso na forma como tratavam quem vinha oferecer sacrifício. A lei dizia o que cabia ao sacerdote. Das ofertas de comunhão, ele ficava com o peito e a coxa direita (Lv 7:29-34), e em outros casos também com o ombro (Nm 6:19-20; Dt 18:3). A gordura pertencia ao Senhor (Lv 3:16). Os filhos de Eli não esperavam nada disso. Mandavam o servo enfiar um garfo de três dentes na panela enquanto a carne cozinhava, e tudo o que o garfo tirasse ia pro sacerdote (1Sm 2:13-14). Pior: antes mesmo de queimarem a gordura, o servo chegava exigindo carne crua pra assar, e, se o ofertante pedisse pra esperar, ouvia que ia ter que dar na hora ou o servo tomava à força (1Sm 2:15-16).

Quem já foi a um churrasco e viu alguém avançar no espeto antes de servirem a mesa entende a cena. Só que aqui o espeto era o altar, e quem avançava na melhor parte antes de Deus receber a dele era o sacerdote. Eles eram gananciosos e não tinham respeito pelo Senhor nem pelas pessoas que vinham adorar. Mais tarde, esses dois irmãos morreriam em batalha contra os filisteus (1Sm 4:11).

Dois jeitos de viver diante de Deus

O contraste continua. Samuel ministrava vestido com um éfode de linho (1Sm 2:18). O linho, na Bíblia, aparece ligado a pureza e a atos justos, e no Apocalipse é a roupa da noiva do Cordeiro (Ap 19:8). A pureza é valorizada por Deus porque ele é completamente santo, e é por isso que a Lei ensinava tanto sobre pureza ritual. O Novo Testamento chama a igreja à pureza do corpo e do coração (Ef 5:3), e o Apocalipse fecha dizendo que nada impuro entrará na Cidade Santa (Ap 21:27).

A família de Samuel o visitava todo ano, na ocasião do sacrifício anual, e Ana levava um mantozinho novo que ela mesma tinha feito pra ele (1Sm 2:19). Eli abençoava Elcana e Ana, e Deus deu a Ana mais três filhos e duas filhas (1Sm 2:20-21). Ana tinha entregado a Deus o único filho e recebeu outros em troca. Dar a Deus é uma experiência alegre pra quem crê, e a gente nunca deveria ter medo de fazer isso. O verso 21 diz que o menino Samuel crescia diante do Senhor, e não há jeito melhor de crescer.

Já os filhos de Eli estavam envolvidos em imoralidade sexual, até com as mulheres que serviam à entrada da tenda do encontro (1Sm 2:22). O pecado deles era muito grave, e a má fama se espalhou por todo o povo. Eli já era muito velho e ouvia falar de tudo. Quando finalmente os repreendeu, falou assim:

Se alguém pecar contra outro homem, Deus o julgará; mas se alguém pecar contra o Senhor, quem intercederá por ele?

(1Sm 2:25, NVI)

A pergunta de Eli é uma das mais sérias do livro. Se o pecado é contra Deus, quem faz a ponte? A resposta aparece no Novo Testamento: há um só mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo (1Tm 2:5). Eli, porém, falou tarde. Os filhos não deram ouvidos, e o texto diz que o Senhor já tinha decidido fazê-los morrer. Mais adiante, Deus diria que Eli sabia o que os filhos faziam e não os conteve (1Sm 3:13). Isso mostra como o pecado vai crescendo. Pequenos desvios, quando ninguém corrige, viram caminhos sem volta. Cabe aos pais disciplinar os filhos enquanto são novos e ensinar a diferença entre certo e errado, a importância do arrependimento e, acima de tudo, a confiar em Jesus Cristo pro perdão. Provérbios fala da disciplina como esperança (Pv 19:18). Se Eli tivesse agido antes, as coisas em Siló podiam ter sido diferentes. A disciplina amorosa é um ato de amor que busca o bem dos filhos.

Dois fins: favor e juízo

O último contraste está no verso 26. Samuel ia crescendo em estatura e em favor diante do Senhor e das pessoas. Os filhos de Eli, no mesmo período, perdiam o favor de Deus e ganhavam má reputação. Obediência e fidelidade trazem favor, enquanto desobediência e pecado, quando não há arrependimento, trazem juízo.

Existe, sim, um ponto de endurecimento que a gente não deve testar. Deus é misericordioso e perdoador, mas não é pra brincar com isso. Quem ouve o chamado ao arrependimento hoje não precisa esperar amanhã.

E agora, o que a gente faz com isso?

Se Deus abençoa os justos e julga os ímpios, a pergunta é como fica a gente. Devemos nos esforçar ao máximo pra viver uma vida boa e justa? Devemos nos sentir confiantes quando estamos indo bem e com medo quando pecamos? A Bíblia diz que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3:23), e por isso ninguém consegue ser justo por conta própria.

Quando alguém coloca a fé em Jesus, duas coisas acontecem. Primeiro, recebe a justiça de Cristo. Como Samuel foi vestido com o éfode de linho, a gente é vestido com a perfeita justiça do Filho. Somos perdoados e restaurados num relacionamento correto com Deus (2Co 5:21). Segundo, Deus começa a formar em nós essa justiça pelo Espírito Santo. É uma obra nova que ele começou e vai completar (Fp 1:6). A gente não recebe só uma posição de justo, Deus nos transforma em pessoas justas.

Quem ainda não conhece Jesus pode acolher hoje essa oferta: confessar o pecado e receber a justiça dele pela fé, sem adiar. Quem já conhece pode se perguntar se está crescendo em justiça, se o avanço na fé tem sido real e se tem pedido ao Espírito Santo as mudanças que ele precisa fazer. E quem foi alcançado precisa levar o evangelho a outros, porque fora de Cristo todos estamos perdidos.

Tomara que a gente seja como o menino de linho em Siló, que cresceu diante de Deus enquanto muita gente ao redor se endurecia. Que a gente também cresça, sem pressa e sem parar, diante do Senhor e das pessoas.