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Davi: fé diante do gigante
Vem Andar Comigo, Semana 14 · Domingo: Quando o medo ocupou o vale
Neste texto
- Quando o medo ocupou o vale
- O texto
- Para entender o texto
- 1. O medo também interpreta a realidade
- 2. A fidelidade de ontem educa a confiança de hoje
- 3. Davi recusou uma armadura que não sabia usar
- 4. Eu vou contra você em nome do Senhor
- 5. Davi representa um povo que não conseguia lutar
- 6. Fé não é garantia de finais fáceis
- Para conversar com Deus
- Oração de resposta
- Verdade para a mente e o coração
- Pergunta para o caminho
- Resposta para guardar
- Textos para conferir
- Oração
- Hino para guardar no coração
- Nenhum Golias temerei
- Para meditar
- A semana
- Para estudar mais
- Obras citadas
Tema: medo, confiança, coragem e a honra do nome de Deus
Leitura principal: 1 Samuel 17
Leituras complementares: Deuteronômio 20:1–4; Salmos 20; 27; 144:1–2; Hebreus 11:32–34; Efésios 6:10–18
Verdade central: A fé não nega o tamanho da ameaça nem confia numa grandeza escondida dentro de nós. Ela obedece porque contempla a fidelidade de Deus, de quem vêm o livramento, a força e a esperança.
Quando o medo ocupou o vale
Dois exércitos estão em montes opostos, separados pelo vale de Elá. Um guerreiro filisteu avança e desafia Israel. O texto chama esse homem de campeão: um combatente que representa o seu povo num confronto entre representantes.
Golias é alto, experiente e fortemente armado. Os manuscritos antigos divergem sobre a altura exata dele, mas concordam no ponto da narrativa: diante dele, Israel se sente pequeno. Durante quarenta dias, a voz do gigante organiza a imaginação do acampamento. Saul e os seus soldados passam a enxergar a realidade segundo a força do filisteu.
Então chega Davi. Ele não aparece em busca de fama, mas trazendo comida para os irmãos e notícias para o pai. Ouve as mesmas palavras que todos ouviram. Porém, faz uma pergunta diferente: quem é esse homem para afrontar os exércitos do Deus vivo? “Porque quem é este filisteu incircunciso, para que provoque aos esquadrões do Deus vivente?” (1 Samuel 17:26, Bíblia Livre).
O texto
Leitura principal: 1 Samuel 17
Leitura: 1 Samuel 17:1–11, 20–26, 32–40, 45–51
E os filisteus juntaram seus exércitos para a guerra, e congregaram-se em Socó, que é de Judá, e assentaram o campo entre Socó e Azeca, em Efes-Damim.
E também Saul e os homens de Israel se juntaram, e assentaram o acampamento no vale de Elá, e ordenaram a batalha contra os filisteus.
E os filisteus estavam sobre o um monte da uma parte, e Israel estava sobre o outro monte da outra parte, e o vale entre eles:
Saiu então um homem do acampamento dos filisteus que se pôs entre os dois campos, o qual se chamava Golias, de Gate, e tinha de altura seis côvados e um palmo.
E trazia um capacete de bronze em sua cabeça, e ia vestido com couraças de placas: e era o peso da couraça cinco mil siclos de bronze:
E sobre suas pernas trazia caneleiras de ferro, e escudo de bronze a seus ombros.
A haste de sua lança era como um lançador de tear, e tinha o ferro de sua lança seiscentos siclos de ferro: e ia seu escudeiro diante dele.
E parou-se, e deu vozes aos esquadrões de Israel, dizendo-lhes: Para que saís a dar batalha? não sou eu o filisteu, e vós os servos de Saul? Escolhei dentre vós um homem que venha contra mim:
Se ele puder lutar comigo, e me vencer, nós seremos vossos servos: e se eu puder mais que ele, e o vencer, vós sereis nossos servos e nos servireis.
E acrescentou o filisteu: Hoje eu desafiei o acampamento de Israel; dá-me um homem que lute comigo.
E ouvindo Saul e todo Israel estas palavras do filisteu, perturbaram-se, e tiveram grande medo.
Levantou-se, pois, Davi de manhã, e deixando as ovelhas ao cuidado de um guarda, foi-se com sua carga, como Jessé lhe havia mandado; e chegou ao entrincheiramento do exército, o qual havia saído em ordem de batalha, e tocava alarme para a luta.
Porque tanto os israelitas como os filisteus estavam em ordem de batalha, esquadrão contra esquadrão.
E Davi deixou de sobre si a carga em mão do que guardava a bagagem, e correu ao esquadrão; e chegado que houve, perguntava por seus irmãos, se estavam bem.
E estando ele falando com eles, eis que aquele homem que se punha em meio dos dois acampamentos, que se chamava Golias, o filisteu de Gate, saiu dos esquadrões dos filisteus, e falou as mesmas palavras; as quais ouviu Davi.
E todos os homens de Israel que viam aquele homem, fugiam de sua presença, e tinham grande temor.
E cada um dos de Israel dizia: Não vistes aquele homem que saiu? Ele se adianta para provocar a Israel. Ao que lhe vencer, o rei lhe enriquecerá com grandes riquezas, e lhe dará sua filha, e fará livre de tributos a casa de seu pai em Israel.
Então falou Davi aos que junto a ele estavam, dizendo: Que farão ao homem que vencer a este filisteu, e tirar a humilhação de Israel? Porque quem é este filisteu incircunciso, para que provoque aos esquadrões do Deus vivente?
E disse Davi a Saul: Não desmaie ninguém por causa dele; teu servo irá e lutará com este filisteu.
E disse Saul a Davi: Não poderás tu ir contra aquele filisteu, para lutar com ele; porque tu és jovem, e ele um homem de guerra desde sua juventude.
E Davi respondeu a Saul: Teu servo era pastor das ovelhas de seu pai, e vinha um leão, ou um urso, e tomava algum cordeiro do rebanho,
E saía eu atrás dele, e feria-o, e livrava-lhe de sua boca: e se se levantava contra mim, eu o segurava pelo queixo, feria-o, e o matava.
Fosse leão, fosse urso, teu servo o matava; pois este filisteu incircunciso será como um deles, porque provocou ao exército do Deus vivente.
E acrescentou Davi: o SENHOR que me livrou das garras do leão e das garras do urso, ele também me livrará da mão deste filisteu. E disse Saul a Davi: Vai, e o SENHOR seja contigo.
E Saul revestiu a Davi de suas roupas, e pôs sobre sua cabeça um capacete de bronze, e armou-lhe de couraça.
E cingiu Davi sua espada sobre suas roupas, e provou a andar, porque nunca havia provado. E disse Davi a Saul: Eu não posso andar com isto, porque nunca o pratiquei. E lançando de si Davi aquelas coisas,
Tomou seu cajado em sua mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no saco pastoril e na sacola que trazia, e com sua funda em sua mão foi até o filisteu.
Então disse Davi ao filisteu: Tu vens a mim com espada e lança e escudo; mas eu venho a ti no nome do SENHOR dos exércitos, o Deus dos esquadrões de Israel, que tu provocaste.
o SENHOR te entregará hoje em minha mão, e eu te vencerei, e tirarei tua cabeça de ti: e darei hoje os corpos dos filisteus às aves do céu e aos animais da terra: e saberá a terra toda que há Deus em Israel.
E saberá toda esta congregação que o SENHOR não salva com espada e lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará em nossas mãos.
E aconteceu que, quando o filisteu se levantou para ir e chegar-se contra Davi, Davi se deu pressa, e correu ao combate contra o filisteu.
E metendo Davi sua mão no saco, tomou dali uma pedra, e atirou-a com a funda, e feriu ao filisteu na testa: e a pedra ficou fincada na testa, e caiu em terra sobre seu rosto.
Assim venceu Davi ao filisteu com funda e pedra; e feriu ao filisteu e o matou, sem ter Davi espada em sua mão.
Mas correu Davi e pôs-se sobre o filisteu, e tomando a espada dele, tirando-a de sua bainha, o matou, e cortou-lhe com ela a cabeça. E quando os filisteus viram seu gigante morto, fugiram.
(1 Samuel 17:1-11,20-26,32-40,45-51, Bíblia Livre)
Para entender o texto
O capítulo vem logo depois da unção de Davi. Em 1 Samuel 16, Samuel derrama o azeite sobre o filho mais novo de Jessé, “e desde aquele dia em diante o espírito do SENHOR tomou a Davi” (1 Samuel 16:13, Bíblia Livre). Ninguém no acampamento sabe disso. Keil e Delitzsch, comentaristas alemães do século XIX, dizem que esse primeiro feito heroico foi “o primeiro passo de Davi no caminho do trono, ao qual Jeová tinha resolvido elevá-lo”.
Os filisteus moravam na planície da costa; Israel, nas montanhas de Judá. O vale de Elá, cujo nome lembra o terebinto, uma árvore grande da região, ficava na passagem entre as duas terras. Os filisteus acampam entre Socó e Azeca; Israel, do outro lado: “os filisteus estavam sobre o um monte da uma parte, e Israel estava sobre o outro monte da outra parte, e o vale entre eles” (1 Samuel 17:3, Bíblia Livre).
O texto hebraico dá a Golias “seis côvados e um palmo” (1 Samuel 17:4, Bíblia Livre), perto de três metros. Adam Clarke, o grande comentarista metodista do começo do século XIX, registra que outras testemunhas antigas leem menos: “A Septuaginta lê quatro côvados e um palmo; e Josefo lê o mesmo.” Seja qual for a medida, Keil e Delitzsch falam de “uma grande altura, sem dúvida, mas não totalmente sem paralelo”.
Três palavras ajudam a ler o capítulo.
Em primeiro lugar, campeão (em hebraico, ish habbenayim). A expressão quer dizer, ao pé da letra, “o homem do meio” ou “o homem entre os dois”. A Bíblia Livre guarda essa imagem quando diz que Golias “se pôs entre os dois campos” (1 Samuel 17:4, Bíblia Livre). Clarke explica que é “o homem que se encarrega de resolver as disputas entre dois exércitos ou nações”. O campeão luta no lugar de todos, e o resultado vale para todos. Essa palavra vai voltar no quinto ponto.
Em segundo lugar, afrontar (charaf). Golias grita: “Hoje eu desafiei o acampamento de Israel” (1 Samuel 17:10, Bíblia Livre). Clarke explica que a expressão de Golias, ani cheraphti, quer dizer “eu dispo e deixo descobertos” os exércitos de Israel, “porque ninguém ousava lutar com ele”. A mesma raiz aparece na pergunta de Davi sobre quem vai “tirar a humilhação de Israel” (1 Samuel 17:26, Bíblia Livre). O desafio expõe Israel ao ridículo e, junto com Israel, o Deus de Israel.
Em terceiro lugar, a expressão em nome de (be-shem). Na Bíblia, o nome de Deus quer dizer o próprio Deus que se revelou e prometeu agir. Golias vem com as suas armas; Davi vem “no nome do SENHOR dos exércitos” (1 Samuel 17:45, Bíblia Livre). O capítulo inteiro gira em torno dessa diferença.
1. O medo também interpreta a realidade
O exército não inventou o perigo. Golias tinha armas, treino e força. A fé bíblica não exige que chamemos de imaginárias as ameaças reais. Um diagnóstico pode ser grave; uma injustiça, poderosa; uma perda, irreversível. A coragem não começa com a negação.
O problema é deixar que a ameaça se torne a única intérprete da realidade. Israel calcula a armadura de Golias e esquece a história do Senhor. O texto descreve a reação em poucas palavras: “E ouvindo Saul e todo Israel estas palavras do filisteu, perturbaram-se, e tiveram grande medo” (1 Samuel 17:11, Bíblia Livre). O gigante não é apenas visto: ele passa a determinar o que todos acreditam ser possível.
Davi põe na conversa aquilo que o medo tinha deixado de fora: Israel pertence ao Deus vivo. A pergunta decisiva deixa de ser quem de nós é forte o bastante? e passa a ser quem é o Senhor a quem servimos, e o que a fidelidade a ele pede agora? Joseph Benson, pregador metodista e amigo de John Wesley, lê assim a pergunta de Davi:
“Assim Davi expressa uma grande indignação por ver que eles, que eram servos do Deus vivo e lutavam sob as suas bandeiras, estivessem tão aterrorizados com o grande volume deste idólatra, como se a força de Deus não fosse maior que a deste gigante.”
(Joseph Benson, Comentário sobre o Antigo e o Novo Testamento, 1 Samuel 17:25–26)
Isso não tem nada de pensamento mágico. Davi não afirma que os filisteus não têm poder. Ele afirma que o poder deles não é absoluto. A fé recoloca fatos verdadeiros dentro de uma verdade maior: Deus vive, governa e permanece fiel. Era isso que a lei mandava o sacerdote dizer ao povo antes da batalha: “não se amoleça vosso coração, não temais […] Que o SENHOR vosso Deus anda convosco” (Deuteronômio 20:3–4, Bíblia Livre). E é isso que Davi vai cantar mais tarde: “O SENHOR é minha luz e minha salvação; a quem temerei?” (Salmo 27:1, Bíblia Livre).
2. A fidelidade de ontem educa a confiança de hoje
Quando Saul duvida da capacidade dele, Davi se lembra do pastoreio: “Teu servo era pastor das ovelhas de seu pai, e vinha um leão, ou um urso, e tomava algum cordeiro do rebanho, E saía eu atrás dele, e feria-o, e livrava-lhe de sua boca: e se se levantava contra mim, eu o segurava pelo queixo, feria-o, e o matava” (1 Samuel 17:34–35, Bíblia Livre). Um leão e um urso ameaçaram o rebanho, e o Senhor livrou o pastor. Davi não apresenta uma coragem espontânea nem uma autoestima excepcional. A memória dele foi treinada pela providência: “o SENHOR que me livrou das garras do leão e das garras do urso, ele também me livrará da mão deste filisteu” (1 Samuel 17:37, Bíblia Livre).
Benson repara em dois lados dessa lembrança. Por um lado, Davi conta os seus feitos com uma modéstia que termina “atribuindo tudo o que tinha feito à bondade e ao poder de Deus”. Por outro, ele “se anima com a experiência que já tinha tido desses atributos divinos agindo em seu favor numa ocasião menos importante, para crer que agiriam também nesta”.
Recordar os livramentos de Deus não quer dizer fabricar uma promessa idêntica para toda situação. Davi tinha sido ungido para uma vocação particular e enfrenta este combate dentro da história da aliança. Ainda assim, existe uma disciplina válida para todo discípulo: a gratidão impede que a crise apague a fidelidade já conhecida.
Também precisamos ler a memória com honestidade. Deus nem sempre nos livrou da dor; muitas vezes nos sustentou dentro dela. Houve orações respondidas como esperávamos e outras acompanhadas de espera, tratamento, luto ou caminhos imprevistos. A fidelidade de Deus não pode ser reduzida ao resultado mais confortável.
Jacó Armínio, professor em Leiden no começo do século XVII, ajuda a pôr a confiança no lugar certo. Ele definiu a confiança em Deus como o ato pelo qual a pessoa, sabendo e querendo, “repousa somente em Deus, esperando dele com segurança todas as coisas que são salutares ou salvadoras para ela”, e acrescentou: “nisso incluímos também a remoção dos males” (Debates privados, LXXII.4). A confiança descansa em Deus antes de esperar qualquer coisa. Às vezes, o que ela recebe é a remoção do mal; às vezes, a força para atravessar o mal.
Ao lembrar, não dizemos: Deus fez o que eu quis antes, portanto vai fazer de novo. Dizemos: Deus não me abandonou; posso obedecer a ele sem exigir o controle do desfecho.
3. Davi recusou uma armadura que não sabia usar
Saul veste Davi com a própria armadura. Davi tenta andar e percebe que não tem treino para aquilo: “Eu não posso andar com isto, porque nunca o pratiquei” (1 Samuel 17:39, Bíblia Livre). Por isso devolve a armadura e toma o cajado, a funda e cinco pedras lisas do ribeiro.
Saul não estava errado em querer proteger o rapaz. Clarke observa que o rei “sabia que, embora a batalha fosse do Senhor, meios prudentes deviam ser usados para garantir o sucesso”. O problema não era a prudência, mas a medida errada.
Não é necessário transformar a armadura em símbolo de toda capacidade humana nem chamar de “carne” as ferramentas comuns. O texto não condena equipamento militar, e mais tarde Davi vai usar armas. A razão apresentada é simples: ele não estava habituado à armadura de Saul. Matthew Henry, pastor presbiteriano e autor de um comentário da Bíblia inteira, tirou disso uma lição para todos:
“Não se deve perguntar quão excelente é uma coisa, mas quão apropriada. Por mais rica que seja a roupa de Saul e por mais forte que seja a sua armadura, em que Davi fica melhor, se elas não servem nele? Mas a fé, a oração, a verdade e a justiça, toda a armadura de Deus e o sentimento que houve em Cristo são igualmente necessários a todos os servos do Senhor, seja qual for o trabalho deles.”
(Matthew Henry, Comentário conciso sobre a Bíblia inteira, 1 Samuel 17:31–39)
A funda também não era um brinquedo frágil. Nas mãos de alguém experiente, era uma arma séria. Os homens escolhidos de Benjamim atiravam “uma pedra com a funda a um fio de cabelo, e não erravam” (Juízes 20:16, Bíblia Livre). Keil e Delitzsch supõem que Davi, no ofício de pastor, tinha ficado tão hábil quanto eles. Clarke é direto: “Davi era evidentemente um atirador experiente, e a sua funda dava a ele grande vantagem sobre Golias.” Davi oferece ao Senhor habilidades cultivadas na vida comum. A confiança em Deus não despreza preparo, prática ou instrumentos, mas recusa tratar essas coisas como salvadoras: “O cavalo é preparado para o dia da batalha, mas a vitória vem do SENHOR” (Provérbios 21:31, Bíblia Livre).
Há sabedoria nisso. Em momentos de pressão, podemos vestir a personalidade, os métodos e a vocação de outra pessoa. Porém, a fidelidade não é imitação ansiosa. Deus forma pessoas dentro de histórias concretas e chama cada uma a servir com verdade, maturidade e dependência.
4. Eu vou contra você em nome do Senhor
Davi não anuncia a superioridade da sua técnica. Ele vai em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus que Golias afrontou: “Tu vens a mim com espada e lança e escudo; mas eu venho a ti no nome do SENHOR dos exércitos, o Deus dos esquadrões de Israel, que tu provocaste” (1 Samuel 17:45, Bíblia Livre). Clarke resume a cena numa frase: “O que Golias esperava das suas armas, Davi esperava do nome inefável.” Inefável quer dizer aquilo que nenhuma palavra consegue dizer por inteiro.
O zelo de Davi não nasce de orgulho ferido, mas do reconhecimento de que a honra de Israel depende de Deus, e não da aparência dos seus guerreiros. Benson compara os dois discursos. O de Golias é a fala de um homem que confia na própria força e só pensa na própria glória. As palavras de Davi, “embora exprimam a mesma certeza de vitória, são humildes e modestas, não atribuindo nada a si mesmo, mas tudo ao poder e à bondade de Deus”.
A frase “do SENHOR é a guerra” (1 Samuel 17:47, Bíblia Livre) não quer dizer que a cena deixe de ser militar. Há exércitos, sangue e morte. Também não autoriza cristãos a aplicar a violência de uma guerra de Israel contra pessoas que hoje rejeitam ou ridicularizam a fé. A Igreja testemunha sob a ordem do Messias crucificado, amando os inimigos e vencendo o mal com o bem. João Calvino, o reformador de Genebra, no seu comentário a Efésios 6:12, onde Paulo diz que a nossa luta não é contra carne e sangue, aplica isso às nossas reações:
“Lembremo-nos disso quando o tratamento injusto que recebemos dos outros nos provoca à vingança. […] Lutar contra carne e sangue será não apenas inútil, mas muito pernicioso.”
(João Calvino, Comentário sobre Efésios, 6:12)
A frase de Davi declara que a libertação não será creditada à espada e à lança: “E saberá toda esta congregação que o SENHOR não salva com espada e lança” (1 Samuel 17:47, Bíblia Livre). Davi age, corre e lança a pedra; porém, o resultado deve tornar conhecido quem salva. A ação obediente e a dependência não competem. A graça de Deus não nos torna passivos, e a nossa ação não torna Deus dispensável. Armínio explicou essa cooperação ao tratar da confiança e da honra que devemos a Deus:
“A causa principal é o Espírito Santo, que infunde no homem, pelo ato da regeneração, os afetos de amor, temor, confiança e honra; pela graça que desperta, ele desperta, move e incita o homem a atos segundos; e, pela graça que coopera, concorre com o próprio homem para produzir esses atos segundos.”
(Jacó Armínio, Debates privados, LXXII.9)
Atos segundos são as ações concretas que nascem desses afetos. Paulo diz a mesma coisa: “exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir” (Filipenses 2:12–13, Bíblia Livre). A obra é de Deus, do começo ao fim, e mesmo assim somos nós que descemos ao vale.
A coragem cristã é esse movimento: discernir o que é fiel, usar com responsabilidade o que recebemos e recusar o domínio do medo sobre a consciência.
5. Davi representa um povo que não conseguia lutar
Israel fica imóvel enquanto o seu representante desce ao vale. Golias tinha proposto as regras: o duelo decidiria a sorte dos dois povos (1 Samuel 17:9). Aqui volta a palavra do começo: o campeão é o homem do meio, que luta no lugar de todos. A vitória de Davi muda a condição de todos. Quando Golias cai, os israelitas recuperam a coragem e perseguem os filisteus: “E levantando-se os de Israel e de Judá, deram grito, e seguiram aos filisteus” (1 Samuel 17:52, Bíblia Livre).
Existe aqui um padrão que prepara a esperança messiânica. Davi não é Jesus disfarçado, e nem todo detalhe da narrativa precisa receber um significado alegórico. Ele é um personagem histórico, pecador e limitado, que mais tarde vai falhar de modo terrível. Ainda assim, como rei ungido que vence em favor do povo, ele participa de uma linha bíblica que culmina no Filho de Davi. Os comentaristas antigos perceberam isso. Benson cita o Dr. Dodd, que lembra: “Alguns escritores consideraram esta destruição de Golias por Davi um tipo da vitória de Jesus Cristo, no seu estado de fraqueza e humilhação, sobre os poderes fortes e gigantescos do inferno e da sepultura.” Matthew Henry, ao comentar o pastor que arriscou a vida pelo rebanho, escreveu: “Isso nos lembra Cristo, o bom Pastor, que não apenas se arriscou, mas deu a vida pelas ovelhas.”
Jesus enfrenta inimigos que não podíamos derrotar: o pecado, a acusação e a morte. Ele não vence por superioridade bélica, mas pela obediência até a cruz e pela ressurreição. Hebreus diz que ele participou da nossa carne e do nosso sangue “a fim de pela morte aniquilar ao que tinha o poder da morte, isto é, o diabo; e libertar a todos os que, por medo da morte, estavam sujeitos à servidão durante a vida toda” (Hebreus 2:14–15, Bíblia Livre). A vitória dele é recebida antes de ser imitada. Não começamos como heróis procurando gigantes; começamos como pessoas necessitadas do Rei que lutou por nós.
Só então somos chamados a permanecer firmes. A armadura de Efésios 6 não equipa a Igreja para ferir seres humanos, mas para resistir ao mal com verdade, justiça, fé, salvação, evangelho e oração. Calvino insiste que essa armadura precisa ser usada:
“O Senhor nos oferece armas para repelir todo tipo de ataque. Resta a nós aplicá-las ao uso, e não deixá-las penduradas na parede.”
(João Calvino, Comentário sobre Efésios, 6:11)
John Wesley, nas suas notas sobre o Novo Testamento, repara num detalhe da lista de Paulo: “Nenhuma armadura para as costas é mencionada. Devemos sempre encarar os nossos inimigos.” Os inimigos de que Paulo fala não são de carne e sangue. Por isso, firmeza aqui quer dizer não fugir do mal, e nunca atacar pessoas.
6. Fé não é garantia de finais fáceis
Hebreus 11 recorda pessoas que, pela fé, venceram reinos e escaparam da espada, e Davi está na lista (Hebreus 11:32). No mesmo capítulo, outras foram torturadas, perseguidas e mortas sem receber, nesta vida, tudo o que esperavam: “E todos esses, mesmo tendo testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hebreus 11:39, Bíblia Livre). A mesma fé aparece na libertação e na perseverança.
Portanto, não devemos prometer que toda doença será curada agora, que toda dívida vai desaparecer ou que todo opressor vai cair no tempo que desejamos. Isso acrescentaria à história uma regra que a própria Bíblia não estabelece e ainda transformaria o sofrimento persistente em suposta falta de fé.
O evangelho promete algo mais firme: em Cristo, nada pode nos separar do amor de Deus; a morte não terá a palavra final; a justiça será estabelecida; e o nosso trabalho no Senhor não é inútil. Paulo tinha essa certeza: “nem a morte, nem a vida […] nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38–39, Bíblia Livre). Algumas ameaças são removidas. Outras precisam ser atravessadas. Nenhuma recebe autoridade para nos arrancar das mãos de Deus.
Calvino, comentando Hebreus 11:35, olhou para os dois grupos juntos: os que Deus livrou por meios novos e incomuns e os que suportaram a pobreza, o desprezo e a tortura até a morte.
“Parecem, então, ter sido tratados de modo muito diferente dos primeiros; e, no entanto, a fé reinava em ambos e era igualmente poderosa em ambos.”
(João Calvino, Comentário sobre Hebreus, 11:35)
Isso vale também para o luto. Matthew Henry escreveu que, “embora não esperemos ter os nossos parentes ou amigos mortos devolvidos à vida neste mundo, a fé nos sustentará diante da perda deles e nos dirigirá para a esperança de uma ressurreição melhor”.
Davi nos ensina a não medir o Senhor pelo gigante. Cristo nos assegura que a fidelidade de Deus chegou até a morte e abriu, pela ressurreição, o futuro definitivo. Por isso podemos obedecer com uma coragem humilde: sem triunfalismo, sem passividade e sem fingimento.
Para conversar com Deus
- Que ameaça tem se tornado a única intérprete da sua realidade?
- Que experiência da fidelidade de Deus você precisa recordar sem transformar essa experiência em fórmula?
- Você está tentando vestir uma identidade ou um método que não corresponde à vocação que recebeu?
- Que passo de obediência é possível hoje, mesmo sem controle sobre o resultado?
Oração de resposta
Deus vivo e fiel, os nossos olhos se fixam com facilidade no que nos ameaça. Perdoa-nos quando negamos o perigo ou quando o tratamos como poder absoluto. Lembra-nos da tua presença, livra-nos da confiança orgulhosa nos nossos recursos e do desprezo pelos meios responsáveis. Por Jesus, o Rei que venceu por nós, dá-nos coragem para obedecer, humildade para reconhecer os nossos limites e perseverança quando o caminho não termina como desejamos. Guarda-nos na verdade, na justiça e no amor. Amém.
Verdade para a mente e o coração
Pergunta para o caminho
O que faz da coragem de Davi uma expressão de fé, e não de autoconfiança?
Resposta para guardar
Davi não confia em ser maior que Golias, mas no Deus vivo, que tinha sido fiel e cuja honra estava sendo afrontada. Ele oferece as suas habilidades e age com decisão, reconhecendo que o livramento pertence ao Senhor. A fé cristã também não nega as ameaças nem garante o resultado desejado nesta vida: ela recebe a vitória de Cristo e obedece a Deus com coragem, sabedoria e esperança.
Textos para conferir
1 Samuel 17; Salmos 20; 27; Hebreus 11:32–40; Romanos 8:31–39; Efésios 6:10–18.
Oração
Senhor, ensina-me a ver toda ameaça à luz da tua fidelidade e a obedecer sem orgulho nem medo. Amém.
Hino para guardar no coração
Nenhum Golias temerei
Autor: Charles Wesley
Título original: “Mindful of My Rescues Past”
Fonte: Short Hymns on Select Passages of the Holy Scriptures, vol. 1 (1762), Hino 483, sobre 1 Samuel 17:37
Versão: tradução devocional inédita em português do Brasil, sem métrica para canto
Lembrado dos livramentos passados,
quando o pecado e o inferno estavam perto,
em ti, Senhor, deposito a minha alma
e nenhum Golias temerei.
Tu, em quem ponho a minha confiança,
ainda mostrarás o teu poder protetor;
salva-me de todo desejo que se agiganta
e guarda-me até aquele Dia.
Para meditar
Charles Wesley começa no vale de Elá e termina dentro do coração. O “Golias” da última petição não é uma pessoa a destruir, mas um desejo desordenado que pretende dominar a alma. A coragem que enfrenta ameaças de fora precisa caminhar com a santidade que entrega ao Espírito os inimigos de dentro. O mesmo Senhor que sustenta no conflito também purifica os afetos e guarda o seu povo até o Dia de Cristo.
Pergunta: Que desejo tem crescido sem medida em você e precisa ser submetido à graça santificadora de Deus?
A semana
De segunda a sábado, um devocional curto por dia continua o encontro de hoje, com leitura, prática e oração.
- Segunda-feira, nomeie a voz do medo: O que tem definido o horizonte?
- Terça-feira, exercite a memória agradecida: A providência não começou hoje
- Quarta-feira, sirva com o que recebeu: Funda, habilidade e dependência
- Quinta-feira, recuse a coragem violenta: O inimigo não é carne e sangue
- Sexta-feira, permaneça quando o gigante não cai: A fé também suporta
- Sábado, descanse na vitória do rei: Antes de lutar, receba
Para estudar mais
- 1 Samuel 17 na Bíblia do site, com as notas de John Wesley versículo a versículo
- Paralisados pelo medo: Sermão em 1 Samuel 17:1-31
Obras citadas
- Armínio, Jacó. Debates privados, LXXII (“Sobre o amor, o temor, a confiança e a honra devidos a Deus”), teses IV e IX. Em The Works of James Arminius, trad. James Nichols, vol. 2.
- Benson, Joseph. Commentary on the Old and New Testaments, 1 Samuel 17:25–26, 17:36–37, 17:47 e nota final do capítulo (citando o Dr. Dodd).
- Calvino, João. Commentaries on the Epistle of Paul to the Ephesians, 6:11 e 6:12.
- Calvino, João. Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews, 11:35.
- Clarke, Adam. Commentary on the Bible, 1 Samuel 17:4, 17:10, 17:38, 17:40 e 17:45.
- Henry, Matthew. Concise Commentary on the Whole Bible, 1 Samuel 17:31–39 e Hebreus 11:32–38.
- Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament, 1 Samuel 17:4, 17:12–31 e 17:40.
- Wesley, John. Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Efésios 6:14.
- Wesley, John. Sermão 47, Heaviness through Manifold Temptations, I.1.
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